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Por que os atores não dizem "Macbeth" dentro do teatro?

Por que os atores não dizem ”Macbeth” dentro do teatro?
Foto: cena da montagem de Macbeth do Federal Theatre Project no Lafayette Theatre, no Harlem, em abril de 1936, produção que não é citada nesta reportagem. Federal Theatre Project/Library of Congress American Memory Collection, via Wikimedia Commons (domínio público)

Existe uma palavra que atores e técnicos evitam pronunciar dentro do teatro. É o título da tragédia que William Shakespeare escreveu sobre um militar escocês do século XI. Nos bastidores de língua inglesa, a peça é "the Scottish play". No Brasil, virou "a Escocesa", "a Inominável", "a Dita Cuja" ou apenas "aquela".

Quem escapa e diz o nome costuma pagar um pedágio. A Royal Shakespeare Company, que mantém uma página sobre o assunto no próprio site, descreve o ritual: sair do teatro, girar três vezes, cuspir, xingar e bater na porta para ser convidado a entrar de novo.

De onde veio a história das bruxas?

A versão mais repetida atribui o azar às feiticeiras do primeiro ato. Segundo o folclore que a Royal Shakespeare Company registra, um grupo de bruxas teria se ofendido com o uso de encantamentos verdadeiros no texto e lançado uma praga sobre a peça. A companhia britânica abre a passagem avisando que ali quem fala é o folclore, e trata como suposição a ideia de que os ingredientes do caldeirão viessem de fórmulas reais.

O pano de fundo histórico existe. Em 1589, Jaime 6º da Escócia culpou bruxas por uma tempestade que quase afundou o navio em que voltava da Dinamarca com a mulher, Ana. Mandou instaurar a caça às bruxas em North Berwick e escreveu o tratado Daemonologie. Em 1603 tornou-se Jaime 1º da Inglaterra, e Macbeth veio em 1606, com referências ao naufrágio evitado. Em texto publicado pela editora britânica Penguin, Anjna Chouhan, pesquisadora do Shakespeare Birthplace Trust, lembra o efeito daquilo sobre a plateia:

"A peça abre com bruxas e mostra as bruxas lançando um feitiço. Para muita gente, aquilo estava muito perto de casa", explica Chouhan à Penguin.

O menino que nunca existiu

A lenda de origem mais citada diz que, na estreia de 1606, o rapaz escalado para viver Lady Macbeth morreu de repente e o próprio Shakespeare precisou entrar no lugar dele. Algumas versões dão o nome do garoto: Hal Berridge.

O episódio foi inventado. Nasceu numa crítica teatral sobre a atuação de Madge Kendal no St James's Theatre, que o ensaísta inglês Max Beerbohm publicou no semanário londrino The Saturday Review of Politics, Literature, Science and Art em 1º de outubro de 1898. Beerbohm escreveu o trecho como pastiche do antiquário John Aubrey, do século 17, e atribuiu a informação a ele. Não há registro de Hal Berridge nas listas de profissionais de teatro da época, nem de ator adoecido na temporada. Chouhan é direta no mesmo texto da Penguin:

"É tudo apenas um mito", afirma a pesquisadora, que atribui a invenção a Beerbohm.

O que os documentos realmente mostram

Procurada em papel, a superstição é bem mais nova que a peça. As menções conhecidas mais antigas são do começo do século 20, e o tabu original tinha outro alvo: citar versos, e não pronunciar o título. O ator e empresário americano William Ellis Horton registrou a regra numa frase só, no capítulo sobre superstições de teatro do livro Driftwood of the Stage, publicado em Detroit em 1904: nunca cite Macbeth no camarim. A revista nova-iorquina The Scrap Book voltou ao assunto em março de 1906, e o professor de literatura dramática Brander Matthews o mencionou em Vignettes of Manhattan, de 1921.

Existe ainda uma explicação sem nada de sobrenatural, que a Royal Shakespeare Company atribui ao livro The Language of Theatre, de Martin Harrison, publicado em 1998: a tragédia era popular e garantia bilheteria, então anunciá-la de surpresa costumava significar que a casa estava com dificuldade de caixa. O custo alto de montá-la também podia quebrar um teatro.

E os acidentes que todo mundo cita?

Alguns são reais e estão documentados. O mais grave aconteceu em 10 de maio de 1849, em Nova York, quando a rivalidade entre o americano Edwin Forrest e o inglês William Charles Macready terminou em tumulto na porta do Astor Place Opera House, onde Macready fazia Macbeth. A Folger Shakespeare Library, que guarda gravuras da noite, contabiliza 22 mortos ou mais. Macready terminou a apresentação e nunca mais pisou num palco americano. O motivo, porém, era outro. Bruce McConachie, professor emérito de teatro da Universidade de Pittsburgh, resume o episódio em texto publicado pela Folger Shakespeare Library:

"A dinâmica do tumulto assume as proporções de um antagonismo de classe genuíno. Quando tudo isso explode, em 1849, como diziam muitos jornais na época, é 'os ricos contra os pobres'", afirma McConachie.

O ator inglês Harold Norman foi ferido numa cena de luta no Colosseum Theatre, em Oldham, no dia 30 de janeiro de 1947. Morreu no hospital três semanas depois. Em 1948, em Stratford-upon-Avon, a atriz Diana Wynyard caiu do palco durante a cena do sonambulismo, porque decidira fazê-la de olhos fechados. Saiu ilesa. Na véspera, segundo a Royal Shakespeare Company, ela dissera a um repórter que achava a maldição ridícula.

Chouhan oferece a leitura estatística: a tragédia fica em cartaz por temporadas mais longas que as de outras peças de Shakespeare, e quanto mais apresentações, maior a chance de algo dar errado.

E no Brasil, a peça também é inominável?

Para uma parte da classe, sim, e ela é menor do que a fama do tabu sugere. Em reportagem publicada pela revista Bravo! em dezembro de 2007, o jornalista Armando Antenore acompanhou uma montagem paulistana na Sala Crisantempo, na Vila Madalena, em cartaz de 12 de outubro a 25 de novembro. O tradutor Marcos Daud, que também é ator, jamais pronunciava o título e chamava o protagonista de "o General". Chegou a escrever apenas "M." enquanto traduzia, achou a saída ridícula e voltou a grafar o nome por extenso, mantendo só a regra de não dizê-lo em voz alta. No mesmo grupo, porém, a diretora Regina Galdino, seis integrantes do elenco e o produtor nunca evitaram pronunciar o título dentro de um teatro. Cética, ela resumiu a posição contrária em três palavras:

"Confio no acaso", disse a diretora à Bravo!.

A mesma reportagem recolheu um caso mais antigo: em 1992, o Teatro Arthur Rubinstein, do clube paulistano A Hebraica, pegou fogo durante uma temporada da tragédia com Antonio Fagundes no papel-título. O incêndio começou nas coxias, à tarde, pouco antes de o elenco chegar, e ninguém se feriu. Em Santos, na mesma turnê, um refletor despencou perto do ator.

O medo do nome convive com um repertório maior de rituais: o pedido de "merda" antes da estreia, a proibição de assobiar nos bastidores e a lâmpada acesa no palco vazio. A trajetória do autor da tragédia está no verbete de William Shakespeare, na enciclopédia do FOYER.

Perguntas rápidas

Pode dizer "Macbeth" durante um ensaio da peça? Pode. Nas versões mais correntes, a superstição abre exceção para o que está no texto, dito em ensaio ou em cena.

O menino que fazia Lady Macbeth morreu mesmo na estreia? Não há registro disso. A história saiu de uma crítica de Max Beerbohm publicada em The Saturday Review em 1º de outubro de 1898, escrita como paródia de um antiquário do século 17.

Desde quando existe a superstição? As menções documentadas mais antigas são do começo do século 20: um livro de 1904, uma revista de 1906 e outro livro de 1921, todos publicados nos Estados Unidos. Neles o tabu recai principalmente sobre citar a peça, não sobre pronunciar o título.

Como se desfaz o feitiço? Segundo a tradição, saindo do teatro, girando três vezes, cuspindo e xingando, e voltando só quando for convidado.

BastidoresRedação Foyer

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