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O que é mamulengo, o teatro de bonecos que também se chama João Redondo e Cassimiro Coco

O que é mamulengo, o teatro de bonecos que também se chama João Redondo e Cassimiro Coco
Foto: Culturapopularmamulengo/Wikimedia Commons (CC BY 4.0). A mamulengueira Cida Lopes, de Glória do Goitá (PE), com um boneco de mamulengo

O mesmo teatro troca de nome quando atravessa a divisa do estado. Em Pernambuco é mamulengo. Na Paraíba, babau. No Rio Grande do Norte, João Redondo. No Ceará, Cassimiro Coco.

Os quatro nomes designam um bem cultural só. A certidão do Iphan, assinada em Brasília em 5 de março de 2015, transcreve o que ficou escrito na folha quarenta e três do Livro de Registro das Formas de Expressão: "Registro número quinze. Bem cultural: Teatro de Bonecos Popular do Nordeste Mamulengo, Babau, João Redondo, Cassimiro Coco".

Um quinto nome circula nas reportagens: calunga. No dossiê do registro ele tem outro emprego. No Rio Grande do Norte, na Paraíba e no Ceará, calunga é o boneco, e calungueiro é quem brinca com ele.

O pedido não partiu do governo. Quem protocolou foi a Associação Brasileira de Teatro de Bonecos, em 2004. O parecer do relator no Conselho Consultivo do Iphan diz por quê: desde os anos 1980 a brincadeira vinha "sofrendo forte declínio em suas formas tradicionais de produção e circulação", com seus artistas em "extrema vulnerabilidade". Do pedido à certidão foram onze anos.

O que acontece atrás da empanada

A barraca faz as vezes de palco. Ela também atende por tolda e por empanada. O dossiê a descreve como uma estrutura vazada de madeira, ou de outros materiais. Na Zona da Mata pernambucana ela aparece ornada de pinturas e panos. Em outros lugares, é um lençol amarrado de parede a parede.

O bonequeiro trabalha lá dentro, escondido. Os bonecos sobem por baixo, com ele em pé ou sentado. A técnica mais comum é a de luva: cabeça e mãos de madeira, corpo de pano vazio que a mão preenche. Os personagens principais são todos de luva, diz o dossiê: é o que dá braço e mão precisos.

A plateia assiste de pé ou em cadeiras removíveis, e entra na cena. O enredo mais corrente repete a mesma briga. Um vaqueiro negro trabalha na fazenda de um latifundiário rico. Conforme a região, ele atende por Benedito, Baltazar ou Cassimiro Coco, e o patrão por Capitão João Redondo ou Coronel Mané Pacaru. Contra ele vêm o policial, o padre e o doutor. Quase sempre o vaqueiro ganha.

Quem faz não chama aquilo de espetáculo. A certidão anota o vocabulário dos próprios praticantes: o teatro é um "brinquedo", e atuar se diz "brincar".

O mestre é o dono do brinquedo

Dentro da tolda há hierarquia. O mestre é dono da brincadeira e de todo o material, do acervo de bonecos à barraca. O contramestre manipula ao lado dele e às vezes toca cenas inteiras. Há ainda o ajudante, quase sempre um menino, e um brincante que fica de fora respondendo aos bonecos.

Para chegar a mestre, segundo o dossiê, o artista precisa ter acompanhado outros mestres e dominado as técnicas de manipulação. Precisa conhecer as histórias e as loas de cada boneco, emitir vozes diferentes, cantar, ter fôlego, improvisar e provocar o riso. Nada disso está escrito. A transmissão é oral, de mestre para discípulo e de pai para filho.

Daí vem a fragilidade que o registro foi buscar. Quando um mestre morre, o acervo se dispersa. Fora o Museu do Mamulengo, em Olinda, bonecos, empanadas e objetos de cena estão espalhados, diz o dossiê. Acervos particulares acabam vendidos por familiares que não compreendem o valor do bem, diz o mesmo documento.

O que o título mudou, e o que não

O registro é federal, do mesmo instituto que formalizou a candidatura dos Teatros da Amazônia, inscritos no Patrimônio Mundial da Unesco em julho de 2026. No dia do anúncio, o Iphan afastou a leitura mais fácil do assunto.

"O Teatro de Bonecos Popular do Nordeste não é um brinquedo ou um traço do folclore. Envolve, sobretudo, a produção de conhecimento criativo, artístico e com uma forte carga de representação teatral", declarou o instituto à Agência Brasil.

Brinquedo, ali, quer dizer bibelô, não a palavra dos bonequeiros.

Em 2026, o plano de salvaguarda que o Iphan publica na ficha do bem é um só, de 2020, e cobre só o Distrito Federal.

Onde a brincadeira está em agosto de 2026

A certidão registra que a prática se espalhou pelo país, levada por migrantes. No Sudeste e no Centro-Sul, mamulengo virou o nome genérico do gênero. É o caminho que a Carroça de Mamulengos percorreu até Brasília.

Mestre Chico Simões cruza o Norte neste mês. Fundador do Mamulengo Presepada, de Taguatinga, ele leva O Romance do Vaqueiro Benedito a Cantá, em Roraima, nos dias 20 e 21, e a duas escolas quilombolas de Macapá, em 27 e 28 de agosto. Entrada franca, com Libras nos dias 20 e 27 e audiodescrição em 21 e 28, pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. O vaqueiro do título é o personagem do dossiê.

"Eu brinco dizendo que a apresentação do mamulengo é a mesma há mais de 40 anos e, ao mesmo tempo, nunca se repetiu", disse Chico Simões ao Correio Braziliense.

Em Carpina, a terceira edição do Festival Internacional Mamulengando Pernambuco juntou artistas do Brasil, do Peru e de Moçambique entre 27 de fevereiro e 1º de março de 2026.

A mamulengueira Cida Lopes, de Glória do Goitá, teve marcada para 16 de abril de 2026 a entrega do título de Notório Saber em Cultura Popular da Universidade de Pernambuco. Ela está na lista de bonequeiros levantada pelo dossiê, ao lado do pai, o mestre Zé Lopes, articulador da pesquisa de campo em Pernambuco. A linguagem circula longe da origem, como em Las Choronas, em São Paulo.

O Decreto nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, marcou o Dia do Folclore em 22 de agosto. Num dos considerandos, escreveu que o governo queria defender "a sobrevivência dos seus folguedos e artes, como elo valioso da continuidade tradicional brasileira". Sessenta e um anos depois, essa sobrevivência tem endereço e horário: uma escola quilombola em Macapá, às 11h do dia 27.

Perguntas rápidas

Mamulengo, babau, João Redondo e Cassimiro Coco são coisas diferentes?
São nomes regionais da mesma forma de expressão. Desde 2015 o Iphan os trata como um bem cultural único: mamulengo em Pernambuco, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte, Cassimiro Coco no Ceará.

O que é a empanada?
É a barraca de onde saem os bonecos, também chamada de tolda. O dossiê do Iphan a define como estrutura vazada de madeira, ou de outros materiais, que serve de palco. O bonequeiro fica dentro dela e manipula os bonecos por baixo.

Em que livro do patrimônio o mamulengo está inscrito?
No Livro de Registro das Formas de Expressão, instituído pelo Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. A certidão indica o registro número quinze, na folha quarenta e três do volume primeiro.

EntendaRedação Foyer

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