Gillian Anderson e Billy Crudup entram em cena: por que “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” continua voltando 64 anos depois
Nova montagem do clássico de Edward Albee estreia em setembro no West End sob direção de Marianne Elliott; seis décadas depois de escandalizar a Broadway e chegar ao cinema com Elizabeth Taylor e Richard Burton, George e Martha continuam entre os grandes papéis do teatro
São duas horas da manhã. Uma festa universitária terminou, mas Martha ainda não está disposta a encerrar a noite.
Ela e o marido, George, recebem em casa Nick, um jovem professor recém-chegado à universidade, e sua mulher, Honey. O álcool circula, a conversa avança e o que poderia ser apenas uma visita inconvenientemente longa se transforma em uma madrugada de humilhações, jogos, ressentimentos e segredos.
Há 64 anos, Edward Albee colocou esses quatro personagens dentro de uma sala em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?.
Em setembro, será a vez de Gillian Anderson e Billy Crudup entrarem nela.
Os dois protagonizam uma nova montagem da peça no @sohoplace, em Londres, de 21 de setembro a 19 de dezembro. Anderson será Martha; Crudup, George. Josh Dylan interpreta Nick e Phoebe Horn, Honey.
A direção é de Marianne Elliott, responsável por montagens como War Horse, Angels in America e Company. Desta vez, o espetáculo será apresentado em arena, com os atores cercados pelo público.
A escolha combina especialmente com uma peça que nunca ofereceu muita distância para quem assiste.
Quatro pessoas e uma madrugada
Quando Who’s Afraid of Virginia Woolf? estreou na Broadway, em 1962, Albee não precisava de uma trama complicada.
George é professor de história. Martha é filha do presidente da universidade. Depois de uma festa, os dois recebem Nick e Honey em casa.
O restante da peça acontece quase inteiramente naquela madrugada.
George e Martha transformaram o casamento em uma coleção de jogos particulares. Atacam as frustrações um do outro, usam os convidados como peças de suas disputas e alternam crueldade, cumplicidade e afeto de uma maneira que torna difícil separar completamente uma coisa da outra.
Talvez esteja aí uma das razões de a peça continuar funcionando.
Não é necessário conhecer uma universidade norte-americana dos anos 1960 para reconhecer duas pessoas que sabem exatamente onde atingir uma à outra.
A peça que o Pulitzer recusou
A montagem original estreou no Billy Rose Theatre em 13 de outubro de 1962, dirigida por Alan Schneider, com Uta Hagen como Martha e Arthur Hill como George.
No Tony de 1963, a produção venceu Melhor Peça, Melhor Direção, Melhor Atriz para Hagen e Melhor Ator para Hill.
Naquele mesmo ano, porém, aconteceu um dos episódios mais conhecidos da história do Pulitzer de Drama.
O júri recomendou Quem Tem Medo de Virginia Woolf? para o prêmio, mas o conselho responsável pela decisão final rejeitou a escolha. Não houve vencedor na categoria em 1963.
A linguagem considerada vulgar e o conteúdo sexual estavam entre os elementos que incomodavam parte dos responsáveis pela premiação.
Albee posteriormente ganharia três Pulitzers.
Nunca por sua peça mais conhecida.
Então vieram Elizabeth Taylor e Richard Burton
Quatro anos depois, George e Martha ganharam os rostos que ajudariam a transformá-los em referências também fora do teatro.
A adaptação cinematográfica de 1966 foi dirigida por Mike Nichols e colocou Elizabeth Taylor e Richard Burton, então casados também na vida real, nos papéis principais. George Segal e Sandy Dennis completavam o quarteto.
O filme recebeu 13 indicações ao Oscar e venceu cinco. Todos os quatro atores foram indicados: Taylor venceu Melhor Atriz e Dennis, Melhor Atriz Coadjuvante.
Martha se tornou uma das interpretações definitivas da carreira de Elizabeth Taylor.
E também ajudou a criar um problema para todas as atrizes que vieram depois.
Como fazer Martha sem tentar fazer Elizabeth Taylor?
A resposta encontrada pelo teatro ao longo das décadas foi simples: continuar entregando a personagem a intérpretes capazes de encontrar outra mulher dentro dela.
Por que grandes atores continuam querendo George e Martha?
Martha pode dominar uma sala, humilhar o marido e seduzir um convidado. Mas precisa também permitir que o público perceba as fragilidades que sustentam toda aquela agressividade.
George parece, durante parte da peça, o marido derrotado diante de uma mulher muito mais expansiva.
Até deixar de parecer.
O jogo de poder entre os dois muda continuamente, e é justamente essa instabilidade que transforma os papéis em material tão atraente para atores.
Depois de Uta Hagen e Arthur Hill vieram muitas outras duplas.
Kathleen Turner e Bill Irwin protagonizaram uma remontagem na Broadway em 2005; Irwin venceu o Tony. Em 2012, Amy Morton e Tracy Letts assumiram os papéis numa produção que venceu Melhor Revival e deu a Letts o prêmio de Melhor Ator. No West End, em 2017, foi a vez de Imelda Staunton e Conleth Hill.
A peça não depende de uma única interpretação definitiva.
Depende justamente daquilo que cada nova dupla encontra dentro daquele casamento.
Agora é Gillian Anderson
Gillian Anderson chega a Martha com uma trajetória teatral que vai muito além de Arquivo X, Sex Education e The Crown.
Em Londres, já interpretou Nora, de Ibsen, e viveu Blanche DuBois em Um Bonde Chamado Desejo, trabalho que lhe rendeu forte reconhecimento no teatro britânico. Em 2019, protagonizou All About Eve, sob direção de Ivo van Hove.
Billy Crudup também tem uma longa relação com os palcos. Venceu o Tony por The Coast of Utopia e recebeu outras indicações por trabalhos como The Elephant Man e The Pillowman.
Portanto, não se trata apenas de colocar dois nomes conhecidos do audiovisual dentro de um clássico.
São dois atores experientes no teatro enfrentando personagens que exigem quase três horas de combate verbal ao vivo.
E, desta vez, o público estará literalmente ao redor deles.
Por que a peça continua voltando?
Talvez porque Quem Tem Medo de Virginia Woolf? tenha envelhecido melhor do que vários elementos do mundo no qual foi escrita.
A peça fala de casamento, mas também de ambição frustrada, desejo, envelhecimento, masculinidade, maternidade, status e da distância entre a vida que alguém imaginou ter e aquela que realmente construiu.
Acima de tudo, fala sobre verdade e ilusão.
George e Martha criaram ficções particulares para conseguir continuar juntos. A madrugada muda quando uma dessas ficções deixa de poder existir.
Essa pergunta permanece bastante atual: o que acontece quando alguém destrói a história que precisávamos contar para nós mesmos?
Talvez seja por isso que Martha nunca tenha pertencido apenas a Uta Hagen ou Elizabeth Taylor.
E George nunca tenha terminado em Arthur Hill ou Richard Burton.
Cada nova dupla precisa descobrir onde termina a crueldade e começa o amor — se é que Albee permite estabelecer uma fronteira tão confortável entre os dois.
Em setembro, será a vez de Gillian Anderson e Billy Crudup tentarem.
Sessenta e quatro anos depois, George e Martha continuam recebendo convidados.
Serviço — Who’s Afraid of Virginia Woolf?
Local: @sohoplace — Londres
Temporada: 21 de setembro a 19 de dezembro de 2026
Martha: Gillian Anderson
George: Billy Crudup
Nick: Josh Dylan
Honey: Phoebe Horn
Direção: Marianne Elliott
Duração: aproximadamente 3 horas
Encenação: arena



