Quase 40 anos depois, Tilda Swinton volta ao teatro para reencontrar personagem de sua juventude
Atriz retorna a “Man to Man”, espetáculo que marcou o início de sua carreira e foi sua última atuação em um palco teatral; nova montagem reúne parte da equipe de 1987 e passará por Londres, Edimburgo, Berlim e Nova York
Em 1987, aos 27 anos, Tilda Swinton interpretava Ella/Max Gericke em Man to Man quando disse, em uma entrevista, que gostaria de continuar fazendo o espetáculo “até os 60”.
Demorou um pouco mais.
Aos 65 anos, a atriz retorna ao teatro para interpretar novamente a mesma personagem, quase quatro décadas depois. A nova montagem de Man to Man, texto do dramaturgo alemão Manfred Karge, estreia no Royal Court Theatre, em Londres, em 5 de setembro, e reúne Swinton a parte da equipe responsável pela produção britânica de 1987.
O retorno chama atenção não apenas pelo intervalo. Man to Man foi também a última peça em que Tilda Swinton atuou ao vivo em um teatro antes de construir uma carreira predominantemente ligada ao cinema, com filmes como Orlando, Michael Clayton, Precisamos Falar Sobre o Kevin, Amantes Eternos, O Grande Hotel Budapeste e Suspiria.
Agora, em vez de encontrar uma nova personagem, ela volta àquela que interpretou quando a maior parte dessa trajetória ainda estava por acontecer.
Uma mulher assume a identidade do marido morto
Título inglês de Jacke wie Hose, Man to Man acompanha Ella, uma mulher alemã que, depois da morte do marido, Max Gericke, percebe que também perderá a fonte de renda da casa.
Para manter o emprego destinado a ele, veste suas roupas e assume sua identidade.
O que começa como uma estratégia temporária se prolonga por décadas. Como Max, Ella atravessa a crise econômica, o nazismo, a Segunda Guerra Mundial e as transformações políticas da Alemanha, enquanto a necessidade de esconder a própria identidade passa a modificar também sua relação com o corpo e consigo mesma.
Quando Swinton interpretou a personagem pela primeira vez, em 1987, tinha praticamente a mesma idade de Ella no início da história.
Agora, a passagem do tempo possui uma camada que a montagem original não poderia reproduzir: a própria atriz envelheceu junto com o intervalo que o texto atravessa.
Parte da equipe de 1987 também está de volta
A nova produção não recupera apenas Swinton.
Stephen Unwin, diretor da montagem britânica original, retorna ao projeto. O mesmo acontece com a cenógrafa e figurinista Bunny Christie e com o iluminador Ben Ormerod. A tradução de Anthony Vivis permanece como base, agora revisada por Unwin.
A equipe atual inclui ainda Elena Peña no desenho de som, Matt Powell nas projeções, Kane Husbands na direção de movimento e Hazel Holder no trabalho de voz.
A proposta, porém, não é reconstruir exatamente o espetáculo de 1987.
Quase quatro décadas depois, a própria leitura da personagem mudou. Na primeira versão, havia forte atenção à liberdade que Ella encontrava ao assumir uma identidade masculina e acessar espaços que lhe eram negados como mulher. Hoje, a montagem também coloca em primeiro plano o preço de passar décadas escondendo partes de si para sobreviver.
Questões de gênero, identidade, autoritarismo, precariedade e pertencimento continuam no texto.
O contexto ao redor delas é outro.
Antes de “Orlando”, houve Ella
O retorno também cria uma ligação direta com um dos papéis mais importantes da carreira de Swinton.
Foi sua atuação em Man to Man no Royal Court que chamou a atenção da cineasta Sally Potter. Poucos anos depois, as duas trabalhariam juntas em Orlando, adaptação de Virginia Woolf lançada em 1992 e centrada em uma personagem que atravessa séculos e mudanças de sexo.
No mesmo ano, Man to Man também ganhou uma versão cinematográfica dirigida por John Maybury e novamente protagonizada por Swinton.
Vista retrospectivamente, Ella já concentrava questões de corpo, identidade e transformação que reapareceriam diversas vezes na filmografia da atriz.
Mas a nova montagem não depende dessa retrospectiva para justificar o retorno.
Há algo mais simples, e mais raro, acontecendo no palco: a mesma atriz interpretando o mesmo texto em dois momentos radicalmente diferentes da própria vida.
De Londres a Nova York
A temporada começa no Royal Court Theatre, onde Swinton apresentou a peça no fim dos anos 1980. As sessões acontecem de 5 de setembro a 24 de outubro e já estão esgotadas.
Depois, Man to Man segue para o Traverse Theatre, em Edimburgo, de 29 de outubro a 7 de novembro. Foi justamente no Traverse que a montagem britânica estreou, em 1987.
Em 9 de fevereiro de 2027, o espetáculo chega ao Berliner Ensemble, em Berlim, e uma temporada em Nova York está prevista para a primavera norte-americana, ainda sem teatro e datas completas anunciados.
O percurso transforma uma produção que surgiu no início da carreira de Swinton em um projeto internacional quase 40 anos depois.
Em 1987, ela disse que queria continuar interpretando Ella até os 60.
Não aconteceu.
No intervalo vieram quase quatro décadas de cinema, prêmios, diretores e personagens.
Aos 65, Tilda Swinton finalmente volta.
E talvez o interesse de Man to Man esteja justamente no fato de que ela não tem mais como encontrar a mesma personagem da mesma maneira.
Serviço — Man to Man
Londres — Royal Court Theatre
5 de setembro a 24 de outubro de 2026
Noite oficial de imprensa: 11 de setembro
Temporada esgotada
Edimburgo — Traverse Theatre
29 de outubro a 7 de novembro de 2026
Berlim — Berliner Ensemble
A partir de 9 de fevereiro de 2027
Nova York
Temporada prevista para a primavera de 2027; teatro e datas ainda serão anunciados



