“Como Perder um Homem em 10 Dias” pode voltar e Hollywood continua apaixonada pelos anos 2000
Paramount desenvolve continuação da comédia romântica de 2003 com Kate Hudson na produção; estúdio quer reunir novamente a atriz e Matthew McConaughey, mas projeto ainda procura roteirista e não tem elenco confirmado
A samambaia do amor sobreviveu.
Agora resta descobrir se Andie Anderson e Benjamin Barry também.
A Paramount está desenvolvendo uma sequência de Como Perder um Homem em 10 Dias, com Kate Hudson já ligada ao projeto como produtora. A intenção do estúdio e dos realizadores é reunir novamente Hudson e Matthew McConaughey, protagonistas da comédia romântica lançada em 2003, mas nenhum dos dois está oficialmente contratado para atuar no novo filme neste momento.
É uma diferença importante diante da quantidade de manchetes que inevitavelmente transformarão o anúncio em uma reunião já confirmada.
Andie e Ben ainda não estão de volta.
A continuação se encontra nos primeiros estágios de desenvolvimento e sequer possui roteirista contratado. Segundo a Variety, a Paramount está procurando neste momento quem escreverá o projeto, e uma eventual participação dos atores dependerá justamente da história apresentada. A produtora Stacey Sher, de filmes como Pulp Fiction, Erin Brockovich e Django Livre, também está envolvida na produção ao lado de Hudson.
Talvez essa ausência de roteiro seja, por enquanto, a parte mais interessante da notícia.
Porque fazer Andie e Ben se encontrarem novamente não exige apenas descobrir o que aconteceu com um casal depois de 23 anos.
Exige descobrir em que mundo eles estariam vivendo agora.
O primeiro filme só poderia acontecer daquele jeito em 2003
Lançado em fevereiro de 2003, Como Perder um Homem em 10 Dias constrói toda a sua trama ao redor de duas profissões que ajudam a localizar imediatamente o filme em seu tempo.
Andie Anderson trabalha em uma revista feminina e escreve matérias de comportamento, embora queira produzir jornalismo sobre assuntos que considera mais relevantes.
Ben Barry trabalha em publicidade.
Ela precisa namorar um homem e cometer deliberadamente uma sequência de erros capazes de fazê-lo terminar a relação em dez dias para transformar a experiência em uma reportagem.
Ele, sem saber disso, faz uma aposta profissional de que consegue fazer qualquer mulher se apaixonar por ele no mesmo período.
Naturalmente, escolhem um ao outro.
A premissa continua funcionando como comédia. Mas praticamente todo o ecossistema profissional que coloca aquelas duas pessoas no mesmo experimento amoroso mudou.
A revista impressa que determina tendências de comportamento perdeu a centralidade que ocupava naquele início dos anos 2000. A publicidade foi transformada pelas redes sociais, pelos dados, pelos influenciadores e pelas plataformas digitais. Aplicativos alteraram a maneira como desconhecidos se encontram. E uma reportagem intitulada “Como Perder um Homem em 10 Dias” provavelmente não passaria hoje pelo mesmo caminho até chegar ao público.
Por isso, uma continuação dificilmente poderá apenas repetir o mecanismo original trocando celulares de flip por smartphones.
Ela precisará descobrir quem Andie Anderson se tornou.
E, talvez ainda mais difícil, descobrir o que significa colocar Andie e Ben novamente em uma comédia romântica depois de mais de duas décadas.
Kate Hudson já dizia que voltaria, com uma condição
A possibilidade de uma sequência não surgiu agora.
Em 2024, Kate Hudson contou que ela e McConaughey já haviam conversado sobre uma eventual continuação e que os dois estavam abertos à ideia.
Havia, porém, uma condição: o roteiro precisava justificar o retorno.
Na ocasião, Hudson disse que o que realmente importaria seria a qualidade da história e se os dois se interessariam por ela. Até então, segundo a atriz, simplesmente não havia aparecido o projeto certo.
Dois anos depois, Hudson está oficialmente do outro lado dessa procura.
Como produtora, ela agora participa do desenvolvimento do filme que precisará encontrar justamente o roteiro que dizia esperar.
McConaughey ainda não comentou publicamente o novo projeto. Mas, poucos dias antes de a notícia surgir, deu uma demonstração bastante clara de que o primeiro filme permanece relevante para ele.
Em entrevista ao podcast Happy Sad Confused, publicada em agosto, o ator chamou Como Perder um Homem em 10 Dias de sua comédia romântica favorita e de um título que permanece como uma espécie de referência do gênero ao longo do tempo. Também revelou que, entre todos os seus filmes, é aquele que continua lhe rendendo os maiores pagamentos residuais.
Segundo McConaughey, durante a era em que DVD e televisão por assinatura tinham peso ainda maior nesse mercado, os pagamentos aumentavam particularmente depois do período do Dia dos Namorados.
Vinte e três anos depois, Andie e Ben continuam trabalhando.
Mesmo sem aparecer em um filme novo.
US$ 177 milhões e uma permanência difícil de medir
O original também foi um sucesso comercial expressivo.
Com orçamento reportado de aproximadamente US$ 50 milhões, o filme arrecadou US$ 177,6 milhões mundialmente, sendo US$ 105,8 milhões apenas nos Estados Unidos e Canadá.
Mas sua permanência acabou sendo maior do que a bilheteria conseguia medir em 2003.
O vestido amarelo usado por Andie na sequência final continuou reaparecendo em referências de moda. A “love fern” a samambaia que ela apresenta a Ben como símbolo do relacionamento, ganhou vida própria entre os fãs. A cena de “You’re So Vain” permaneceu entre as mais lembradas do filme.
E Hudson e McConaughey se consolidaram como uma das duplas associadas à fase em que a comédia romântica ainda ocupava espaço regular entre os grandes lançamentos dos estúdios.
Eles voltariam a trabalhar juntos em Um Amor de Tesouro, em 2008.
Mas a relação de McConaughey com o gênero mudaria radicalmente pouco depois.
McConaughey precisou abandonar as comédias românticas
Durante boa parte dos anos 2000, o ator se tornou um dos rostos mais identificados com o gênero.
Além de Como Perder um Homem em 10 Dias, fez títulos como O Casamento dos Meus Sonhos, Armações do Amor e Minhas Adoráveis Ex-Namoradas.
Até decidir parar.
McConaughey já contou que recusou ofertas cada vez maiores — chegando a rejeitar US$ 14,5 milhões por uma comédia romântica — porque queria obrigar Hollywood a enxergá-lo em outro tipo de papel. Passou aproximadamente dois anos recusando projetos semelhantes até começar a receber oportunidades diferentes.
Vieram Mud, Magic Mike, O Lobo de Wall Street, True Detective e Clube de Compras Dallas.
Por este último, recebeu em 2014 o Oscar de Melhor Ator.
O período ficou conhecido como “McConaissance”, uma transformação de carreira construída justamente a partir da decisão de deixar para trás o tipo de filme que havia ajudado a transformá-lo em estrela.
Por isso, colocar McConaughey novamente diante de Kate Hudson não significaria apenas descobrir onde Ben Barry está aos 50 e poucos anos.
Também significaria fazer um dos atores mais emblemáticos das comédias românticas dos anos 2000 voltar ao gênero do qual precisou se afastar para transformar a própria carreira.
Hollywood continua voltando para os anos 2000
A Paramount também não está tomando essa decisão isoladamente.
O projeto surge em meio a uma onda bastante visível de continuações e retomadas de títulos populares entre o fim dos anos 1990 e os anos 2000.
Só em 2026, O Diabo Veste Prada 2, Todo Mundo em Pânico e Toy Story 5 chegaram aos cinemas com forte desempenho comercial. Da Magia à Sedução 2 também está a caminho, enquanto franquias como Shrek voltam a ganhar novos capítulos. A própria Variety, ao revelar a continuação de Como Perder um Homem em 10 Dias, colocou o projeto dentro dessa onda de nostalgia Y2K que atualmente atravessa Hollywood.
É uma lógica bastante compreensível.
Quem tinha 15, 20 ou 25 anos quando esses filmes foram lançados hoje está na faixa dos 30, 40 ou 50.
É um público que reconhece imediatamente títulos, cenas, figurinos e atores e que agora pode ser convidado a comprar ingresso não apenas para rever uma história, mas para descobrir o que aconteceu com pessoas fictícias que envelheceram junto com ele.
Mas os melhores exemplos dessa tendência também mostram o risco.
A nostalgia pode colocar alguém dentro da sala.
Depois disso, ainda precisa existir um filme.
A comédia romântica não morreu
Também seria impreciso tratar o anúncio como evidência de um grande “retorno” da comédia romântica.
O gênero nunca desapareceu.
Continuou vivo no cinema independente, no streaming e em produções de diferentes escalas. O que perdeu espaço durante parte das últimas duas décadas foi um modelo bastante específico: a comédia romântica como grande lançamento de estúdio, protagonizada por estrelas que, por si mesmas, funcionavam como parte da marca do filme.
Hudson e McConaughey pertencem diretamente a esse momento.
E talvez seja por isso que reuni-los tenha um peso diferente de simplesmente produzir mais uma história sobre Andie e Ben.
Seria também reencontrar uma forma de Hollywood vender comédia romântica.
O curioso é que o próprio filme original ainda parece estar fazendo esse trabalho.
Vinte e três anos depois da estreia, McConaughey diz que Como Perder um Homem em 10 Dias continua sendo o título que mais lhe rende dinheiro residual. Kate Hudson está produzindo uma continuação. E a Paramount tenta descobrir qual história seria suficiente para convencer os dois a voltar.
Por enquanto, portanto, não existe data de estreia.
Não existe diretor.
Não existe roteirista.
Não existe confirmação de Kate Hudson ou Matthew McConaughey no elenco.
Existe uma sequência em desenvolvimento e um estúdio tentando descobrir como reencontrar dois personagens criados em 2003 sem fingir que os últimos 23 anos não aconteceram.
Talvez seja exatamente esse o teste.
No primeiro filme, Andie tinha dez dias para perder Ben.
Agora Hollywood precisa descobrir se ainda sabe como reconquistá-los.
E, por garantia, talvez seja bom alguém verificar se a samambaia recebeu água.



