O filme que a Warner tentou engavetar: “Coyote vs. Acme” sobrevive ao próprio estúdio e chega aos cinemas
Concluído e descartado pela Warner Bros. em 2023, longa dos Looney Tunes provocou revolta em Hollywood, ganhou uma “sessão de funeral” e passou mais de um ano no limbo antes de ser comprado pela Ketchup Entertainment; no Brasil, estreiou na última quinta-feira (27)
Existe uma ironia difícil de fabricar em torno de Coyote vs. Acme.
No filme, depois de passar décadas explodindo, despencando de penhascos e sendo esmagado pelos equipamentos que compra para tentar capturar o Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que já sofreu o suficiente.
E processa a fabricante.
Fora da tela, enquanto isso, o próprio filme passou quase três anos tentando sobreviver às decisões da companhia que havia financiado sua existência.
Coyote vs. Acme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 27 de agosto, com distribuição da Paris Filmes. Nos Estados Unidos, chega às salas na sexta-feira (28), agora pelas mãos da distribuidora independente Ketchup Entertainment.
É uma estreia que, em novembro de 2023, parecia não existir mais.
Dirigido por Dave Green e estrelado por Will Forte, John Cena e Lana Condor, o híbrido de animação e live-action havia sido concluído depois de um investimento estimado em cerca de US$ 70 milhões. As sessões de teste vinham obtendo bons resultados e o elenco se preparava para finalmente assistir ao longa quando a Warner Bros. Discovery comunicou que não pretendia lançá-lo.
Não era um adiamento.
Não era uma mudança do cinema para o streaming.
O plano era simplesmente não colocar o filme diante do público.
Seis dias depois, elenco e equipe se reuniram no complexo da Warner Bros. para aquilo que passaria a ser chamado nos bastidores de “funeral screening”.
Uma sessão de funeral para um filme que estava pronto.
Primeiro, eles precisaram assistir ao próprio funeral
Will Forte ainda não tinha visto Coyote vs. Acme completo quando recebeu a notícia.
Na noite anterior ao anúncio da Warner, segundo contou posteriormente, os produtores haviam telefonado animados. As exibições de teste estavam funcionando, eles gostavam do resultado e finalmente organizariam uma sessão para o elenco.
No dia seguinte, veio o engavetamento.
Durante os seis dias que separaram a decisão da sessão marcada no estúdio, Forte tentou encontrar uma explicação bastante simples: talvez o filme tivesse ficado ruim.
Se uma empresa estava disposta a enterrar aproximadamente US$ 70 milhões sem sequer tentar lançá-lo, alguma coisa deveria estar errada.
Então ele assistiu.
E chegou à conclusão oposta.
O ator contou ao Los Angeles Times que encontrou um filme do qual gostava e que a experiência transformou a confusão inicial em frustração e raiva. À People, descreveu todo o processo como uma “montanha-russa emocional”.
Aquela sessão deveria funcionar como despedida.
Acabou ajudando a transformar um filme cancelado em uma causa dentro de Hollywood.
Quando um filme pronto vira uma decisão contábil
Estúdios cancelam produções o tempo todo.
Projetos não conseguem financiamento. Roteiros deixam de avançar. Filmagens são interrompidas. Filmes terminados podem permanecer anos sem distribuidor.
O que tornou Coyote vs. Acme particularmente incômodo para parte da indústria foi a etapa em que a decisão aconteceu.
O filme estava pronto.
A filmagem havia sido realizada.
A animação estava concluída.
A pós-produção tinha terminado.
Públicos de teste já tinham assistido.
Segundo a Associated Press, a Warner calculava que um lançamento ainda exigiria aproximadamente US$ 30 milhões a US$ 40 milhões em marketing e distribuição. Dentro do processo de redução de custos conduzido pela Warner Bros. Discovery após a fusão entre WarnerMedia e Discovery, a companhia considerou mais vantajoso não seguir com a exploração comercial e utilizar o projeto em uma operação contábil de baixa fiscal.
O movimento não aparecia isoladamente.
Em 2022, a Warner já havia provocado forte reação ao cancelar Batgirl, produção da DC praticamente concluída e com orçamento próximo de US$ 90 milhões. O longa animado Scoob! Holiday Haunt teve destino semelhante.
Os três projetos haviam sido aprovados pela administração anterior da companhia, durante uma estratégia que priorizava lançamentos destinados ao HBO Max. Depois da chegada da nova gestão, a empresa mudou de direção e passou a privilegiar novamente os cinemas.
No caso de Coyote vs. Acme, porém, a reação ganhou outra proporção.
Talvez porque, depois de Batgirl e Scoob!, já não parecesse mais uma exceção.
Hollywood decidiu defender o Coyote
A notícia provocou reação quase imediata entre profissionais da indústria.
Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis por Homem-Aranha no Aranhaverso, e Daniel Kwan e Daniel Scheinert, vencedores do Oscar por Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, estiveram entre cineastas que defenderam publicamente a liberação do longa.
Eric Bauza, que dá voz a personagens dos Looney Tunes no filme, transformou a campanha #ReleaseCoyoteVsACME numa presença recorrente.
No Annie Awards de 2024, principal premiação dedicada à animação, Bauza aproveitou o microfone para pedir a liberação do longa.
Fez isso usando a voz do Patolino.
Houve ainda protestos diante do estúdio, incluindo pessoas fantasiadas de Coyote, e o caso chegou à política. O deputado norte-americano Joaquin Castro, do Texas, pediu que o Departamento de Justiça analisasse as práticas adotadas pela Warner Bros. Discovery.
A mobilização conseguiu alterar o primeiro destino anunciado para o filme.
A Warner permitiu que Coyote vs. Acme fosse apresentado a outras empresas.
Por alguns dias, parecia que bastaria encontrar um comprador.
Não bastou.
Netflix, Amazon e Paramount viram o filme
Executivos de diferentes estúdios e plataformas começaram a assistir à produção.
Netflix, Amazon e Paramount estiveram entre as empresas que avaliaram o longa. A Paramount, segundo o TheWrap, chegou a apresentar uma proposta que incluía um componente de lançamento nos cinemas.
Nenhuma negociação avançou.
O problema estava também no preço.
Em fevereiro de 2024, o TheWrap informou que a Warner buscava algo entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões pelo projeto. A companhia, segundo fontes ouvidas pelo veículo, havia rejeitado as ofertas recebidas e não permitira novas contrapropostas.
Naquele momento, o temor voltou a ser o mesmo.
O filme podia desaparecer.
Era uma situação especialmente estranha.
Havia uma obra pronta.
Havia profissionais da indústria que a tinham assistido e queriam defendê-la. Havia empresas interessadas.
Havia público pedindo para vê-la.
Ainda assim, ninguém fora daquele circuito tinha acesso ao filme.
E Coyote vs. Acme permaneceu nesse limbo durante mais de um ano.
Até aparecer a Ketchup Entertainment.
A empresa que finalmente tirou o Coyote da gaveta
Em março de 2025, a distribuidora independente Ketchup Entertainment chegou a um acordo para adquirir o longa da Warner.
O valor não foi divulgado oficialmente pelas empresas, mas fontes da indústria situaram a operação em aproximadamente US$ 50 milhões.
A companhia já tinha uma relação recente com os Looney Tunes.
Pouco antes, havia distribuído The Day the Earth Blew Up: A Looney Tunes Movie, outra produção da franquia que chegou ao público fora da estrutura tradicional de distribuição da Warner.
Para Coyote vs. Acme, a Ketchup escolheu justamente aquilo que durante boa parte da controvérsia parecia menos provável:
um lançamento nos cinemas.
No Brasil, o filme ficou com a Paris Filmes, que o coloca em cartaz nesta quinta-feira também em formatos como Atmos, 4DX e DBOX.
Quase três anos depois de o estúdio concluir que não valeria a pena lançá-lo, espectadores comuns finalmente podem fazer algo que executivos, produtores, atores, jornalistas e compradores já haviam feito antes deles.
Afinal, sobre o que é o filme que quase ninguém poderia ver?
A premissa nasceu muito antes da batalha empresarial.
Coyote vs. Acme é inspirado em “Coyote v. Acme”, texto humorístico publicado por Ian Frazier na revista The New Yorker, em 1990.
Escrito na linguagem de uma ação judicial, o texto imaginava o resultado lógico de décadas de desenhos do Papa-Léguas: depois de ser repetidamente esmagado, explodido e lançado ao vazio por produtos defeituosos, Wile E. Coyote decide responsabilizar o fabricante.
O filme expande essa ideia.
Will Forte interpreta Kevin Avery, advogado que passa a representar o Coyote na ação contra a ACME. Do outro lado está Buddy Crane, vivido por John Cena, advogado da corporação e antigo chefe de Kevin.
Lana Condor também integra o elenco, que reúne personagens humanos e figuras clássicas dos Looney Tunes.
A direção é de Dave Green. Samy Burch, indicada ao Oscar por Segredos de um Escândalo, assina o roteiro, desenvolvido a partir de uma história creditada a ela, James Gunn e Jeremy Slater. Gunn também está entre os produtores.
E o Coyote continua sendo o Coyote.
Green preservou inclusive a característica de não dar ao personagem uma voz convencional: boa parte de sua comunicação continua dependendo de expressões, gestos e placas, como nos desenhos que construíram sua identidade.
O resultado coloca uma criatura cuja existência inteira foi definida por produtos defeituosos diante da possibilidade de finalmente perguntar quem é responsável por todas aquelas quedas.
E então aconteceu 2023.
O filme acabou ficando parecido demais com a própria história
Quando Coyote vs. Acme foi escrito, ninguém sabia o que aconteceria depois.
É isso que torna o paralelo tão eficiente.
Na ficção, um personagem pequeno e persistentemente derrotado resolve enfrentar uma enorme corporação que passou anos lhe vendendo produtos responsáveis por sucessivos desastres.
Na vida real, um pequeno filme passou anos tentando escapar da decisão de uma enorme corporação que havia concluído que economicamente era mais conveniente não colocá-lo no mercado.
O diretor Dave Green contou à Associated Press que passou a olhar para a obra de outra maneira depois da controvérsia. A correspondência entre filme e bastidores tornou-se tão evidente que, segundo ele, parecia quase que o roteiro tivesse sido escrito depois de tudo o que aconteceu.
A Ketchup não ignorou a oportunidade.
A própria campanha passou a brincar com a história de que aquele seria o filme que a ACME não queria que o público visse.
Funciona dentro da narrativa.
E funciona de um jeito completamente diferente quando se conhece a história fora dela.
Quem decide se um filme pronto pode existir?
É aqui que Coyote vs. Acme deixa de ser apenas uma curiosidade sobre os Looney Tunes.
Seu lançamento não resolve a discussão aberta pelo engavetamento.
Batgirl continua sem lançamento oficial.
Outras obras podem atravessar conflitos semelhantes.
E nenhuma produtora perde o direito de decidir que um projeto deixou de fazer sentido comercial apenas porque pessoas trabalharam nele.
Mas o episódio expôs uma possibilidade particularmente desconfortável para quem produz cinema: terminar um filme já não significa necessariamente que alguém terá a oportunidade de assisti-lo.
Um diretor pode concluir o trabalho.
Um elenco pode filmar.
Animadores podem passar anos trabalhando.
A pós-produção pode terminar.
Públicos de teste podem responder bem.
Outras empresas podem demonstrar interesse.
E, ainda assim, o destino da obra pode depender da conclusão de que seu desaparecimento produz um resultado financeiro melhor do que sua circulação.
Foi essa possibilidade, e não apenas a expectativa de ver mais uma aventura do Coyote, que fez o caso repercutir tanto entre profissionais da indústria.
A própria Associated Press identificou o episódio como sinal de uma mudança na relação entre criação e distribuição em Hollywood. Eric Bauza resumiu a inquietação de maneira simples: se algo assim podia acontecer com os Looney Tunes, uma das propriedades mais reconhecidas da própria Warner, o que aconteceria com projetos menos protegidos por décadas de popularidade?
Coyote vs. Acme conseguiu escapar.
Não porque a primeira decisão foi revertida imediatamente.
Não porque outro grande estúdio apareceu disposto a salvá-lo.
Precisou sobreviver ao cancelamento, a uma sessão de funeral, a negociações fracassadas e a mais de um ano de incerteza antes de finalmente encontrar uma distribuidora.
Nesta quinta-feira, no Brasil, toda essa trajetória chega a um desfecho bastante menos dramático.
O público pode ir ao cinema.
Comprar um ingresso.
E assistir.
Para qualquer outro filme, isso seria simplesmente a estreia.
Para Coyote vs. Acme, chega perto de ser uma pequena improbabilidade industrial.
O que é bastante apropriado para um personagem que passou a vida inteira caindo de penhascos e, no desenho seguinte, sempre apareceu de pé outra vez.



