Bruna Linzmeyer e Joana Ribeiro cruzam Brasil e Portugal em road movie sobre amizade e liberdade
“Augusta & Kátia”, primeiro longa de Lud Mônaco, encerra filmagens no Alentejo e coloca uma atriz brasileira e outra portuguesa no papel de duas imigrantes tentando escapar das consequências de um acidente absurdo
Um aluguel atrasado, dinheiro gasto no bingo e uma pistola antiga que não deveria estar carregada.
É daí que Bruna Linzmeyer e Joana Ribeiro pegam a estrada em Augusta & Kátia, tragicomédia que acaba de encerrar suas filmagens em Portugal. Rodado principalmente no Alentejo, com passagens por Alcácer do Sal e Torrão, o filme marca a estreia em longa-metragem da diretora e roteirista brasileira Lud Mônaco e tem lançamento previsto para o fim de 2027.
A coprodução entre Brasil e Portugal coloca as duas atrizes como melhores amigas brasileiras vivendo no país europeu.
Bruna interpreta Augusta, pintora desempregada que divide o tempo entre tentativas pouco convincentes de procurar trabalho e jogos de azar. A portuguesa Joana Ribeiro vive Kátia, recepcionista de uma agência funerária, colecionadora de antiguidades e a parte aparentemente mais organizada da dupla.
A rotina das duas desanda quando Kátia descobre que Augusta gastou no bingo parte do dinheiro destinado ao aluguel. O proprietário chega ao apartamento no pior momento possível e, durante a discussão, acaba atingido acidentalmente por uma pistola antiga da coleção de Kátia.
O acidente empurra as duas para a estrada e transforma uma comédia de erros numa história sobre amizade, imigração, sobrevivência e liberdade.
Mônaco define o filme como uma história de amor em um sentido específico: não entre as protagonistas, mas de duas mulheres que passam a perseguir a possibilidade de serem livres.
Uma portuguesa no papel de uma imigrante brasileira
O encontro entre Bruna e Joana produz uma inversão curiosa.
Enquanto Bruna é brasileira e interpreta Augusta, Joana Ribeiro é portuguesa e vive uma brasileira radicada em Portugal. Materiais de desenvolvimento do projeto descrevem Kátia como uma imigrante que, depois de viver no país, já incorporou um sotaque português.
Joana tem uma carreira que há anos circula fora de Portugal. Interpretou Angélica em O Homem que Matou Dom Quixote, de Terry Gilliam, e passou por produções internacionais como Infinite, Das Boot, The Man Who Fell to Earth e The Veil.
Bruna, por sua vez, encontrou em Augusta uma personagem que lhe permitiu se afastar de uma interpretação estritamente realista. Em declaração divulgada durante as filmagens, descreveu a protagonista como “rebelde, incorreta e irreverente” e destacou o absurdo que atravessa o longa.
Além das duas, o elenco reúne nomes portugueses como Rui Unas, Pedro Lacerda, Custódia Gallego, Natalina José, João Lagarto, António Melo, Maria Henrique e Mafalda Jara.
Um projeto que levou anos para chegar à estrada
As filmagens encerradas agora são resultado de um processo que começou anos antes.
Em 2021, Augusta & Kátia venceu uma das categorias de projetos em desenvolvimento do Pitching Forum do FEST – New Directors | New Films Festival, em Portugal. Naquele momento, o longa ainda buscava parceiros para sair do papel.
No ano seguinte, foi selecionado para o Proyecta, iniciativa vinculada ao Festival de San Sebastián e ao Ventana Sur que aproxima projetos latino-americanos e europeus de potenciais coprodutores. A configuração apresentada naquele estágio ainda previa Portugal e Espanha.
O desenho mudou ao longo do desenvolvimento.
Na configuração divulgada após as filmagens, Augusta & Kátia aparece como coprodução Brasil–Portugal, realizada pela portuguesa Cinemate e pelas brasileiras Clariô Filmes e O Par, com apoio de instituições como ICA, RTP, ANCINE, BRDE/FSA e Ibermedia. Registros da Berlinale Talents mostram que o projeto recebeu, entre outros recursos, aproximadamente R$ 935 mil do mecanismo de coprodução Brasil–Portugal.
A parceria, portanto, não se limita ao encontro de uma atriz brasileira com uma portuguesa.
Ela está na estrutura que permitiu ao filme chegar ao set.
Do Alentejo aos festivais
As gravações passaram pela região do Alentejo. Em Alcácer do Sal, a produção ocupou diferentes pontos da cidade ao longo de julho, informação registrada pela própria Câmara Municipal durante as filmagens.
O cenário também combina com a estrutura do longa: depois do acidente que desmonta a vida das protagonistas, o deslocamento passa a fazer parte da narrativa.
Nascida em São Paulo e criada em Salvador, Lud Mônaco estudou cinema em Barcelona e construiu boa parte da carreira entre diferentes países. Seus curtas passaram por festivais como Oberhausen, Mix Brasil e Sitges, e a cineasta integrou o Berlinale Talents em 2017.
Agora, chega ao primeiro longa justamente com uma história sobre duas mulheres tentando encontrar algum espaço de liberdade longe do lugar onde nasceram.
Com as filmagens concluídas, Augusta & Kátia entrou em pós-produção, status que já consta nos registros atuais do Instituto do Cinema e do Audiovisual português.
A previsão é que o longa comece a circular por festivais em 2027 e seja lançado no fim do mesmo ano. No Brasil, a distribuição será da Filmes do Estação; em Portugal, da Cinemundo.
Antes disso, Augusta e Kátia ainda precisam sobreviver a um senhorio baleado, uma fuga e à estrada.
Para Bruna Linzmeyer e Joana Ribeiro, é também o encontro de duas cinematografias dentro da mesma história.



