
Foto: Foto: NIL CANINÉJuntas pela primeira vez
Nesta edição
- 3O que a noite escutaEditorial
- 4Uma noite, duas mulheresA semana · Teatro
- 7A casa de JanainaA semana · Teatro
- 11Na tela: os programas da semanaYouTube do FOYER
- 12Rita, por LiliaA semana · Teatro
- 15O caçador em horário nobreA semana · Cinema
- 20Fogo sem patrocínioA semana · Teatro
- 23A cor proibidaA semana · Bastidores
- 28A semana em cartaz: São PauloAgenda
- 29A semana em cartaz: Rio de JaneiroAgenda
- 30A frase da semanaEntre aspas
- 31Entre mestres: a arte pela palavraExclusivo
- 32ExpedienteQuem faz o FOYER
- 33A cortina desceContracapa
O que a noite escuta
Há semanas em que o teatro parece combinar de falar mais baixo, e mais tarde. Nesta, quase tudo acontece depois que a luz da sala se apaga: uma mãe e uma filha atravessam uma única noite, em tempo real, no palco do Poeira; um quarto de hotel na Praça Roosevelt marca sessões que começam às 23h; no Mi Teatro, cada apresentação termina em conversa com a plateia sobre saúde mental.
Também é uma semana de voltas e de primeiras vezes. Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta nunca tinham dividido um palco. Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi voltam a Joana e Jasão vinte anos depois. O Teatro do Incêndio, aos 30, remonta seu primeiro Brecht sem verba pública e convida o público a levar o vinho. Janaina Leite, apontada como vanguarda pelo New York Times, assume um casarão do centro de São Paulo até dezembro.
E há as mães, por toda parte. A que escuta a decisão irreversível da filha. A que sobe ao palco ao lado da artista. A que procura o filho do outro lado, no cinema de Wagner de Assis. Nômade aos 64 anos, mãe e avó, Jô doou tudo e nunca mais teve endereço fixo.
Esta edição escutou a noite inteira. Agora é a sua vez.
A direção do FOYER
TeatroFoto — NIL CANINÉUma noite, duas mulheres
Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta se encontram pela primeira vez no palco, no texto que deu o Pulitzer a Marsha Norman.
A peça se passa em uma só noite, sem saltos no tempo, e começa com uma decisão irreversível. O que vem depois é a conversa que mãe e filha adiaram por décadas. No Teatro Poeira, em Botafogo, a estreia é justamente nesta quinta, 10 de setembro.
Meta description: Vencedor do Pulitzer, o texto de Marsha Norman chega ao Teatro Poeira, em Botafogo, com direção de Leonardo Netto. Temporada de 10 de setembro a 25 de outubro.
Duas das atrizes mais premiadas do país nunca haviam trabalhado juntas no teatro. Isso muda em 10 de setembro, quando Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta estreiam "Boa Noite, Mãe" no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Com direção de Leonardo Netto, a temporada segue até 25 de outubro, com sessões de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 19h. Os ingressos estão à venda pela Sympla, e a classificação é de 16 anos.
Uma noite, duas mulheres
A peça adapta "'night, Mother", da dramaturga norte-americana Marsha Norman, escrita em 1981. O texto estreou em 1983 no American Repertory Theatre, chegou à Broadway no mesmo ano e rendeu à autora o Prêmio Pulitzer de teatro. Em 1986, ganhou versão para o cinema com Sissy Spacek e Anne Bancroft.
Uma única noite, em tempo real
A trama se passa ao longo de uma só noite, sem saltos temporais. Jessie, mulher de meia-idade que convive com epilepsia, comunica à mãe, Thelma, uma decisão irreversível. A conversa que se segue revisita o passado das duas, expõe ressentimentos guardados por décadas e coloca em cena autonomia, solidão e os limites do amor familiar.
A tradução é de José Pedro Peter. A montagem tem direção de movimento de Marcia Rubin, direção de arte de Ronald Teixeira, iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni e visagismo de Fernando Ocazione. A produção é assinada por Ana Beatriz Nogueira e Joyce Ruiz.
Duas trajetórias que só se cruzaram uma vez
Ana Beatriz Nogueira construiu carreira entre teatro, cinema e televisão. Venceu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim de 1987 pelo filme "Vera" e acumula papéis de destaque em novelas da TV Globo. Andréia Horta, nascida em Juiz de Fora, ficou conhecida por trabalhos como "Império" e "Tempo de Amar". As duas contracenaram em "A Vida Que Ninguém Vê", em 2025, mas esta é a primeira vez que dividem um palco.
Serviço
Uma noite, duas mulheres
Boa Noite, Mãe Teatro Poeira, Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro
De 10 de setembro a 25 de outubro de 2026
Quinta a sábado às 20h, domingos às 19h
Ingressos pela Sympla.
Classificação: 16 anos
Direção: Leonardo Netto.
Com Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta
Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e pelo site cvv.org.br.
TeatroFoto — Helena WolfensonA casa de Janaina
Elogiada pelo New York Times e citada por Thomas Ostermeier, a artista assume um casarão do centro de São Paulo por quatro meses.
Pornografia, maternidade, morte e tecnologia dividem o mesmo endereço até 20 de dezembro. A Residência Artística Janaina Leite e Núcleo do Olho, num casarão centenário do Instituto Capobianco, reúne quatro espetáculos, entre eles uma criação inédita, dois laboratórios gratuitos e atividades abertas ao público, a partir da reestreia de Stabat Mater. Os ingressos custam R$ 30, com meia a R$ 15, pela Sympla.
Apontada pelo New York Times como um dos nomes de vanguarda do teatro contemporâneo e citada por Thomas Ostermeier, a artista instala no centro de São Paulo uma residência de quatro meses sobre pornografia, maternidade, morte e tecnologia. A temporada começa em 4 de setembro, com a reestreia de "Stabat Mater".
A casa de Janaina
Uma artista que usa a pornografia como base estética, coloca a própria mãe em cena e trata o corpo como documento assume um casarão centenário do Centro Histórico de São Paulo até 20 de dezembro. A Residência Artística Janaina Leite e Núcleo do Olho, no Instituto Capobianco, reúne quatro espetáculos, entre eles uma criação inédita, dois laboratórios gratuitos e atividades abertas ao público. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), pela Sympla.
O nome de Janaina Leite ganhou circulação internacional quando "História do Olho: um conto de fadas pornô noir" foi apontado pelo New York Times como uma das obras de vanguarda mais surpreendentes do teatro contemporâneo. Na última edição da MITsp, Thomas Ostermeier, diretor da Schaubühne de Berlim desde 1999, citou a artista ao falar do tipo de teatro que considera relevante hoje, destacando a consistência da trajetória e a profundidade da pesquisa. Atriz, diretora, dramaturgista e uma das fundadoras do Grupo XIX de Teatro, ela articula há mais de 15 anos o Núcleo do Olho, rede de artistas e pesquisadores que trabalha com uma metodologia de criação em espiral: espetáculos, publicações, oficinas e residências alimentam novas perguntas e novos trabalhos.
Stabat Mater abre a temporada com mãe e filha em cena
A programação começa em 4 de setembro com a reestreia de "Stabat Mater", vencedor do Prêmio Shell de Teatro na categoria Dramaturgia e eleito o melhor espetáculo de 2024 em Portugal. Em cena com sua mãe, Amália Fontes Leite, e o ator Lucas Asseituno, Janaina aproxima campos historicamente inconciliáveis, a maternidade e a sexualidade. Inspirada no ensaio filosófico de Julia Kristeva, a obra remonta à história da Virgem Maria para investigar os mecanismos de gozo e dor que fixam essas posições. Fica em cartaz até 3 de outubro.
Alienígenas, corpo e experiências de quase morte
A casa de Janaina
Entre 9 e 11 de outubro, o Instituto recebe "Alien(nada): a Terra é uma adolescente e o Grande Filtro pode ser a autodestruição da humanidade", monólogo da diretora e pesquisadora Lívia Machado. Em formato de palestra performance com sampler audiovisual, o trabalho combina teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa para tratar o imaginário alienígena como campo estético e político.
De 16 a 24 de outubro entra em cartaz "O Corpo Material e Imaterial em suas Borderlines", performance que já passou por Chile e Portugal. A obra parte de um processo autoetnográfico em que Janaina investiga a origem de um som que pulsa há anos em sua cabeça, revisitando experiências ligadas aos territórios da morte e da loucura, entre elas um quase afogamento com o filho mais velho.
Criação inédita já desperta interesse internacional
O encerramento fica por conta da estreia, em 30 de outubro, de "A Caixa Preta: Versão Demo", desenvolvida durante a própria ocupação e resultado de quase três anos de pesquisa. Antes mesmo da estreia, o projeto já havia atraído programadores internacionais, depois de uma primeira etapa de desenvolvimento em parceria com a Pro Helvetia, da Suíça, e de uma residência na Academy for Theatre and Digitality, em Dortmund, na Alemanha, em julho de 2026. A obra articula corpo, memória, imagem e presença diante das transformações provocadas pela tecnologia. Fica em cartaz até 20 de dezembro.
Laboratórios gratuitos e conversas
A casa de Janaina
A residência inclui ainda dois laboratórios gratuitos com vagas limitadas: o Sinestesia Alienígena, orientado por Lívia Machado, e o Laboratório de Projetos Autorais e Programas Performativos, conduzido pelo performer André Medeiros Martins, que selecionará de 10 a 12 projetos. Completam a programação a série de entrevistas Colisão de Inteligências, que será disponibilizada no Spotify, e a Roda de Games. Informações e inscrições no site institutocapobianco.art.br.
Serviço
Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho Instituto Capobianco, Rua Álvaro de Carvalho, 97, Centro Histórico, São Paulo
Sextas e sábados às 20h, domingos às 18h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), pela Sympla
"Stabat Mater": 4 de setembro a 3 de outubro, 100 minutos, 18 anos
"Alien(nada)": 9 a 11 de outubro, 75 minutos, 18 anos
"O Corpo Material e Imaterial em suas Borderlines": 16 a 24 de outubro, 60 minutos, 16 anos
"A Caixa Preta: Versão Demo": 30 de outubro a 20 de dezembro
Na tela
Coxixo de CoxiaPietá, Um Fractal de Memórias
Coxixo de CoxiaJoão, Joãozinho, Joãozito
Coxixo de CoxiaE se fosse uma bomba?
Coxixo de CoxiaDo Ré Mi Fu: O Mundo Fora da Escala
Programa do FoyerCom Larissa da Matta, Marcelo Leão e Pedro Amaral - A Última Valsa de Zelda Fitzgerald - F
Coxixo de CoxiaNós Ursos
TeatroFoto — Cauê MorenoRita, por Lilia
Depois de esgotar três meses em São Paulo, o monólogo sobre os últimos anos de Rita Lee chega ao Teatro PRIO em outubro.
O texto de Guilherme Samora, editor e amigo da cantora, nasceu do livro que Rita escreveu como diário depois do diagnóstico. Em cena, Lilia Cabral fala de finitude, amor e doença sem drama e, aqui e ali, com humor.
O monólogo baseado na segunda autobiografia da cantora fica em cartaz no Teatro PRIO de 9 de outubro a 15 de novembro. Escrito por Guilherme Samora, editor e amigo de Rita, o espetáculo trata dos últimos anos da artista.
Os ingressos da temporada paulistana acabaram antes da estreia e o espetáculo ficou três meses em cartaz. Agora, "Rita Lee: Balada da Louca" chega ao Rio de Janeiro, no Teatro PRIO, de 9 de outubro a 15 de novembro, com sessões de sexta a domingo. Lilia Cabral vive a cantora em um monólogo de 70 minutos dirigido por Beatriz Barros.
Rita, por Lilia
O texto é de Guilherme Samora, amigo de Rita Lee e editor de seus livros, e parte do segundo volume da autobiografia da artista. O livro nasceu como uma espécie de diário, escrito depois do diagnóstico de câncer de pulmão em 2021, e foi lançado em 2023, ano da morte da cantora.
"Cheguei a perder um pouco o rumo"
"Sempre fui fã da Rita, que, para mim, é uma referência em tudo. Quando recebi esse convite, cheguei a perder um pouco o rumo, nunca havia pensado nessa possibilidade", conta Lilia Cabral. "Curiosamente, quando comentei com algumas pessoas, elas se surpreendiam e diziam que era uma junção de mundos maravilhosa."
Samora afirma que a Rita do monólogo assume a forma mais humana possível. "Ela fala de finitude, de amor e da doença com uma coragem ímpar, sem dramas e, até mesmo, com humor", diz o autor, que buscou a aprovação de Roberto de Carvalho antes de tirar o projeto do papel e convidou a atriz logo em seguida.
Para a diretora Beatriz Barros, responsável pela montagem de "O Avesso da Pele", do coletivo Ocutá, o valor do espetáculo está na escala íntima. "É muito especial que seja a Rita, e que ela esteja sendo representada em um espaço de intimidade, onde existe uma reflexão filosófica sobre temas tão importantes como a morte, o envelhecimento e a relação com a espiritualidade", afirma.
A produção é da Brancalyone, em realização com a Pipoca Comunicação. O projeto é viabilizado pela Lei Rouanet e tem a Elo como apresentadora exclusiva.
Serviço
Rita, por Lilia
Rita Lee: Balada da Louca
Teatro PRIO, Rio de Janeiro
De 9 de outubro a 15 de novembro de 2026
Sextas e sábados às 20h, domingos às 18h
Duração: 70 minutos.
Classificação: 12 anos
Texto e idealização: Guilherme Samora.
Direção: Beatriz Barros.
Com Lilia Cabral
Direção musical: Dani Nega.
Figurino: Walério Araujo.
Cenografia: Pedro Levorin
CinemaFoto — Divulgação/A24O caçador em horário nobre
No thriller da A24 que compete em Veneza, Robert Pattinson veste o terno de Chris Hansen, o apresentador de To Catch a Predator.
Uma casa cheia de câmeras escondidas, um homem que entra e um apresentador que espera. A cena se repetiu às centenas na TV americana dos anos 2000. O filme de Lance Oppenheim pergunta o que acontece quando investigar alguém também precisa render boa televisão.
Dirigido por Lance Oppenheim, o filme revisita "To Catch a Predator", programa que colocou jornalismo, polícia e humilhação pública no mesmo estúdio. A première mundial acontece em 5 de setembro, na competição oficial do festival.
O caçador em horário nobre
Robert Pattinson de terno, cabelo penteado e postura de apresentador, diante de um homem que acaba de entrar numa casa cheia de câmeras escondidas. É essa cena, repetida às centenas na TV americana dos anos 2000, que a A24 reconstrói em "Primetime", thriller que o ator protagoniza e produz. O filme tem première mundial em 5 de setembro, na competição oficial do Festival de Veneza, e chega aos cinemas dos Estados Unidos no dia 25. Ainda não há data anunciada para o Brasil.
Pattinson interpreta Chris Hansen, o jornalista que ficou conhecido pelas edições de "To Catch a Predator" exibidas no Dateline NBC. Dirigido por Lance Oppenheim, com roteiro de Ajon Singh, o longa parte de uma pergunta incômoda: o que acontece quando investigar alguém também precisa render boa televisão? Completam o elenco Merritt Wever, Skyler Gisondo, Phoebe Bridgers, Matthew Maher e Bokeem Woodbine.
Quando a indignação virou audiência
Criado em 2004 a partir de uma parceria entre o Dateline NBC e a organização Perverted Justice, o programa usava voluntários que se passavam por adolescentes em salas de bate-papo para atrair homens adultos interessados em encontros sexuais com menores. Quando eles chegavam ao endereço combinado, encontravam uma casa equipada com câmeras e, logo depois, Hansen, que os confrontava com as transcrições das conversas nas mãos. Do lado de fora, policiais frequentemente aguardavam para efetuar prisões.
As primeiras ações ultrapassaram 8 milhões de espectadores. A emissora não apenas registrava a operação: ajudava a montar o cenário, trabalhava com os responsáveis pelos perfis falsos e transformava o confronto em acontecimento televisivo. O processo judicial poderia vir depois. A condenação pública era imediata.
O caçador em horário nobre
O caso que colocou o formato em xeque
O filme é inspirado, entre outras fontes, na reportagem de Luke Dittrich publicada pela revista Esquire em 2007 sobre uma operação realizada no ano anterior em Murphy, no Texas. Entre os investigados estava Louis William Conradt Jr., promotor assistente que havia conversado online com alguém que acreditava ser menor de idade.
Conradt não foi até a casa preparada pelo programa. Policiais foram à residência dele para efetuar a prisão, acompanhados por uma equipe ligada ao Dateline, e ele morreu por suicídio. Os demais casos daquela operação não tiveram prosseguimento judicial, e a família de Conradt processou a NBC. A discussão deixou de girar apenas em torno da intenção dos homens abordados e passou a incluir outra pergunta: até onde um programa de televisão pode participar da investigação que pretende registrar?
Um documentarista estreia na ficção
A escolha do diretor indica que "Primetime" não pretende ser uma cinebiografia. Oppenheim construiu a carreira no documentário, com trabalhos como "Some Kind of Heaven", sobre uma comunidade de aposentados na Flórida, "Spermworld", sobre um mercado informal de doadores de esperma, e a série "Ren Faire". Este é seu primeiro longa de ficção. Ao apresentar o filme em Veneza, ele resumiu seu interesse pelo tema ao momento em que a indignação moral virou televisão obrigatória.
O Hansen real comprou publicidade antes do filme
O caçador em horário nobre
O apresentador não participou da produção e afirma ter tomado conhecimento da dimensão do projeto quando Pattinson já aparecia no material promocional. Convidado para uma sessão privada, não assistiu ao filme depois de se recusar a assinar um acordo de confidencialidade, alegando que o documento poderia comprometer direitos de imagem. Pessoas ligadas à produção sustentam que se tratava de procedimento padrão. Hansen tem insistido que o longa seja tratado como dramatização, e não como reprodução literal de sua trajetória.
Ele também soube aproveitar a exposição: comprou espaço publicitário para exibição antes de sessões do filme, promovendo a TruBlu, plataforma em que apresenta novas operações contra supostos predadores. O público vai ao cinema ver Pattinson interpretar Chris Hansen e encontra o próprio Hansen antes de a projeção começar.
Antes das redes, já existia a lógica da exposição
"To Catch a Predator" terminou em 2007, antes do Instagram, do TikTok e da economia de creators. Ainda assim, sua gramática soa familiar: alguém é confrontado, uma câmera registra, o material é apresentado como evidência e o público participa da condenação social. Nas décadas seguintes, criadores passaram a realizar operações próprias contra supostos predadores para o YouTube, enquanto autoridades alertam que ações amadoras podem comprometer investigações e provas.
O programa combinava uma causa capaz de gerar indignação legítima com uma estrutura dependente de audiência. Era possível condenar o que se via e continuar assistindo. Hoje não é mais preciso esperar o horário nobre para encontrar a próxima exposição pública.
Quando estreia "Primetime"
O caçador em horário nobre
Première mundial em 5 de setembro de 2026, na competição oficial do Festival de Veneza. Estreia nos cinemas dos Estados Unidos em 25 de setembro. Sem data confirmada no Brasil.
TeatroFoto — Kym KobayashiFogo sem patrocínio
Aos 30 anos e sem verba pública, o Teatro do Incêndio volta ao seu primeiro Brecht, no Bixiga, e pede que o público leve o vinho.
Baal foi a primeira montagem da companhia, em 1996. A remontagem, com 12 artistas em cena e música ao vivo, nasceu da recusa em parar: teatro, anarquia e repertório, sustentados pela bilheteria e pelo apoio de quem aparece.
A primeira montagem da companhia, de 1996, volta ao cartaz em releitura dirigida por Marcelo Marcus Fonseca. O espetáculo fica em temporada no Bixiga até 4 de outubro, com 12 artistas em cena e música ao vivo.
Fogo sem patrocínio
Sem patrocínio institucional e sustentada apenas pela bilheteria e por apoio da sociedade civil, a companhia que completa 30 anos de atividade ininterrupta em 2026 escolheu voltar ao ponto de partida. O Teatro do Incêndio remonta "Baal: O Mito da Carne", texto de Bertolt Brecht que foi sua primeira produção, em 1996. A releitura tem direção de Marcelo Marcus Fonseca, fundador do grupo, e fica em cartaz na sede da companhia, no Bixiga, aos sábados e domingos às 20h, até 4 de outubro. Os ingressos custam R$ 60 e R$ 30 (meia), pela Sympla.
A decisão de remontar nasceu da recusa em suspender a programação. "Não aceitamos a paralização, essa situação imposta pela precariedade das políticas públicas para a Cultura em São Paulo", afirma Fonseca, diretor artístico do grupo. "A montagem tem como objetivo manter o Teatro do Incêndio em atividade, reabri-lo exercendo sua vocação: fazer Teatro, Anarquia e Repertório."
Um Brecht de juventude, em cinco versões costuradas
Inspirado no deus fenício da fertilidade, Baal representa o retorno do homem à sua essência mais primitiva. A peça acompanha o amor dilacerado entre Baal, vivido pelo próprio diretor, e Ekart, interpretado por Daniel Ortega, com referências ao romance entre Rimbaud e Verlaine. Os dois formam um triângulo com Sophie, papel de Stella Rocha, e atravessam o mundo deixando corpos e poemas pelo caminho enquanto são consumidos por ele.
"Baal e Ekart não se encaixam em nenhuma definição de gênero e para eles pouco importa. Isso quer dizer que não é possível rotulá-los, defini-los", comenta o diretor.
Fogo sem patrocínio
Brecht escreveu a obra ainda jovem e a reescreveu cinco vezes. A companhia costurou uma dramaturgia própria a partir de todas as versões, sem abandonar a estrutura original. A encenação combina toques surrealistas, marca do grupo, com referências ao expressionismo, em clima de cabaré e cenas grotescas que colocam em discussão misoginia, falsa moralidade, imposição religiosa e a valorização do dinheiro acima da vida.
Vinho com o elenco antes da sessão de domingo
Aos domingos, quem comprou ingresso antecipadamente pode chegar mais cedo. A partir das 18h acontece o Esquenta Baal, em que o público entra antes no teatro, leva a própria bebida e conversa com o elenco durante a preparação para a sessão.
Serviço
Baal: O Mito da Carne Teatro do Incêndio, Rua Treze de Maio, 48, Bela Vista, São Paulo
Até 4 de outubro de 2026 Sábados e domingos, às 20h
Esquenta Baal aos domingos, às 18h, apenas para quem comprou ingresso antecipado
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia), pela Sympla.
Bilheteria abre uma hora antes
Duração: 105 minutos.
Classificação: 18 anos
Texto: Bertolt Brecht.
Dramaturgia e direção: Marcelo Marcus Fonseca.
Direção musical: Dedéco
Teatro acessível e com ar condicionado.
Estacionamento conveniado na Rua Treze de Maio, 113
BastidoresFoto — Jean Le PautreA cor proibida
Ator não veste verde, repete o teatro francês até hoje. A culpa não é de Molière: é de uma tinta tóxica chamada vert-de-gris.
Nos séculos XVI e XVII, o verde não era tingido no tecido: era pintado no pano já costurado, com cobre corroído por vapor de vinagre. A receita escorria, manchava e envenenava. A morte de Molière só reforçou uma superstição que já existia.
Nos guarda-roupas de teatro dos séculos XVI e XVII, conta a RTS, emissora pública suíça, o verde não era tingido. Era pintado. Nenhuma técnica de tinturaria da época segurava bem a cor no tecido, e a saída foi passar tinta no pano já costurado.
A tinta tinha nome e receita de oficina. Chamava-se vert-de-gris: cobre corroído por vapor de vinagre, em versões que também levavam urina. Era instável, escorria sobre as cores vizinhas e era tóxica. Ficava encostada na pele suada de quem entrava em cena.
A cor proibida
É dali que vem uma proibição que o teatro francês ainda repete, o mesmo teatro que deu ao mundo o hábito de desejar merda antes da estreia. Ator não veste verde. Em 20 de fevereiro de 2019, a RTS tratou do assunto apoiada no historiador das cores Michel Pastoureau, que ela cita a partir da France Inter e do livro dele, e escreveu que a superstição "continua relativamente presente" no meio. A versão popular credita o azar a Molière, morto em 17 de fevereiro de 1673, supostamente em cena e de verde.
"A história da morte de Molière apenas reforçou uma superstição já existente", escreve a emissora suíça.
O que a morte de Molière tem a ver com a cor
Pouca coisa. Quem o matou foi a tuberculose, informa a RTS, e sobre o figurino daquela noite a reportagem escreve apenas: "talvez fosse verde". Talvez é todo o grau de certeza que a fonte se permite.
O inventário dos bens do ator foi levantado em cartório depois da morte e publicado em 1863 por Eudore Soulié, conservador adjunto dos museus imperiais, em Recherches sur Molière et sur sa famille (Paris, Hachette). São dezenas de figurinos, papel por papel. O de Argan, o último que Molière fez, não está lá.
A cor proibida
Soulié registra a ausência e vai adiante. Segundo uma edição antiga da comédia, Argan devia entrar vestido de doente, de camisola vermelha e gorro de dormir. É esse o traje, escreve ele, que aparece na gravura que Jean Le Pautre abriu em 1676, reproduzindo uma récita nos jardins de Versalhes em julho de 1674, mais de um ano depois da morte do autor. Na gravura de P. Brisart, da edição de 1682, Argan também está de camisola, não de roupão. Por isso o pesquisador considera "muito suspeita" a anedota do presidente Hénault, que dizia ter o pai dado a Molière o roupão de um parente.
O mesmo volume derruba a lenda pela raiz. "As cores adotadas por Molière eram o verde e o amarelo", escreve Soulié na página 87, antes de citar as fitas verdes de O Misantropo e a camisola de veludo verde de O Burguês Fidalgo. O homem que teria amaldiçoado a cor trabalhava vestido dela.
Por que a cor precisava ser pintada no pano
Verde é banal na natureza e era difícil de fabricar. O vert-de-gris da RTS é o pigmento que a conservação de arte chama de verdigris. Um estudo publicado em 8 de janeiro de 2026 na revista npj Heritage Science, do grupo Nature, resume o processo histórico: expor cobre a vapores de vinagre e raspar da superfície a corrosão formada. Borra de vinho, leite, urina e mel aparecem nas mesmas receitas antigas. O produto é um acetato de cobre, quimicamente instável.
No palco, instabilidade tinha tradução prática. Daí a cor passou a ser associada a mortes prematuras e à má sorte, diz a RTS. O risco não era simbólico. Ficava no figurino.
O teatro guarda outras proibições de bastidor, como a de assobiar na coxia.
A cor proibida
Quando o problema deixou de ser químico
Ninguém mais pinta figurino com cobre, e ator de verde não se envenena. A superstição sobreviveu por causa da luz. Nos séculos XVIII e XIX, os teatros trocaram as velas por lâmpadas que queimavam óxido de cálcio, a cal viva. Aquela luz não valorizava o verde. Quem entrava em cena vestido assim sumia diante da plateia.
Os ingleses contam outra versão e chegam ao mesmo lugar: representava-se muito ao ar livre, sobre a grama, e ali também custava distinguir o ator do fundo. A luz da sala explica ainda outra escolha cromática das casas, a das poltronas vermelhas.
O tabu tampouco é universal. Na Inglaterra a cor evitada é o azul, que à luz de vela parece preto. Na Itália, o violeta. Na Espanha, o amarelo.
"Associa-se a cor verde a tudo o que não dura: a infância, o amor, a sorte, a fortuna, o acaso, o jogo", explicou Pastoureau à France Inter, em trecho reproduzido pela RTS.
Por que o cinema escolheu justamente o verde
Lincoln Turner, pesquisador de física atômica, molecular e óptica na Monash University, e o colega Russell Anderson explicaram o mecanismo em 13 de março de 2018, no site The Conversation. A formulação é direta: "as telas verdes são verdes porque as pessoas não são verdes". Em ciência das cores, escrevem, a pele humana varia muito em brilho e quase nada em matiz e saturação, e todos nós somos laranja.
A cor proibida
O chroma keyer olha só a informação de cor. Isola uma fatia estreita do círculo de matiz e saturação em torno do verde, troca esses pixels pelo vídeo de fundo e deixa passar o resto, inclusive o laranja da pele. O azul faz quase o mesmo, e veio primeiro: a montagem em película preferia o azul pela disponibilidade dos filmes sensíveis a essa faixa. O verde venceu no vídeo por dois motivos práticos: as câmeras comuns têm mais pixels sensíveis a ele, e roupa azul é mais difícil de evitar em cena.
A tinta de cobre saiu do figurino e a cal viva saiu da ribalta. Nos bastidores a proibição continua de pé, sustentada só pelo hábito. Fora deles a cor trocou de função: a mesma que apagava o ator diante da plateia é a que hoje apaga o fundo atrás dele.
Perguntas rápidas
Por que o verde dá azar no teatro? A explicação é material. Nos séculos XVI e XVII nenhuma tinturaria fixava bem o verde, e o pano era pintado com vert-de-gris, pigmento de cobre feito com vinagre e, às vezes, urina. Pela RTS, a tinta era tóxica e encostava na pele do ator.
Molière morreu vestido de verde? Nenhum documento sustenta a afirmação. A RTS escreve que o figurino "talvez fosse verde" e que a morte veio da tuberculose. O inventário publicado por Soulié em 1863 não traz o figurino de Argan, e as gravuras de época mostram o personagem de camisola, não de roupão.
Por que o chroma key usa fundo verde? Porque a pele humana, em ciência das cores, é laranja, e o verde fica longe do laranja no círculo de matiz. Os dois pesquisadores da Monash escrevem no The Conversation que o azul funciona quase igual, e que o verde venceu no vídeo por sensor e por guarda-roupa.
A semana em cartazSão Paulo
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