Netflix paga US$ 500 milhões por The Walking Dead e leva os seis spin-offs ao catálogo brasileiro
A Netflix acaba de fechar um cheque de meio bilhão de dólares por série antiga, e não há uma linha de português nele. Na quinta-feira, 30 de julho, a plataforma e a AMC Global Media anunciaram um acordo global de licenciamento que leva ao serviço a série The Walking Dead e as seis derivadas do universo, num total de 371 episódios. O comunicado oficial fala em acordo plurianual, sem cifra nem prazo. O valor e o prazo saíram em Variety e Deadline: US$ 500 milhões por cinco anos.
Para quem assina no Brasil, a mudança é concreta. Hoje só a série original está no catálogo da Netflix daqui. Na noite de quinta, o Omelete publicou que a Netflix o procurou para confirmar que os spin-offs também chegam ao país, com todos os episódios.
O que entra, e quando
O acordo é coexclusivo: as mesmas séries ficam na Netflix e no AMC+, onde esse serviço existe. A partir de 2027 entram Fear the Walking Dead, The Walking Dead: Daryl Dixon, The Walking Dead: Dead City, The Walking Dead: The Ones Who Live, The Walking Dead: World Beyond e Tales of The Walking Dead. Nada disso acontece de uma vez. No comunicado, as duas empresas avisam que cada série estreia em datas diferentes conforme o território, à medida que os contratos de streaming já existentes vão vencendo.
A série original estreou na AMC em 31 de outubro de 2010 e rodou 11 temporadas e 177 episódios. A Netflix é a casa exclusiva dela nos Estados Unidos desde 2011 e agora leva o título também para Reino Unido, Itália, Austrália, Nova Zelândia e outros mercados.
"O público descobriu e amou The Walking Dead na Netflix por quase 15 anos, e a série continua atraindo novos fãs", disse Lori Conkling, vice-presidente de licenciamento da Netflix, no comunicado divulgado pela empresa.
R$ 2,5 bilhões por 371 episódios
Agora a conta. Pela cotação oficial do Banco Central no dia do anúncio, R$ 5,0739 por dólar, os US$ 500 milhões equivalem a cerca de R$ 2,5 bilhões. Divididos pelos 371 episódios do pacote, dão perto de R$ 6,8 milhões por episódio já rodado, já pago e já exibido. A conta é da redação, feita a partir dos números publicados.
Para a Netflix, o cheque é administrável. No balanço do segundo trimestre, divulgado em 16 de julho, a empresa registrou receita de US$ 12,56 bilhões e lucro líquido de US$ 3,4 bilhões, com mais de 4,8 milhões de novas contas no período. Só na América Latina, o faturamento do trimestre foi de US$ 1,22 bilhão. Outra conta da redação, e ela compara prazos diferentes: os US$ 500 milhões de cinco anos de direitos equivalem a cerca de 41% do que a plataforma arrecadou na região em um único trimestre.
Quem estava precisando do dinheiro
Do outro lado da mesa, a notícia saiu junto com o balanço trimestral da AMC Global Media, na mesma quinta-feira. Os resultados ficaram abaixo do que Wall Street esperava e, ainda assim, a companhia elevou a projeção para o ano inteiro, em parte por causa do contrato com a Netflix, informou o Deadline. Licenciar catálogo antigo virou salva-vidas de estúdio.
"A Netflix foi um parceiro importante para fazer de The Walking Dead uma das franquias mais bem-sucedidas da história do entretenimento", afirmou Kristin Dolan, presidente-executiva da AMC Global Media, no mesmo comunicado.
O que o Brasil ainda não cobra dessa conta
Nenhum centavo desses US$ 500 milhões passa por regra brasileira, e essa é a parte que interessa a quem produz no país. A lei do streaming, que criaria a Condecine sobre as plataformas, teve o texto-base aprovado pela Câmara em 4 de novembro de 2025. Desde então está no plenário do Senado, sem votação: a página de tramitação da Casa, consultada nesta sexta-feira, 31, registra a matéria como em tramitação, com último estado de 17 de novembro de 2025.
O texto dos deputados prevê contribuição de 0,1% a 4% da receita bruta anual obtida no Brasil, com a publicidade dentro da base de cálculo. Vídeo sob demanda paga de 0,5% a 4%, com dedução de até 60% para quem aplicar o dinheiro em conteúdo brasileiro e redução de 75% para a plataforma que ofertar mais da metade do catálogo em obras nacionais. Existe ainda a Condecine Remessa, de 11% sobre os valores enviados ao exterior, com isenção para quem reinvestir 3% em produção independente. Pelo cálculo do relator, o deputado Doutor Luizinho (PP-RJ), até 700 obras nacionais em catálogo bastariam para cumprir a cota mínima de 10% de conteúdo brasileiro, registrou a Agência Brasil.
Foi esse desenho que levou cineastas às ruas de Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Porto Alegre na véspera da votação, em atos batizados de Pega a Visão. Na cobertura daqueles protestos, em novembro de 2025, a Agência Brasil ouviu a cineasta Laís Bodanzky.
"Elas podem produzir o que quiserem com dinheiro privado, mas não têm o direito de decidir o que o Brasil tem a dizer através do audiovisual", disse ela à agência, ao defender cota de 20% de obras nacionais nos catálogos, meses antes do acordo entre Netflix e AMC.
Enquanto o Senado não vota, o dinheiro que sustenta produção brasileira continua saindo de onde sempre saiu: do Fundo Setorial do Audiovisual, de editais como o Petrobras Cultural e de encomenda de plataforma, caso da série Os Outros, que o Globoplay levou a uma segunda temporada.
Quem paga a conta aqui embaixo
No Brasil, a assinatura mais barata da Netflix é a com anúncios, a R$ 20,90 por mês. O plano Padrão sai por R$ 44,90 e o Premium, por R$ 59,90, patamar mantido desde 2024, conforme apuraram o TecMundo e o Oficina da Net em março de 2026. É esse plano de entrada que a empresa vem transformando em negócio de publicidade.
Em junho, no Cannes Lions, a Netflix apresentou um formato interativo de anúncio: um botão aparece na tela, o espectador clica no controle remoto e o link da marca vai como notificação para o celular ligado à conta. Pelo anúncio de 23 de junho, o recurso seria lançado nos Estados Unidos e no Canadá em 1º de julho, com testes no Brasil e no México no mesmo mês. Segundo a Netflix Ads, pode alcançar mais de 63 milhões de assinantes ativos do plano com anúncios nos dois países, informou o propmark.
Junte as pontas. O assinante brasileiro paga a mensalidade, assiste ao anúncio e vai receber em 2027 um catálogo que custou US$ 500 milhões pagos a um estúdio americano. Quanto desse dinheiro volta para quem filma no Brasil é uma pergunta parada numa gaveta do Senado desde novembro. Vale cobrar.


