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Casa da Ópera de Ouro Preto: a história do teatro de 1770 e a disputa pelo posto de mais antigo das Américas

Casa da Ópera de Ouro Preto: a história do teatro de 1770 e a disputa pelo posto de mais antigo das Américas
Foto: Cecioka/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A poucos passos da Praça Tiradentes, em Ouro Preto, um prédio de paredes grossas de pedra guarda o teatro que a Prefeitura da cidade descreve como o mais antigo em funcionamento das Américas. A Casa da Ópera de Vila Rica, hoje Teatro Municipal de Ouro Preto, foi construída em 1769 por João de Souza Lisboa e inaugurada em 6 de junho de 1770, aniversário do rei dom José I. São 256 anos de uma sala que atravessou o fim do ciclo do ouro, a Inconfidência Mineira, o Império e a República sem perder a função para a qual nasceu.

A casa reabriu em 15 de dezembro de 2023, depois de uma restauração iniciada em outubro de 2022 e conduzida pela Prefeitura de Ouro Preto. A noite começou com a cerimônia de entrega das obras, às 20h, e seguiu com o espetáculo Auto da Compadecida, às 21h, com o grupo Maria Cutia e direção de Gabriel Villela. No fim da programação, uma projeção mapeada com o título "Teatro Mais Antigo das Américas" cobriu a fachada.

Quem mandou construir a Casa da Ópera de Vila Rica

O artista visual Roberto Sussuca, diretor da casa, contou ao jornal O Tempo, em dezembro de 2023, que a encomenda partiu do conde de Valadares, governador da capitania de Minas Gerais, que chegou a Vila Rica em 1768. Na festa de aniversário dele, no morro de Santa Quitéria, onde hoje fica a Praça Tiradentes, Cláudio Manuel da Costa apresentou um poema musicado, "O Parnaso Obsequioso". Foi ali, segundo Sussuca, que o governador convocou João de Souza Lisboa, contratador de impostos da Coroa portuguesa, para erguer o teatro.

A Prefeitura de Ouro Preto registra que casas de ópera existiram em quase todas as cidades da Minas barroca. A de Vila Rica se distinguiu pelo elenco que Souza Lisboa montou, com artistas trazidos de várias cidades. No ano da inauguração ele levou duas atrizes ao palco, contra o costume que reservava os papéis femininos a homens. Nos oito anos em que administrou a casa, o repertório reuniu óperas e oratórios: a correspondência do contratador cita o drama São Bernardo e as traduções de José Reconhecido e Alex na Índia, de Metastásio, assinadas pelo próprio Cláudio Manuel da Costa.

O que o século 19 mudou na sala

A partir da segunda década do século 19, a programação passou a reunir artistas brasileiros e estrangeiros, com títulos como Escola de Maridos, de Molière. Nesse período, informa a Prefeitura, a companhia da casa tinha 20 atores, homens e mulheres, que dividiam o palco com uma orquestra de 16 músicos. Só em 1811 foram apresentadas 45 peças.

Por volta de 1860, a cidade discutiu se valia mais a pena restaurar o teatro ou levantar outro no lugar. Venceu o restauro, e dele saiu boa parte do que o visitante vê hoje.

"Nessa obra, a arquitetura interna, em forma de lira, foi mantida, mas os balaústres de madeira foram removidos. Como já tínhamos fundição, foram instalados gradis, os quais são estes mesmos que vemos hoje", contou Sussuca ao O Tempo.

A planta permaneceu: três pisos com plateia, camarotes, frisas e galerias, somando 300 lugares. Escadas helicoidais de madeira sobem até a galeria mais alta e, no porão, ficam os camarins e uma sala de recepção para artistas e técnicos. Acima do palco resiste a pintura original, com as figuras do drama, da comédia e da música.

Quem passou pelo palco

Uma placa instalada na entrada, cujo texto o jornal O Tempo reproduziu, resume a folha corrida da casa. Além dos espetáculos, ela serviu a atos políticos, como o de Rui Barbosa na Campanha Civilista, no início dos anos 1900, e encenou peças do inconfidente Cláudio Manuel da Costa. Passaram por ali ainda dom Pedro II e o poeta Alvarenga Peixoto, e Juscelino Kubitschek organizou no teatro um festival de arte em 1955.

Ninguém, porém, conhece o teatro como o músico e técnico de iluminação Vicente Gomes, funcionário mais antigo da casa. Aos 70 anos, em 2023, ele lembrava que, nos festivais de inverno dos anos 1970, chegava a dormir por lá.

"Trabalho aqui há 43 anos e, para ser bem sincero, não saberia te dizer se passei mais tempo da minha vida aqui ou na minha própria casa", disse Gomes ao O Tempo.

O que a restauração de 2023 refez

As obras trocaram o telhado inteiro. Duas vigas de madeira de dez metros precisaram ser encomendadas ao Pará, porque a substituição por estrutura metálica descaracterizaria a construção, e o material levou mais de cem dias para chegar a Ouro Preto. A lista seguiu com a descupinização, a revisão da rede elétrica e da iluminação, um novo sistema de combate a incêndio e o restauro da boca de cena, das cortinas e do sistema de bambolinas. A pintura da boca de cena, feita no século 18 pelo pintor Marcelino José de Mesquita, foi restaurada pelo historiador Aldo Araújo.

"É sempre com muito entusiasmo que as pessoas esperam a reabertura da Casa da Ópera. Especialmente porque o teatro, em Ouro Preto, é algo levado a sério e de grande importância, uma vez que temos aqui uma universidade federal que tem um curso de artes cênicas", afirmou o secretário municipal de Cultura e Turismo, Flávio Malta, ao O Tempo.

Quem mais reivindica o posto nas Américas

O título não é consenso no continente. No México, o Teatro Principal de Puebla foi inaugurado em 1761, nove anos antes da Casa da Ópera, e parte da imprensa mexicana o trata como o mais antigo da América. A ficha oficial do Instituto Nacional de Bellas Artes y Literatura é mais contida: registra o Principal como o espaço teatral mais antigo do México e conta que o prédio foi danificado por um incêndio em 1902, ficou fechado e só voltou a ser inaugurado em 1940. A formulação de Ouro Preto se apoia nessa interrupção, e o peso dela está em duas palavras: "em funcionamento".

Um teatro dentro do patrimônio mundial da Unesco

Ouro Preto foi o primeiro bem brasileiro inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, em 1980, segundo o Ministério do Turismo. O reconhecimento alcança o conjunto urbano, e a Casa da Ópera está dentro dele. Em julho de 2026, a Unesco inscreveu na mesma lista os dois teatros de ópera da Amazônia brasileira, o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém. O FOYER já contou aqui a história do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, outra casa centenária que passou por reformas e mudanças de uso. Quem estranhar a grafia dessas casas irmãs encontra a explicação em por que tantos teatros brasileiros se escrevem com TH.

Como visitar

A Casa da Ópera fica na Rua Brigadeiro Musqueira, 104, no centro histórico de Ouro Preto, e abre à visitação todos os dias, das 10h às 17h. A Prefeitura cobra R$ 5 pela entrada inteira e R$ 2,50 pela meia, para estudantes, professores e pessoas acima de 60 anos. Desde setembro de 2024 a casa mantém o projeto Encontros na Casa da Ópera, com apresentações musicais e teatrais e ações educativas gratuitas. Os 255 anos foram marcados com apresentações em 6 e 7 de junho de 2025.

TeatroRedação Foyer

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