Teatro e cinema seguem como programa de quem tem renda, mostra pesquisa Hábitos Culturais
No teatro, 41% das classes A e B foram a um espetáculo em 12 meses, contra 17% nas D e E; o gasto com ingresso e deslocamento é o que mais desanima a sair para programas culturais
Nas classes D e E, 17% dos entrevistados foram ao teatro em 12 meses, segundo a 7ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, feita pelo Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha e divulgada em 14 de outubro. Nas classes A e B, foram 41%. No cinema, a distância chega a 45 pontos percentuais, a maior entre as 20 atividades presenciais da lista.
Foram a uma sala de cinema no ano 63% dos entrevistados das classes A e B e 18% dos das classes D e E. Entre os mais pobres, o filme chega pela tela de casa: 62% viram filmes em plataformas de streaming no mesmo período, mais de três vezes a parcela que foi ao cinema. Nas classes A e B, o streaming alcançou 89%.
O streaming também tira gente do cinema, pelo que dizem os próprios entrevistados. Entre os que usam plataformas de vídeo sob demanda, 51% afirmam que elas reduziram suas idas às salas. Na faixa de 45 a 65 anos, a resposta sobe para 57%. É a faixa que menos foi ao cinema no ano: 28%, menos da metade dos 58% registrados entre os jovens de 16 a 24.
A pesquisa ouviu 2.448 pessoas de 16 a 65 anos em 137 municípios, entre 7 e 20 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais. A parcela que fez ao menos uma atividade cultural presencial em 12 meses subiu de 84%, em 2025, para 88%, numa lista que em 2026 ganhou três itens, entre eles bailes funk e slams de poesia. Os shows de música foram de 45% para 51%.
O relatório compara as três últimas edições. Nelas, o cinema oscilou dentro da margem de erro e terminou 2026 em 39%, enquanto o teatro, que o questionário chama de “espetáculos ou teatro”, subiu seis pontos desde 2024 e chegou a 25%.
A subida foi mais forte nas classes D e E, onde a ida ao teatro passou de 7% em 2024 para 17% em 2026. Como as classes A e B também cresceram, a distância entre as duas pontas encolheu só dois pontos, de 26 para 24. Mesmo com a alta, 39% dos entrevistados responderam que nunca foram a um espetáculo de teatro. Para o cinema, os que nunca entraram numa sala são 24%.
O interesse pelo palco quase não muda com a renda. Quando o questionário pede uma nota de zero a dez para “teatro adulto, infantil, stand up ou musical”, 38% dos entrevistados das classes A e B dão 9 ou 10, e 33% dos das classes D e E fazem o mesmo, diferença que o relatório não marca como significativa.
Ana Maria Cardoso, coordenadora do Observatório Fundação Itaú, disse que as disparidades não significam que pessoas das classes mais baixas ou com menos escolaridade deem menor valor à cultura. “O que a pesquisa mostra é que existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou mesmo do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso”, afirmou, em declaração publicada pela Agência Brasil em 14 de outubro.
Quanto custa a cadeira
Entre essas barreiras, a pesquisa põe o dinheiro em primeiro lugar. Perguntados sobre o que mais os desanima a fazer atividades culturais fora de casa, 35% dos entrevistados citaram o gasto com ingresso e deslocamento, o mesmo patamar de 2024 e 2025. A insegurança veio logo atrás, com 30%. A pergunta aceitava mais de uma resposta e foi feita a todos, inclusive a quem sai com frequência.
Dos entrevistados que fizeram alguma atividade presencial, 39% dizem não gastar nada com cultura presencial num mês. Entre os que gastam, 46% ficam em até R$ 100, valor que no questionário soma cinema, teatro, museus, shows, livros e discos, sem passagem nem comida.
O preço médio do ingresso de cinema no país foi de R$ 20,40 em 2025, segundo a edição mais recente do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro, da Ancine. R$ 100 pagam quase cinco sessões, sem contar o ônibus. As salas venderam 112,8 milhões de ingressos no ano, cerca de 10% menos que em 2024.
No mapa, a ida ao cinema vai de 49% no Sudeste a 25% no Nordeste. É no Sudeste, porém, que fica o município mais populoso do país sem nenhuma sala de exibição, segundo o anuário da Ancine: Belford Roxo, na Baixada Fluminense, com 518.384 moradores em 2025.
No Rio, Piaf – Eu Não Me Arrependo, com Laila Garin no papel da cantora francesa, fica no Teatro Riachuelo, no Centro, até 29 de novembro. Na página de vendas da Ingresso.com, o primeiro lote vai de R$ 50 no balcão a R$ 300 na plateia VIP, nas sessões de sexta, sábado e domingo à tarde.
O musical de Percy Jackson tem sessões marcadas no Teatro Liberdade, em São Paulo, até 15 de novembro, segundo a agenda da Sympla. A tabela publicada pelo Times Brasil em 16 de setembro ia do ingresso popular, a R$ 50, à plateia premium central, a R$ 340. Para quem está entre os 46% de pagantes que gastam até R$ 100 por mês com cultura, uma plateia VIP do Piaf num sábado consome pelo menos três meses desse orçamento.
Cota popular e sala pública
O Piaf é apresentado pela Bradesco Seguros por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, e projeto financiado assim tem regra de preço. A Instrução Normativa nº 29 do Ministério da Cultura, publicada em 30 de janeiro de 2026 no lugar da IN 23, de 2025, manda reservar ao menos 10% dos ingressos para distribuição gratuita de caráter social ou educativo, professores da rede pública incluídos, e ao menos 20% para venda a até R$ 50. O restante tem preço livre, desde que a média da inteira não passe de R$ 250. O balcão do Piaf custa exatamente o teto da cota popular. A norma não diz em que setor ficam essas cadeiras. Para os ingressos gratuitos, pede que a distribuição aconteça, de preferência, nos pontos de venda.
Em São Paulo, a Prefeitura mantém o Circuito Spcine, rede de 32 espaços, a maior parte em bairros sem cinema comercial, com sessões gratuitas nos CEUs e preço popular nos centros culturais, segundo a Spcine. Na 50ª Mostra Internacional de Cinema, que vai até 29 de outubro, a inteira avulsa custa R$ 32 de sexta a domingo. No Centro Cultural São Paulo e no Spcine Olido, a sessão da Mostra sai por R$ 4 ou R$ 2. Nos CEUs, não se paga.
Perguntados sobre o que os candidatos eleitos a presidente e governador deveriam priorizar na cultura, 42% dos entrevistados puseram entre as duas primeiras escolhas criar ou ampliar programas de acesso gratuito a cinema, teatro, música e museus, a opção mais lembrada. Criar mais equipamentos públicos de cultura ficou com 32%. E um terço dos entrevistados, 33%, diz que não existe equipamento cultural na região onde mora.
O que a pesquisa deixa em aberto
O relatório não traz quanto se pagou por peça ou por sessão de cinema, nem separa, na alta do teatro nas classes D e E, o ingresso pago do gratuito. Na pergunta sobre interesse, o musical divide a mesma linha com teatro adulto, infantil e stand-up, sem resposta própria.
O gasto aparece mais na resposta de quem tem mais estudo e mais renda, e o relatório registra isso sem explicar: o motivo financeiro foi citado por 45% dos entrevistados com ensino superior e por 40% dos das classes A e B, contra 29% nas classes D e E. Nelas, a falta de transporte, item separado na lista, aparece mais: 20%, contra 11% nas A e B.
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