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Por que se diz “merda” antes da estreia no teatro? A origem da expressão

Por que se diz “merda” antes da estreia no teatro? A origem da expressão
Reprodução: Jean Béraud, “O Teatro do Vaudeville” (1889)/Wikimedia Commons (domínio público)

Minutos antes de a cortina subir, ninguém no camarim de um teatro brasileiro deseja boa sorte. O que se ouve, entre abraços e respirações fundas, é um sonoro "merda!", quase sempre reforçado: "muita merda pra você". O costume, herdado do teatro francês do século XIX, atravessou gerações e fronteiras, tem primos em pelo menos cinco idiomas e obedece a um protocolo próprio: jamais se agradece o voto. Entender de onde vem a expressão ajuda a explicar por que o palco segue sendo um dos ambientes mais supersticiosos do mundo do trabalho.

O que o estrume dos cavalos tem a ver com sucesso?

A explicação mais aceita nasce nas ruas de Paris. No século XIX, o público chegava aos espetáculos de fiacre, a carruagem de aluguel puxada a cavalo. Enquanto os espectadores desciam na porta, os animais faziam suas necessidades na calçada. A conta era simples: quanto mais estrume diante do teatro, mais carruagens haviam parado ali, mais gente na plateia e maior o sucesso da peça. Desejar "merde" a um colega era, portanto, desejar casa cheia e bilheteria alta.

A versão é a mesma registrada pelo teatro canadense Duceppe, de Montreal, em sua série sobre superstições da cena, e por levantamento do jornal Gazeta do Povo sobre mitos do teatro, assinado pelo jornalista Ricardo Sabbag. A cena que dá origem à expressão é justamente a retratada na pintura que ilustra esta matéria: em O Teatro do Vaudeville (1889), o francês Jean Béraud mostra os fiacres estacionados na porta da casa de espetáculos parisiense, cavalos à espera dos espectadores.

Na França, o termo ganhou até um eufemismo elegante. Quando não se quer pronunciar a palavra, fala-se no "mot de Cambronne", referência ao general Pierre Cambronne, que a teria gritado aos ingleses ao ser intimado a se render na batalha de Waterloo.

Por que dizer "boa sorte" dá azar no teatro?

O voto escatológico só faz sentido dentro de uma lógica mais antiga: a crença de que desejar sorte diretamente atrai o azar. Uma das primeiras menções impressas a esse raciocínio aparece em 1921, num artigo do escritor irlandês Robert Wilson Lynd para a revista britânica New Statesman, em que ele descreve o palco como uma das instituições mais supersticiosas da Inglaterra, ao lado do turfe, onde se preferia dizer algo insultuoso a desejar boa sorte. Na mesma linha, a escritora americana Edna Ferber registrou em sua autobiografia de 1939 os colegas de teatro desejando uns aos outros que "quebrassem a perna".

Vem daí o famoso "break a leg" do teatro de língua inglesa, ouvido até hoje nos bastidores da Broadway e do West End de Londres. A expressão tem origem incerta. Entre as hipóteses consideradas mais consistentes está a de que derive do alemão "Hals- und Beinbruch" (algo como "quebre o pescoço e a perna"), voto irônico usado por aviadores alemães e possivelmente influenciado por uma bênção em iídiche que soa parecido. Outras versões circulam há décadas: a de que o gesto remeteria à reverência de dobrar a perna para recolher moedas atiradas ao palco na Inglaterra elisabetana, lembrada pela Gazeta do Povo, e a que liga a frase a John Wilkes Booth, o ator que quebrou a perna ao saltar no palco depois de assassinar Abraham Lincoln em 1865, tese considerada improvável pelos estudiosos do tema, já que a expressão só aparece registrada seis décadas mais tarde.

"Toi toi toi", "in bocca al lupo": como cada país deseja merda

Cada tradição cênica inventou sua fórmula. Na ópera, o costume é o "toi toi toi" alemão, onomatopeia de quem cospe três vezes para afastar maus espíritos. Na Itália, deseja-se "in bocca al lupo" (na boca do lobo), ao que se responde "crepi il lupo" (que o lobo morra). Na Espanha e na América hispânica, o voto é "mucha mierda", tradução literal do francês. Na Austrália, artistas dizem "chookas", gíria associada a poder jantar frango quando a casa lotava. E os bailarinos, mesmo nos países de língua inglesa, mantêm o "merde" francês, que o teatro falado também adotou.

No Brasil, a palavra circula em todos os palcos, do teatro de grupo ao musical, e se estende à dança, à ópera e até à televisão. Quem quiser vê-la em uso basta acompanhar registros de bastidores como os da série Abre a Coxia, que documentou o cotidiano do teatro brasileiro por trás do pano.

Existe jeito certo de responder ao "merda"?

Existe, e ele é rígido. A tradição manda não agradecer: o "obrigado" desfaria o encanto e chamaria de volta o azar, como anota o blog do Duceppe. A resposta adequada é devolver o voto ("merda pra você") ou simplesmente ficar em silêncio e guardar o desejo.

O "merda" convive com um repertório maior de superstições de palco. Em teatros de língua inglesa, evita-se pronunciar o nome Macbeth dentro do edifício, e a tragédia de William Shakespeare vira "a peça escocesa", cautela que montagens brasileiras inspiradas na obra, como as releituras de Lady Macbeth, costumam mencionar com humor. Outra praxe é a "luz fantasma", lâmpada que permanece acesa no palco vazio, oficialmente para ninguém tropeçar no escuro, extraoficialmente para que os fantasmas da casa encontrem o caminho. Superstições, como resume a reportagem da Gazeta do Povo, que quase sempre escondem uma utilidade prática por trás do mistério.

Perguntas rápidas

Por que se diz "merda" antes da estreia no teatro? O costume vem da França do século XIX: muito estrume de cavalo na porta do teatro indicava muitas carruagens, ou seja, casa cheia. Desejar "merda" virou sinônimo de desejar sucesso e público.

Pode responder "obrigado" quando alguém deseja merda? Não. Pela tradição, agradecer atrai azar. Responde-se com outro "merda" ou com o silêncio.

Qual é o equivalente de "merda" em inglês? No teatro de língua inglesa usa-se "break a leg" (quebre a perna), registrado desde a década de 1920. Bailarinos, porém, preferem o "merde" francês em qualquer país.

A expressão é usada só no teatro? Não. O "merda" se espalhou pela dança, pela ópera e por gravações de TV e cinema no Brasil, sempre com o mesmo sentido de desejar boa apresentação.

BastidoresRedação Foyer

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