Do sertão do Piauí ao thriller queer: 15 filmes disputam a chance de representar o Brasil no Oscar 2027
Academia Brasileira de Cinema reduz disputa a seis títulos em 9 de setembro e anuncia representante nacional no dia 16; seleção reúne vencedores de Gramado, filmes que passaram por Berlim e nomes como Grace Passô, Antonio Pitanga e Carlos Saldanha
Depois de duas temporadas consecutivas em que o cinema brasileiro chegou ao Oscar com força inédita, começa uma nova corrida.
Quinze filmes foram habilitados pela Academia Brasileira de Cinema para disputar a escolha do representante do país na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. A lista será reduzida a seis títulos em 9 de setembro. Uma semana depois, em 16 de setembro, será anunciado o longa que o Brasil enviará oficialmente à Academia de Hollywood.
A escolha acontece em um momento particularmente diferente para o cinema nacional.
Em 2025, Ainda Estou Aqui venceu o primeiro Oscar competitivo da história do Brasil ao levar a estatueta de Melhor Filme Internacional. O longa de Walter Salles também concorreu a Melhor Filme e levou Fernanda Torres à disputa de Melhor Atriz. No ano seguinte, O Agente Secreto manteve o país no centro da temporada internacional com quatro indicações: Filme, Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco.
Nenhum desses resultados garante qualquer vantagem ao filme escolhido neste ano. Mas ajuda a explicar por que uma etapa que durante muito tempo parecia interessar principalmente à própria indústria audiovisual agora recebe outra atenção.
E, se existe algo que os 15 candidatos deixam claro, é que não há uma fórmula única tentando ocupar essa vaga.
Há um documentário sobre meninas crescendo no sertão do Piauí. Um thriller queer em que sexo, poder e exposição pública se misturam. Uma reconstrução da Revolta dos Malês. A história de Amyr Klink atravessando o Atlântico a remo. Um drama familiar sobre luto. Um filme sobre um dos hackers mais conhecidos do país.
Desta vez, o caminho brasileiro até Hollywood começa por lugares bastante diferentes.
Do sertão à vida noturna
A seleção reúne 13 ficções e dois documentários, segundo a relação oficial da Academia Brasileira de Cinema.
Em A Fabulosa Máquina do Tempo, Eliza Capai parte de Guaribas, no sertão do Piauí, para acompanhar meninas que transitam entre redes sociais, cultos evangélicos, brincadeiras e expectativas sobre o futuro. A invenção de uma máquina do tempo permite que elas observem as histórias das mães e avós e imaginem para si outras possibilidades de vida.
O filme esteve na Berlinale deste ano e recupera uma relação antiga de Capai com a região: a diretora já havia estado em Guaribas em 2013 para investigar os impactos do Bolsa Família sobre as dinâmicas familiares e, especialmente, sobre as mulheres da cidade.
Em outro extremo da seleção está Ato Noturno, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher.
O thriller acompanha um ator ambicioso e um político em ascensão que mantêm um relacionamento secreto e passam a explorar o desejo por sexo em espaços públicos. Quanto maior a possibilidade de exposição, e quanto mais os dois se aproximam da fama, maior também se torna a atração pelo risco.
A produção mantém a trajetória de Reolon e Matzembacher dentro de um cinema abertamente queer e também passou pelo Festival de Berlim, onde teve estreia mundial na mostra Panorama.
Entre um filme e outro, a lista atravessa infância, sexualidade, política, memória histórica, luto, violência, fama e relações familiares.
Dois vencedores de Gramado estão na corrida
A seleção também coloca lado a lado os vencedores das duas últimas edições do Festival de Gramado.
Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini, chega à disputa depois de vencer o Kikito de Melhor Filme em 2025. O thriller ambientado em Cuiabá também recebeu naquele ano os prêmios de roteiro, montagem e ator coadjuvante para Xamã. A trama cruza personagens aparentemente desconectados — entre eles um músico em luto, uma enfermeira em um relacionamento abusivo, uma policial e um advogado — até colocá-los em um mesmo percurso de violência.
O vencedor mais recente ainda está com o Kikito praticamente nas mãos.
Nosso Segredo, primeiro longa dirigido por Grace Passô, foi escolhido como Melhor Filme Brasileiro no Festival de Gramado no último sábado, 22 de agosto. Também venceu Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório.
O drama acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda enquanto cada integrante encontra uma maneira diferente de escapar do luto. O filme chega comercialmente aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 27 de agosto, poucos dias depois da vitória em Gramado.
Grace, portanto, entra na corrida nacional justamente no momento de maior exposição do longa.
Mas não saiu sozinha de Gramado fortalecida.
Feito Pipa, de Allan Deberton, foi escolhido pelo Júri Popular e ainda rendeu ao cineasta o prêmio de Melhor Direção, a Teca Pereira o de Melhor Atriz e a Lázaro Ramos o de Melhor Ator Coadjuvante. O jovem Yuri Gomes recebeu ainda uma menção honrosa.
Antes disso, o longa já havia estreado internacionalmente na Berlinale. A história acompanha Gugu, um menino de 12 anos criado pela avó que precisa encarar a possibilidade de morar com um pai com quem mantém uma relação difícil.
Ou seja: entre os 15 habilitados, há filmes chegando à seleção com trajetórias de festival já bastante estabelecidas — mas isso está longe de ser o único perfil em disputa.
Antonio Pitanga retorna à direção; Carlos Saldanha troca a animação pelo Atlântico
Um dos nomes mais experientes da lista é Antonio Pitanga, que dirige Malês.
Ambientado em Salvador em 1835, o longa acompanha dois jovens africanos muçulmanos escravizados no Brasil que acabam envolvidos na Revolta dos Malês, uma das mais importantes insurreições de africanos escravizados da história brasileira.
O projeto também representa um retorno raro de Pitanga à direção de longas-metragens: foram mais de quatro décadas entre seu trabalho anterior como diretor e Malês. No elenco estão nomes como Rocco Pitanga, Camila Pitanga, Samira Carvalho, Bukassa Kabengele, Patrícia Pillar e o próprio cineasta.
Já Carlos Saldanha, cineasta brasileiro que construiu parte considerável da carreira em Hollywood e dirigiu animações como Rio e títulos da franquia A Era do Gelo, aparece na lista com 100 Dias.
O filme leva para a ficção a travessia realizada por Amyr Klink, que cruzou sozinho o Atlântico Sul a remo entre a África e o Brasil. Na versão dirigida por Saldanha, a viagem é construída também a partir do isolamento, das lembranças e dos conflitos internos do navegador.
São dois exemplos de como até mesmo os nomes mais conhecidos da seleção chegam por caminhos pouco parecidos.
Um olha para uma insurreição ocorrida no Brasil escravista.
O outro coloca um homem sozinho no meio do oceano.
Infância aparece por diferentes caminhos
As crianças também ocupam espaço importante entre os concorrentes.
Além de Feito Pipa e das meninas de A Fabulosa Máquina do Tempo, A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo, acompanha duas garotas de 10 anos que se conhecem dentro de um hospital.
Glória passa as férias no local onde a mãe trabalha como enfermeira; Sofia acompanha a internação da bisavó. A amizade entre as duas se prolonga depois que meninas e mães seguem para o interior de Goiás.
O filme também teve passagem pelo Festival de Berlim, reforçando outra característica perceptível na relação dos habilitados: vários deles já chegam à escolha brasileira depois de circular por festivais internacionais.
Essa trajetória, porém, também não determina o resultado.
Quem decide é uma comissão de 15 profissionais do cinema brasileiro. Do total, 12 foram eleitos pelos associados da Academia Brasileira de Cinema e três indicados pela diretoria da instituição. O grupo se reúne em 9 de setembro para selecionar os seis finalistas e novamente no dia 16 para definir o escolhido.
Os 15 filmes que disputam a escolha brasileira
Os títulos habilitados pela Academia Brasileira de Cinema são:
100 Dias — Carlos Saldanha
A Conspiração Condor — André Sturm
A Fabulosa Máquina do Tempo — Eliza Capai
A Natureza das Coisas Invisíveis — Rafaela Camelo
Ato Noturno — Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
Cinco Tipos de Medo — Bruno Bini
Dolores — Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes
Feito Pipa — Allan Deberton
Herança de Narcisa — Clarissa Appelt e Daniel Dias
Nosso Segredo — Grace Passô
O Rei da Internet — Fabrício Bittar
Quando Vira a Esquina — Chris Alcazar
Malês — Antonio Pitanga
Papagaios — Douglas Soares
Vicentina Pede Desculpas — Gabriel Martins
Ser escolhido pelo Brasil ainda não significa estar indicado ao Oscar
Há uma distinção importante no meio da expectativa.
O filme anunciado em 16 de setembro não será, naquele momento, um indicado ao Oscar. Será a produção escolhida para representar oficialmente o Brasil na disputa por uma vaga em Melhor Filme Internacional.
A partir daí começa outra seleção, desta vez conduzida pela própria Academy of Motion Picture Arts and Sciences, entre os filmes submetidos pelos diferentes países.
As últimas campanhas brasileiras ajudam a mostrar como esse caminho pode avançar, mas também como cada uma delas começa muito antes da cerimônia.
Em 2025, Ainda Estou Aqui chegou ao fim dessa trajetória com a estatueta. Em 2026, O Agente Secreto recebeu quatro indicações, mas encerrou a noite sem prêmios.
Agora ainda estamos alguns passos antes disso.
Antes da campanha internacional.
Antes das listas da Academia de Hollywood.
Antes dos indicados.
Neste momento, existem 15 filmes brasileiros tentando convencer uma comissão de que são a melhor escolha para representar o país.
Um parte do sertão piauiense. Outro da Salvador de 1835. Há quem atravesse o Atlântico em um barco a remo e quem percorra a vida noturna escondendo um relacionamento. Há crianças, mães, profissionais do sexo, hackers, jornalistas, famílias em luto e pessoas obcecadas por aparecer diante de uma câmera.
Em 9 de setembro, serão seis.
Em 16 de setembro, apenas um seguirá oficialmente para a corrida pelo Oscar.
Os outros 14 não terão perdido uma indicação, porque ela nunca esteve garantida.
Continuarão sendo aquilo que já eram antes de a corrida começar: filmes brasileiros tentando encontrar seu público, com ou sem Hollywood olhando para eles.



