São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

De onde vem a palavra “coxia”, o nome da lateral do palco

De onde vem a palavra “coxia”, o nome da lateral do palco
Foto: © Elke Wetzig/CC-BY-SA (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0)

A palavra que o teatro brasileiro usa para a lateral do palco é a mesma que nomeia o corredor entre duas fileiras de poltronas. Não é coincidência. Os dicionários de referência trazem coxia ao português por um caminho só, o italiano “corsia”. O sentido mais antigo que os verbetes guardam vem do mar.

O termo é de uso diário em casa de espetáculo. Ator espera na coxia. Cenário entra pela coxia. Técnico atravessa a coxia no escuro, entre uma cena e outra. Ninguém repara que é palavra importada, como ninguém estranha o “Theatro” com TH das fachadas, sobra de uma ortografia abolida há mais de oitenta anos.

Duas versões da origem circulam, e não combinam. Uma está registrada em quatro obras de referência. A outra não está em nenhuma.

O que os dicionários registram

O Michaelis, da Editora Melhoramentos, fecha o verbete “coxia” com uma linha de etimologia: “ital corsia”. O Priberam abre a dele com “Origem: italiano corsia”. O Caldas Aulete escreve “do it. corsia”. São três equipes lexicográficas diferentes. Nenhuma hesita.

Em 4 de março de 2008, o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa respondeu à mesma pergunta. Carlos Marinheiro atribuiu a etimologia a uma obra só, o Dicionário da Língua Portuguesa 2003, da Porto Editora: “do it[aliano] corsia”, glosado como a parte que fica livre para se poder passar. É a quarta obra com o mesmo étimo. O Houaiss eletrônico entra por outro motivo: acrescenta a acepção teatral, o espaço entre o palco e as paredes adjacentes, que trata como sinônimo de bastidores.

Fora dos dicionários circula outra explicação. Ela liga coxia ao latim “coxa”, e daí ao italiano “coscia”, a coxa, o quadril. A versão convence: a coxia fica mesmo na lateral, e as duas palavras se parecem escritas. Nenhuma obra de referência consultada para esta reportagem registra essa origem. Enquanto ninguém apresentar um dicionário etimológico que a sustente, ela é versão repetida, sem documento atrás.

Do lado que tem documento, o caminho continua. De onde vem a própria “corsia”, os dicionários de português não dizem: param no étimo italiano. O Vocabolario Treccani segue adiante e deriva “corsia” de “corsiva”, feminino substantivado de “corsivo”. No verbete “corsivo”, leva a palavra ao latim medieval “cursivus”, formado sobre “currere”, correr. Pelo trajeto documentado, a raiz distante da coxia é o verbo correr.

O corredor que atravessava a galé

O Treccani descreve a corsia das antigas galeras como um tabuado que, apoiado sobre os vaus do convés, corria de popa a proa. Corria: o verbo da etimologia aparece na descrição do objeto. Quem põe os remadores na cena são os dicionários de português. O Michaelis mantém a acepção e a marca como antiga: nas galés, corredor entre os remadores onde ficavam os comitres. O Priberam registra o mesmo lugar: a prancha fixa no meio dos bancos da galé, de popa à proa.

Do convés a palavra passou a nomear qualquer passagem entre duas fileiras. O Treccani marca esses sentidos como extensão do náutico e lista o que veio depois: poltronas de teatro e de cinema, camas de dormitório, assentos de bonde. A corsia virou enfermaria de hospital e faixa de rodovia. Em português ficou a definição ampla do Michaelis: passagem estreita entre duas fileiras de bancos, de poltronas, de camas ou de outros objetos.

Ficou também o que ninguém associa ao palco. No Michaelis, o espaço de cada cavalo na cocheira, a passadeira estreita ao redor da barra da barcaça no médio São Francisco, na Bahia e em Minas Gerais, a colina pouco elevada da planície baiana e o assento suplementar e portátil das salas de espetáculo. No Aulete, a pilha arrumada de tijolos, em Pernambuco. Nos dois, “correr a coxia”, que é andar sem destino.

O que se chama de coxia no palco brasileiro

A definição teatral é curta nos dois dicionários brasileiros. No Michaelis, o espaço entre o palco e a parede contígua a ele, onde os atores aguardam para entrar em cena. No Aulete, o espaço em torno da cena que a plateia não vê, onde trabalham os técnicos do espetáculo.

Na prática, a coxia tem medida declarada. As especificações técnicas do teatro do Sesi de Araraquara informam boca de cena de 8,90 metros de largura e coxias de 3,35 metros de largura cada, com 3,94 metros de profundidade à esquerda e 3,80 metros à direita. É por esse corredor que o cenário entra e sai, e é ali que o contrarregra recolhe e devolve os objetos de cena no tempo exato.

É ali que a peça se organiza enquanto a plateia olha para outro lado. Ali valem as regras que ninguém escreve no contrato: a de não assobiar nos bastidores e a de dizer “merda” antes de a cortina subir.

Quem espera ali no escuro, com a deixa chegando, não precisa da etimologia para trabalhar. Ela responde outra coisa: por que a lateral do palco leva nome de corredor de barco. Nos verbetes, do convés ao palco, coxia é o vão deixado livre de propósito, para se poder passar. Mudou o barco. O vão tem de continuar livre.

Perguntas rápidas

O que é a coxia no teatro? É o espaço lateral do palco, fora da vista da plateia, onde o elenco espera a deixa e por onde passam cenário e objetos de cena. Michaelis e Aulete registram esse sentido, e o Houaiss, citado pelo Ciberdúvidas, o trata como sinônimo de bastidores.

De onde vem a palavra coxia? Michaelis, Priberam, Caldas Aulete e o Dicionário da Língua Portuguesa 2003, da Porto Editora, apontam o italiano “corsia”. O Vocabolario Treccani liga “corsia” a “corsivo”, e “corsivo” ao latim “currere”, correr.

Coxia vem de “coxa”? Essa versão circula na internet, mas nenhum dos dicionários de referência consultados a registra. O que aproxima as duas palavras é a grafia.

Por que o mesmo nome serve para o corredor entre duas fileiras de assentos? Porque o sentido náutico é o mais antigo. Nas galés, a coxia era o corredor entre os bancos dos remadores, de popa a proa. O Treccani marca os demais sentidos como extensão desse.

BastidoresRedação Foyer

Leia também

Mais de Bastidores