Aos 96 anos, Fernanda Montenegro ganha documentário dirigido pelo próprio neto
“Fernanda”, de Pedro Waddington, terá première mundial no Festival do Rio e acompanha a atriz entre trabalhos recentes e mais de oito décadas de carreira; produção chega ao Universal+ ainda em 2026
Aos 96 anos e ainda em atividade, Fernanda Montenegro terá sua trajetória contada no cinema pelo próprio neto. Dirigido por Pedro Waddington, o documentário Fernanda fará sua première mundial na 28ª edição do Festival do Rio, que acontece entre 1º e 11 de outubro, e integra a Première Brasil: Hors-Concours. Depois do festival, o longa chegará ao Universal+ ainda em 2026.
Mais do que organizar cronologicamente uma carreira de oito décadas, o filme parte do presente. Pedro acompanha trabalhos recentes da avó no teatro e no audiovisual e utiliza esse material para recuperar diferentes momentos de uma trajetória que atravessou transformações profundas da cultura brasileira.
O ponto de vista familiar é parte inevitável do projeto. Pedro é filho de Fernanda Torres e do cineasta Andrucha Waddington e cresceu conhecendo como avó uma mulher que, para o público, se tornou uma das principais referências da interpretação brasileira.
Essa proximidade oferece ao documentário um ponto de partida pouco convencional: a intimidade não precisa ser conquistada pela câmera. O desafio é transformá-la em cinema.
Fernanda continua trabalhando
O documentário chega num momento em que Fernanda Montenegro permanece profissionalmente ativa.
Em abril, o teatro do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, foi rebatizado como Teatro Fernanda Montenegro. A homenagem recuperou uma relação que começou ainda em 1950, quando a atriz tinha 21 anos e se apresentou pela primeira vez naquele palco. Fernanda é a artista com o maior número de temporadas realizadas no espaço e voltou a ele neste ano para leituras de textos de Nelson Rodrigues e Simone de Beauvoir.
No cinema, protagonizou recentemente Velhos Bandidos, comédia dirigida pelo filho Claudio Torres, na qual contracena com Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos. O longa estreou em março.
Neste mês, ela também chegou ao Globoplay em Emergência 53. Na série, interpreta Dona Laura, mãe da personagem de Yara de Novaes, uma mulher que convive com uma condição degenerativa sem abrir mão das escapadas para jogar bingo, fumar e manter alguma autonomia sobre a própria vida. A produção estreou em 20 de agosto.
É esse momento ainda produtivo que Fernanda pretende registrar antes de voltar ao arquivo.
Em vez de partir da ideia de uma carreira concluída e organizar prêmios, personagens e fotografias históricas, o documentário encontra sua protagonista trabalhando aos 96 anos.
Uma história familiar diante e atrás da câmera
A presença de Pedro Waddington também coloca três gerações de uma mesma família dentro da narrativa.
Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1999, por Central do Brasil, de Walter Salles. Vinte e seis anos depois, Fernanda Torres recebeu uma indicação na mesma categoria por Ainda Estou Aqui, novamente sob direção de Salles, enquanto o longa venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional.
Agora, é Pedro quem observa essa história atrás da câmera.
O parentesco, porém, não substitui a dimensão pública da personagem. A proposta divulgada para o documentário é discutir também a contribuição de Fernanda para o teatro, o cinema e a televisão e a relação de sua trajetória com a própria formação cultural brasileira.
Em mais de oito décadas de profissão, Fernanda acompanhou a passagem do rádio para a televisão, do teleteatro para as novelas, do cinema nacional de diferentes períodos ao streaming. Em 2022, levou essa trajetória também para a Academia Brasileira de Letras, ao tomar posse na Cadeira 17.
No discurso de posse, definiu de maneira mais simples aquilo que atravessava todos esses espaços:
“Sou atriz.”
Ela se tornou a primeira representante da cena e do palco brasileiros recebida como acadêmica pela instituição.
Do Festival do Rio para o streaming
Fernanda é uma produção da Conspiração em parceria com a NBCUniversal. Andrucha Waddington, Luísa Barbosa e Renata Brandão estão entre os produtores, enquanto Marcello Coltro e Wilma Maciel respondem pela NBCUniversal.
A primeira exibição acontecerá na Première Brasil: Hors-Concours, seção do Festival do Rio que reúne neste ano títulos como Ney por trás das máscaras, de Esmir Filho; Se Eu Fosse Você 3, de Anita Barbosa; e As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, de Diego Freitas. Ao todo, a Première Brasil selecionou 101 produções nacionais entre quase 1.500 inscrições.
A data específica da sessão ainda não foi divulgada. Depois da passagem pelo festival, o documentário estreia no Universal+ até o fim do ano.
A escolha de começar pelo presente talvez seja o elemento que mais diferencia Fernanda de uma retrospectiva tradicional.
Aos 96 anos, Fernanda Montenegro já tem material suficiente para incontáveis documentários sobre aquilo que fez.
Pedro Waddington decidiu filmá-la enquanto ela ainda está fazendo.



