O que faz uma camareira no teatro?
Alzira Aquedano acompanhava o mesmo humorista havia quase três décadas. Em 20 de janeiro de 2019, ao contar a própria rotina numa reportagem do jornal Estado de Minas sobre quem sustenta o palco por trás da cortina, ela resumiu o ofício assim:
"Chego mais cedo que ele ao teatro, para passar o figurino e reparar algum problema, se aparecer. Quando a peça começa, fico na coxia, ajudo na troca de roupas e no que for preciso", contou Alzira ao Estado de Minas.
Em duas frases ela cobriu quase o ofício inteiro. A camareira responde pelo figurino em cena: recebe as roupas, cuida delas, veste o elenco antes de a luz acender, troca o ator no escuro da coxia e recolhe tudo depois que a plateia vai embora. No Brasil a função tem código próprio na Classificação Brasileira de Ocupações, a CBO 5133-05, onde aparece também como camareiro de teatro, guarda-roupeiro de teatro e roupeiro de teatro.
Do camarim vazio à roupa na lavanderia
A descrição oficial da CBO é comprida, e vale ler devagar. Antes da temporada, é a camareira quem decide onde ficam guardados o vestuário, os acessórios e os adereços de cada figurino, e como eles chegam às mãos de quem vai vestir. É ela também quem pede o material para confeccionar, ajustar e manter as peças. Passa as roupas, acerta o caimento, costura o que abriu, engraxa e cuida dos sapatos.
No dia da sessão, a rotina vira vistoria. Ela arruma e confere camarim, palco e sala de ensaio, separa as roupas por personagem e por ator, deixa cada uma no lugar combinado e veste o elenco. Com a peça em cena, muda os trajes nas deixas marcadas e entrega em mãos o material que acompanha cada troca. Nos apagões, espera na saída de palco: o ator deixa a luz e precisa encontrar alguém exatamente onde o escuro começa.
Terminado o espetáculo, recolhe roupa, acessório e adereço peça por peça, controla o que sai para a lavanderia e pede a reposição do que não tem mais conserto. Em turnê, ainda monta a lista e embala tudo para a viagem até o próximo teatro. É a mesma responsabilidade invisível que recai sobre o contrarregra, com a diferença de que aqui o objeto de cena está vestido em alguém.
Como se ensaia uma troca de figurino de segundos?
A troca rápida, que o meio chama pelo termo inglês quick change, é coreografada como qualquer outra cena. A própria CBO registra que a camareira acompanha os ensaios da peça justamente para compreender os tempos de uso e de troca dos figurinos. O número de passos, a ordem dos botões, o lado em que a peça fica pendurada, a mão que recebe cada item: tudo se decide antes e se repete até virar automatismo.
Em reportagem publicada em 1º de abril de 2016, a revista americana Playbill acompanhou um dia inteiro das camareiras da Broadway. O tamanho da operação aparece num detalhe: para a atriz Kelli O'Hara em The King and I, o Lincoln Center construiu uma cabine de troca rápida nos bastidores, porque os vestidos não passavam pela porta do camarim.
A camareira Fran Curry chegava duas horas antes de o pano subir. Arrumava o que a sessão anterior tinha deixado, passava o vestido lavanda do número Shall We Dance? e conferia os consertos pequenos do dia.
"Como artista, o ambiente dela é diferente em cada espetáculo, o que ela precisa é diferente em cada espetáculo, e o meu trabalho é ser fluida e flexível e ser o que ela precisar que eu seja naquele espetáculo, para criar um ambiente em que ela consiga fazer o trabalho dela", disse Fran Curry à Playbill.
Essa parte do ofício não cabe em descrição de cargo. Em noite de espetáculo, a camareira trabalha colada ao corpo do ator, e é para ela que sobra o figurino rasgado no segundo ato e o nervosismo de quem vai entrar. Daí as relações que atravessam temporadas inteiras, como a de Alzira.
O registro profissional sai por diploma ou por portfólio
Não existe faculdade de camareira. O caminho é o DRT, registro previsto na Lei nº 6.533, de 1978, que regula as profissões de artista e de técnico em espetáculos de diversões.
O Sated-SP, sindicato da categoria no estado de São Paulo, trata a camareira como função técnica e exige idade mínima de 18 anos. Para tirar o registro há três portas: diploma de curso superior da área, certificado de habilitação profissional de nível médio ou atestado de capacitação dado pelo próprio sindicato, que nesse caso olha portfólio e currículo e chama o candidato para uma entrevista.
Na prática, quase todo mundo aprende trabalhando, ou em oficinas curtas. Em 2025, a oficina gratuita Camareira para Eventos Culturais, ministrada por Elizabeth Chagas no Teatro Estúdio, abriu vagas para estudantes e trabalhadores da cultura e foi da preparação dos figurinos ao apoio direto ao elenco.
O próprio texto do sindicato dá a medida do serviço: conservar a roupa, lavar, passar, costurar, vestir o intérprete e reorganizar o guarda-roupa para a viagem. Nada disso se faz sem saber de tecido, de costura e de tempo de palco. É um conhecimento que circula pouco fora dos bastidores, como acontece com a luz fantasma e com o costume de desejar merda antes da estreia.
Perguntas rápidas
Camareira de teatro é a mesma coisa que camareira de hotel?
Não. São ocupações distintas, com códigos diferentes na CBO. A camareira de teatro cuida do figurino e do elenco durante o espetáculo; a de hotel cuida da arrumação de apartamentos.
Camareira precisa saber costurar?
Sim. A descrição oficial da profissão inclui passar, ajustar e consertar as peças, além de conservar calçados e pedir a reposição do que não tem mais conserto. Muito reparo acontece entre uma sessão e outra.
Quem veste o ator quando a troca é de poucos segundos?
A camareira, num ponto combinado da coxia. A troca rápida é marcada e ensaiada com a mesma atenção que uma cena, e a camareira acompanha os ensaios para cronometrar cada movimento.
Existe registro profissional para a função?
Existe. O DRT, previsto na Lei nº 6.533/1978, pode sair por diploma, por certificado técnico de nível médio ou por atestado de capacitação emitido pelo sindicato da categoria, como o Sated-SP.



