O economista que ajudou a financiar as artes britânicas agora vira personagem no West End
James Graham coloca John Maynard Keynes no centro de “The Standard of Living”, nova peça estrelada por Rory Kinnear e Natalia Osipova
Economia, Virginia Woolf, ballet, política pública e financiamento da cultura podem parecer assuntos de cinco peças diferentes.
Para James Graham, cabem todos na mesma.
O dramaturgo britânico levará ao West End em setembro The Standard of Living, nova peça inspirada na vida de John Maynard Keynes, um dos economistas mais influentes do século XX , e também uma figura fundamental para a criação do modelo moderno de financiamento público das artes no Reino Unido.
Rory Kinnear interpreta Keynes e Natalia Osipova, principal bailarina do Royal Ballet, faz sua estreia no West End como Lydia Lopokova, bailarina russa que foi casada com o economista. A direção é de Nicholas Hytner.
A temporada acontece entre 21 de setembro e 12 de dezembro no Theatre Royal Haymarket, em Londres.
Mas por que fazer uma peça sobre Keynes?
O nome costuma aparecer nas aulas de economia por sua defesa da participação do Estado na atividade econômica, especialmente em períodos de crise.
A vida de Keynes, porém, atravessava territórios muito menos previsíveis.
Ele integrou o Bloomsbury Group, círculo de escritores, artistas e intelectuais do qual também faziam parte nomes como Virginia Woolf, Vanessa Bell e Duncan Grant. Sua trajetória circulou entre ambientes políticos, debates econômicos e uma vida cultural particularmente intensa. Parte dessas relações aparece na nova dramaturgia de Graham.
E existe uma ligação muito concreta entre Keynes e o teatro no qual sua história agora será contada.
No pós-guerra, Keynes tornou-se o primeiro presidente do Arts Council of Great Britain. Os arquivos da University of the Arts London registram que ele utilizou sua influência política para assegurar financiamento público ao órgão mesmo diante das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país depois da Segunda Guerra Mundial.
Foi também defensor de uma relação de relativa independência entre o órgão responsável pela cultura e o governo, princípio que se tornaria importante na estrutura britânica de financiamento artístico.
Ou seja: The Standard of Living coloca no palco um economista cuja ideia de reconstrução de um país passava também pela existência da arte.
E isso torna a peça curiosamente atual
A escolha acontece enquanto o próprio Reino Unido volta a discutir como financiar cultura.
Em agosto, o Guardian dedicou um editorial aos 80 anos do sistema britânico de apoio público às artes, justamente num momento em que instituições culturais enfrentam cortes orçamentários e novas discussões sobre os rumos do Arts Council England.
Graham parece encontrar nesse passado uma maneira de discutir o presente.
O elenco inclui ainda Thomas Flynn como Duncan Grant, Laurie Kynaston como Friedrich Hayek, Naomi Frederick como Virginia Woolf, Claire Price como Vanessa Bell e Pip Carter como Lytton Strachey.
Há ainda um detalhe especialmente interessante: 25% dos ingressos da temporada serão vendidos por £25, e a produção criou uma cota de entradas pelo mesmo valor para espectadores com menos de 30 anos.
Para uma peça que pergunta qual deve ser o padrão de vida de uma sociedade e qual espaço essa sociedade reserva à cultura, é difícil imaginar um serviço mais coerente com a própria pauta.
Fontes consultadas: Theatre Royal Haymarket, University of the Arts London Archives, WhatsOnStage e The Guardian.



