O Drácula de Bela Lugosi nasceu num palco da Broadway em 1927, três anos antes do cinema
Bela Lugosi morreu de ataque cardíaco em Los Angeles, em 16 de agosto de 1956, aos 73 anos. São 70 anos em 2026. O rosto que sobrou dele é o do Conde Drácula, e a imagem que circula é quase sempre a do filme de 1931.
O conde dele começou antes disso, e num palco. Dracula estreou na Broadway em 5 de outubro de 1927, no Fulton Theatre, na rua 46, com Lugosi no papel-título. O filme da Universal só chegaria em fevereiro de 1931. A ficha do Playbill Vault registra 261 apresentações até 19 de maio de 1928, adaptação de Hamilton Deane e John L. Balderston, produção de Horace Liveright e direção de cena de Ira Hards.
De Lugos até um teatro da rua 46
Ele nasceu Béla Ferenc Dezső Blaskó em 20 de outubro de 1882, em Lugos, então na Hungria e hoje Lugoj, na Romênia. O nome artístico saiu da cidade. Estudou na academia teatral de Budapeste e estreou nos palcos húngaros no começo do século 20. Rodou companhias de repertório antes de entrar para o Teatro Nacional da Hungria, onde ficou de 1913 a 1919. A trajetória está no verbete do International Dictionary of Films and Filmmakers e no verbete biográfico da Gale, os dois no Encyclopedia.com.
Deixou o país em 1919, trabalhou em filmes alemães e desembarcou nos Estados Unidos em 1921. Resolveu o problema da língua do jeito mais teatral possível: montou em Nova York uma companhia de repertório com artistas húngaros emigrados.
A estreia americana em inglês veio em The Red Poppy, no Greenwich Village Theatre. Foram 13 apresentações, de 20 a 30 de dezembro de 1922, com Lugosi no papel de Fernando, conforme o Playbill Vault. Ele não falava inglês e decorou o texto foneticamente, palavra por palavra, conta o Daily News Hungary. O verbete biográfico da Gale põe o episódio na mesma peça. Foi cinco anos antes de Dracula.
O palco veio primeiro, e o conde suave nasceu nele
A peça não nasceu em Nova York. Hamilton Deane adaptou o romance de Bram Stoker para o palco, e a montagem inicial subiu em 1924 no Grand Theatre, em Derby, na Inglaterra, conforme o banco de dados Theatricalia. John L. Balderston reescreveu o texto de Deane para a temporada nova-iorquina.
O que essa versão fixou não estava no livro.
"O conde da montagem britânica original era suave e charmoso, uma concepção de Drácula que não está no romance original", escreveu o curador John Oliver no site do British Film Institute, em tradução da redação.
O catálogo do American Film Institute é direto quanto à ordem dos fatos: Lugosi criou o papel no palco, na estreia americana de 5 de outubro de 1927, e o cinema veio atrás. Lon Chaney era o primeiro escolhido para o filme e morreu em 1930. Dracula, de Tod Browning, estreou em 14 de fevereiro de 1931 e custou 341.191,20 dólares, valor de um cronograma de produção citado pelo AFI. Lugosi ficou com o espetáculo por três anos, um na Broadway e dois em turnê, registra o verbete da Gale.
O texto sobreviveu ao ator
Dois meses depois da estreia do filme, a mesma peça voltou à Broadway sem ele. A remontagem do Royale Theatre abriu em 13 de abril de 1931, com Courtney White como o conde, e fechou em 30 de abril. Foram oito apresentações.
O texto de Deane e Balderston teve destino melhor que o do ator. Em 20 de outubro de 1977 ele voltou à Broadway, no Martin Beck Theatre, com Frank Langella no papel-título, cenário e figurinos de Edward Gorey. Ficou em cartaz até 6 de janeiro de 1980 e levou dois Tony em 1978, o de produção mais inovadora de um revival e o de figurino, para Gorey. Foram 925 apresentações, contra as 261 de Lugosi.
O texto continua no catálogo de licenciamento da Concord Theatricals, que lista Dracula com três nomes na capa: John L. Balderston, Hamilton Deane e Bram Stoker.
Com o ator a conta foi outra. Depois do filme, ele passou a ser chamado sempre para o mesmo tipo de papel. O verbete de Anthony Ambrogio no International Dictionary of Films and Filmmakers dá o tamanho da queda: depois de 1933, a única aparição de Lugosi num filme de primeira linha foi uma ponta de uma cena em Ninotchka.
Em São Paulo, o conde chegou por outros textos
A cidade viu dois Dráculas em dois anos, e cada um deles chegou por um texto diferente.
Drácula – Um Terror de Comédia tem texto de Gordon Greenberg e Steven Rosen. A ficha divulgada pela Palco 7 Produções apresenta a peça como uma comédia em temporada no Off-Broadway e traz tradução e adaptação de Bruno Narchi, direção de Ricardo Grasson e Heitor Garcia e Tiago Abravanel no papel do conde. A temporada ocupou o Teatro Bravos entre agosto e outubro de 2025.
Drácula – O Musical veio por outro caminho ainda. O espetáculo da Segundo Ato Entretenimento tem texto e versões de Ella Dalcin, direção de Glaucia da Fonseca e Nando Pradho como Drácula, com canções compostas por Di Angelo Mathias, Leopardo e Paula Souza Lima, segundo a resenha da Rolling Stone Brasil. Estreou em junho de 2026 no Teatro das Artes e teve mais duas sessões em julho, nos dias 14 e 28.
Nenhuma das duas fichas divulgadas cita Deane ou Balderston, e a redação não localizou o documento de licenciamento de nenhuma das montagens. A filiação exata de cada texto fica sem confirmação aqui.
O papel que ele criou num teatro da rua 46 ficou maior que o ator, e nunca mais soltou. Seguiu em cartaz muito depois de 1956, inclusive em São Paulo, em textos que Lugosi nunca leu.



