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Coprodução entre Brasil, Portugal e França, “Ana, en Passant” garante distribuição internacional antes de estrear

Coprodução entre Brasil, Portugal e França, “Ana, en Passant” garante distribuição internacional antes de estrear
Foto: Divulgação/Apiário Estúdio Criativo

Primeiro longa de Fernanda Salgado terá première mundial no Festival de Brasília, será a primeira animação a competir na Vanguard do Festival de Vancouver e chega aos cinemas brasileiros em novembro

Antes mesmo de ser exibido pela primeira vez ao público, Ana, en Passant já sabe quem conduzirá sua trajetória internacional.

A francesa Miyu Distribution adquiriu os direitos internacionais do primeiro longa-metragem dirigido por Fernanda Salgado, animação coproduzida por empresas do Brasil, Portugal e França que fará sua première mundial na competição do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro. Poucas semanas depois, o filme segue para o Canadá, onde terá sua estreia internacional no Vancouver International Film Festival (VIFF).

É em Vancouver que essa trajetória acrescenta um marco particular.

Segundo a Variety, Ana, en Passant será a primeira animação a competir na história da Vanguard, programa do VIFF voltado a novos talentos internacionais e a trabalhos que experimentam com forma, estilo e gênero. As sessões estão marcadas para 10 e 11 de outubro.

O anúncio da distribuição, portanto, acontece num momento incomum para um primeiro longa.

O filme ainda não estreou comercialmente, nem sequer realizou sua primeira sessão pública, mas chegará aos festivais de Brasília e Vancouver já representado internacionalmente por uma companhia especializada em animação autoral.

É quase a conclusão de um percurso que começou muito antes de o filme ficar pronto.

Porque Ana, en Passant já viajava quando ainda era apenas um projeto.

Uma mulher entre Paris e Belo Horizonte

A história acompanha Ana, uma jovem negra franco-brasileira que vive em Paris e se vê à deriva depois da morte da avó brasileira.

Entre os objetos deixados por ela, encontra uma carta, memórias, chaves e um endereço em Belo Horizonte, cidade ligada à história de sua família. A descoberta leva Ana ao Brasil e ao antigo apartamento da avó.

É ali que encontra Alice.

As duas são fisicamente idênticas.

Interpretadas por Jéssica Pierina, Ana e Alice passam a dividir uma narrativa construída menos como investigação sobre a origem daquela semelhança e mais como uma busca por pertencimento, memória e identidade. Enquanto Ana tenta reconstruir os vínculos com uma história familiar que conhecia apenas parcialmente, Alice também atravessa suas próprias transformações.

Belo Horizonte deixa de funcionar apenas como cenário.

A cidade passa a formar uma espécie de cartografia afetiva na qual passado e presente, lembranças herdadas e experiências individuais se cruzam.

Ao comentar o filme à Variety, Salgado definiu a obra a partir justamente da busca de duas jovens mulheres negras por si mesmas e por seus lugares no mundo, com especial atenção às memórias transmitidas entre gerações de mulheres negras.

Essa circulação entre territórios existe também fora da tela.

Brasil, Portugal e França dentro do mesmo filme

A produção reúne o Apiário Estúdio Criativo, de Belo Horizonte, a Sardinha em Lata, de Portugal, e a francesa Midralgar.

A parceria portuguesa tem uma origem especialmente ligada à própria trajetória internacional do projeto.

Em 2019, quando Ana, en Passant ainda estava em desenvolvimento, Fernanda Salgado participou dos Feature Film Mifa Pitches, dentro do mercado profissional do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, na França.

Naquele ano, o projeto brasileiro estava entre apenas seis longas selecionados para a apresentação.

Foi em Annecy que a equipe do Apiário encontrou pessoalmente representantes da Sardinha em Lata.

Meses depois, ao revisitar a experiência para o próprio Festival de Annecy, Salgado contou que as reuniões proporcionadas pelo Mifa haviam colocado o projeto diante de produtores, agentes de vendas e parceiros internacionais — e que ali aconteceu o primeiro encontro com a empresa portuguesa que se tornaria coprodutora do longa.

É um detalhe que ajuda a medir o que esses mercados significam para filmes ainda em formação.

Em 2019, Ana, en Passant chegou a Annecy procurando conexões.

Sete anos depois, chega aos primeiros festivais com uma coprodução de três países e uma distribuidora internacional definida.

Uma animação que começa diante da câmera

A linguagem visual também ajuda a afastar Ana, en Passant de uma definição única.

O longa combina animação 2D desenhada à mão, rotoscopia, colagem e stop-motion.

Parte do processo começou com filmagens realizadas em estúdio em Cataguases, Minas Gerais, que depois serviram como matéria para a construção animada. A equipe reuniu artistas de diferentes regiões do Brasil e de Portugal.

A direção de animação é de Camila Kater, artista e cineasta responsável pelo premiado curta Carne, enquanto Marcella Tamayo assina a direção de arte.

A trilha original é do Metá Metá, trio formado por Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França.

No elenco estão Jéssica Pierina, nos papéis de Ana e Alice, Zezé Motta, Carlos Francisco, Robert Frank, Odilon Esteves, além de outros intérpretes.

A mistura de técnicas não aparece apenas como exercício visual.

No próprio texto de apresentação do VIFF, o festival destaca a maneira como Salgado combina 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion para construir um universo em que passado e presente podem se encontrar na mesma busca por identidade e pertencimento.

E talvez seja justamente por isso que a chegada à Vanguard faça tanto sentido.

Um filme que passou anos sendo apresentado antes de poder ser exibido

A participação de 2019 em Annecy não foi um episódio isolado.

Durante seu desenvolvimento, Ana, en Passant circulou por espaços como BrLab, Laboratório Griô de Roteiros, Diáspora Lab, Ventana Sur Animation! e Brasil CineMundi.

Cada passagem cumpria uma etapa diferente de um processo que, em animação, pode se estender por anos: desenvolver roteiro, encontrar parceiros, levantar financiamento, construir coproduções e apresentar a proposta artística antes que exista um filme terminado para mostrar.

Em maio de 2025, essa trajetória levou o projeto novamente à França.

Desta vez, não a Annecy, mas a Cannes.

Ainda em fase de produção, Ana, en Passant foi um dos cinco longas selecionados para o Annecy Animation Showcase, realizado dentro do Animation Day do Marché du Film. A iniciativa reúne trabalhos de animação em andamento e os apresenta a agentes de vendas, distribuidores e programadores de festivais.

Seis anos separavam as duas aparições francesas.

Em 2019, o filme ainda buscava parceiros de coprodução.

Em 2025, já era apresentado como uma obra em estágio avançado para profissionais capazes de ajudá-la a circular internacionalmente.

Agora uma dessas etapas se concretizou.
O que a Miyu acrescenta antes da primeira sessão
A Miyu Distribution atua justamente nesse ponto do percurso.

Especializada na circulação internacional de animação independente e autoral, a companhia passa a responder pelas vendas e pela estratégia internacional de Ana, en Passant.

A presidente e cofundadora da empresa, Luce Grosjean, afirmou que o longa chamou atenção pela maneira como linguagem visual e narrativa se relacionam e pela combinação de técnicas utilizada para trabalhar memória, identidade e transformação.

Ter um agente de vendas internacional antes da estreia não significa, por si só, que o filme já esteja vendido para diferentes territórios.

São etapas diferentes.

O que muda é a posição de onde Ana, en Passant começa sua circulação: em vez de chegar aos primeiros festivais ainda procurando quem apresente o filme profissionalmente a distribuidores e compradores estrangeiros, já entra nesse circuito acompanhado por uma empresa especializada nessa negociação.

É especialmente significativo para uma obra cuja construção internacional começou justamente nos mercados de festivais.

Primeiro Brasília

Antes de Vancouver, o filme será apresentado pela primeira vez no país que deu origem ao projeto.

Ana, en Passant integra a Mostra Competitiva Nacional de Longas do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que acontece entre 11 e 19 de setembro.

São sete produções na disputa.

Além do longa de Fernanda Salgado, foram selecionados Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco; Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner; Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira; Se Eu Fosse Vivo... Vivia, de André Novais Oliveira; Todo o Sentimento, de Ary Rosa e Glenda Nicácio; e Tudo é Tempo, de Marcos Guttman.

Será ali a première mundial do filme.

Só depois começa oficialmente sua vida fora do Brasil.

Depois, Vancouver, e uma fronteira inédita para a Vanguard

No Vancouver International Film Festival, Ana, en Passant será apresentado nos dias 10 e 11 de outubro.

A estreia é internacional, não mundial: quando chegar ao Canadá, o longa já terá passado por Brasília.

A precisão é importante porque é em Vancouver que está o principal ineditismo da pauta.

Não é a primeira animação brasileira apresentada na história do VIFF.

Também não é um recorde genérico de participação brasileira no festival.

Segundo a Variety, Ana, en Passant é a primeira animação a competir na Vanguard.

A própria curadoria do VIFF define a seção como um espaço destinado a talentos internacionais em ascensão e a filmes nos quais forma, estilo e gênero podem se misturar, ser tensionados ou expandidos.

Nesse sentido, a estreia de uma animação na mostra parece menos uma exceção arbitrária e mais uma extensão da própria proposta.

Um longa construído a partir de rotoscopia, 2D, colagem, stop-motion e imagens filmadas entra justamente numa seção interessada em obras difíceis de acomodar dentro de uma única convenção.

E depois, finalmente, o cinema

A trajetória de festivais não deverá adiar por muito tempo o encontro com o público brasileiro.

Ana, en Passant tem estreia comercial marcada para 5 de novembro, com distribuição da Embaúba Filmes. A data aparece nos calendários atuais do mercado exibidor brasileiro.

Quando chegar às salas, o filme terá percorrido um caminho incomum para uma estreia.

Foi projeto em Annecy.

Encontrou ali uma coprodutora portuguesa.
Passou por laboratórios no Brasil e no exterior.
Voltou à França como obra em andamento para ser apresentada em Cannes.
Incorporou uma coprodutora francesa.
Garantiu distribuição internacional.
Vai estrear mundialmente em Brasília.
Depois chegará a Vancouver como a primeira animação da Vanguard.

Tudo isso antes de 5 de novembro, quando finalmente deixa de ser apenas projeto, seleção, pitching, coprodução ou título de festival para ocupar regularmente uma sala de cinema.

Para o primeiro longa de Fernanda Salgado, é muita fronteira atravessada antes mesmo de a carreira comercial começar.

E talvez isso combine bastante com Ana, en Passant.

Um filme sobre procurar pertencimento entre países chega ao mundo tendo sido construído, desde o início, por gente de vários deles.

CinemaIsabel Branquinha

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