Novo filme com Maeve Jinkings e Bárbara Colen leva a ditadura ao Brasil rural
“Mesopotâmia”, primeiro longa de Andy Malafaia, acompanha uma família ameaçada pela construção de uma hidrelétrica em 1974
Quando o cinema brasileiro olha para a ditadura militar, é comum que as imagens estejam nas grandes cidades.
Universidades. Redações. Delegacias. Apartamentos clandestinos. Protestos.
“Mesopotâmia” pretende deslocar essa história para outro lugar.
Ambientado no Brasil rural de 1974, o primeiro longa de Andy Malafaia acompanha um casal ameaçado pela desapropriação de suas terras para a construção de uma hidrelétrica. O projeto tem Maeve Jinkings, Bárbara Colen e Márcio Vito ligados ao elenco principal.
O filme ainda está em desenvolvimento e em fase de captação de recursos, buscando financiamento e parceiros internacionais. Essa informação é importante para não tratar “Mesopotâmia” como uma obra já filmada ou finalizada.
Em julho, o projeto integrou o Bogotá Audiovisual Market, um dos principais mercados audiovisuais da América Latina, dentro da categoria Fiction Films. A participação marcou mais uma etapa de circulação internacional de um longa que tenta ampliar a forma como o cinema brasileiro representa os efeitos da ditadura.
Uma ditadura que também desapropriou territórios
No centro da trama estão Jorge e Mariângela.
A vida dos dois é atingida por um grande projeto de infraestrutura que ameaça retirar a família de suas terras. Ao mesmo tempo, o equilíbrio doméstico começa a mudar com a aproximação entre Mariângela e a irmã de Jorge.
O roteiro, escrito por Andy Malafaia em parceria com Maria Clara Escobar, tenta aproximar duas escalas: a transformação política de um país e aquilo que acontece dentro de uma família.
A proposta é olhar para um aspecto ainda pouco explorado da ditadura brasileira no cinema: o impacto de grandes projetos de infraestrutura sobre populações rurais, a expropriação de terras e os deslocamentos forçados.
Isso amplia uma memória do período que frequentemente permanece concentrada nos grandes centros urbanos.
O autoritarismo também chegava através de estradas, barragens, projetos de ocupação territorial e decisões tomadas muito longe das pessoas que precisariam abandonar suas casas.
Em “Mesopotâmia”, a violência política não aparece apenas como repressão direta, prisão ou censura. Ela também se manifesta pela transformação da paisagem. Pela chegada de máquinas. Pela promessa de progresso. Pela retirada de famílias de lugares onde memória, trabalho e pertencimento estavam enraizados.
A construção de uma hidrelétrica, nesse contexto, não funciona apenas como pano de fundo histórico. Ela reorganiza tudo: o território, o cotidiano, os vínculos familiares e a maneira como os personagens imaginam o futuro.
Um trio que chama atenção antes das filmagens
O elenco já torna o projeto especialmente interessante.
Maeve Jinkings, de filmes como “Aquarius”, “Boi Neon”, “Carvão” e “Ainda Estou Aqui”, é uma das atrizes mais fortes do cinema brasileiro contemporâneo. Sua presença costuma carregar personagens de densidade emocional, ambiguidade e tensão interna.
Bárbara Colen, de “Bacurau”, “Aquarius”, “Fogaréu” e “Cinco Tipos de Medo”, também se consolidou em produções que atravessam o cinema de autor brasileiro, o circuito de festivais e narrativas marcadas por conflito social e força coletiva.
Márcio Vito, por sua vez, passou por filmes como “A Vida Invisível”, “Malu”, “Deslembro” e “Regra 34”.
A reunião dos três foi anunciada durante a circulação internacional do projeto no Bogotá Audiovisual Market. Mais do que um atrativo de elenco, a escalação ajuda a posicionar “Mesopotâmia” dentro de um tipo de cinema brasileiro que busca circular fora do país sem abrir mão de conflitos profundamente locais.
Esse ponto é importante porque o projeto não parece interessado em transformar a ditadura em cenário decorativo. A história se constrói a partir de personagens que vivem as consequências de decisões políticas de maneira íntima, doméstica e concreta.
O impacto histórico chega dentro da casa.
Uma circulação que começa antes do filme pronto
“Mesopotâmia” é um exemplo de como parte do cinema brasileiro contemporâneo começa a circular internacionalmente antes mesmo das filmagens.
A fase de desenvolvimento do roteiro teve início em 2025, com apoio do Fundo Setorial do Audiovisual, por meio do BRDE e da Ancine. O projeto passou por consultorias de roteiro com Miguel Machalski e José Carvalho, participou do CineMundi, foi apresentado no Match Me!, mercado de coprodução do Festival de Locarno, e integrou os pitchings abertos do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Em Brasília, recebeu o Prêmio Paradiso de Melhor Projeto de Ficção, reconhecimento que garantiu apoio para a participação no Bogotá Audiovisual Market em 2026.
Esse percurso diz muito sobre a maneira como um longa se constrói hoje.
Antes de chegar ao set, um projeto precisa se provar em laboratórios, mercados, encontros de coprodução, pitchings e redes internacionais. A circulação não começa na estreia em festival. Começa na busca por viabilidade.
No caso de “Mesopotâmia”, essa etapa é ainda mais importante porque o filme parece depender de uma estrutura de coprodução capaz de sustentar uma obra de época, rural, política e com ambição internacional.
Brasil e Portugal outra vez
“Mesopotâmia” é estruturado pelas brasileiras Druzina Content, Plano B Filmes e Zaragata Cinema, em coprodução com a portuguesa Persona Non Grata Pictures. A Pandora Filmes está ligada à futura distribuição brasileira.
A parceria portuguesa não é um detalhe isolado.
Em vários projetos recentes, a ponte Brasil–Portugal aparece como caminho de viabilização, circulação e construção artística. O idioma em comum facilita parte desse movimento, mas não explica tudo sozinho.
Há também uma estrutura política, financeira e industrial construída ao longo de décadas entre os dois países — de acordos de coprodução a políticas de incentivo, laboratórios, fundos e festivais que estimulam a circulação ibero-americana.
No caso de “Mesopotâmia”, a coprodução ajuda a levar para o circuito internacional uma história que poderia parecer, à primeira vista, muito localizada. Mas é justamente aí que está sua força: a disputa entre território, autoritarismo, infraestrutura e modos de vida não pertence apenas ao Brasil.
Ainda assim, a especificidade brasileira permanece no centro.
O filme olha para um país de 1974, em plena ditadura militar, e pergunta o que significava “desenvolvimento” para quem era obrigado a sair do próprio lugar em nome dele.
A ditadura fora do centro urbano
A força de “Mesopotâmia” está na escolha do deslocamento.
Ao levar a ditadura para o Brasil rural, o projeto amplia uma memória cinematográfica que muitas vezes se concentra em militantes urbanos, estudantes, jornalistas, artistas e intelectuais. Essas histórias são fundamentais, mas não esgotam o período.
A ditadura também marcou comunidades rurais, pequenos proprietários, trabalhadores do campo, populações deslocadas, territórios transformados por obras públicas e famílias que talvez nunca tenham entrado nos livros de história como personagens centrais.
É nesse espaço que “Mesopotâmia” parece querer atuar.
Não para substituir uma memória por outra, mas para ampliar o quadro.
O filme parte de uma família ameaçada por uma hidrelétrica, mas o conflito ultrapassa a casa. O que está em jogo é o modo como um projeto autoritário de país pode atravessar relações íntimas, remodelar afetos e transformar a paisagem em nome de uma ideia de futuro.
A pergunta que fica é simples e incômoda: quem paga o preço do progresso quando ele é decidido de cima para baixo?
Sinopse
Ambientado no Brasil rural de 1974, “Mesopotâmia” acompanha Jorge e Mariângela, casal que vive em uma região ameaçada pela construção de uma hidrelétrica durante a ditadura militar. Enquanto a família enfrenta a possibilidade de perder suas terras, tensões íntimas se aprofundam com a aproximação entre Mariângela e a irmã de Jorge.
A partir do ponto de vista de três personagens, o filme investiga os impactos da violência de Estado, da desapropriação e do deslocamento forçado sobre relações familiares, memória e território.
Ficha do projeto
Mesopotâmia
Direção: Andy Malafaia
Roteiro: Andy Malafaia e Maria Clara Escobar
Elenco: Maeve Jinkings, Bárbara Colen e Márcio Vito
Países: Brasil e Portugal
Produtoras brasileiras: Druzina Content, Plano B Filmes e Zaragata Cinema
Coprodução portuguesa: Persona Non Grata Pictures
Distribuição prevista no Brasil: Pandora Filmes
Status: em desenvolvimento e captação de recursos
Estreia: ainda não anunciada



