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Teatro Foyer

Mister Emerson volta a São Paulo com comédia sobre ciência, crença e os primórdios da cirurgia

Mister Emerson volta a São Paulo com comédia sobre ciência, crença e os primórdios da cirurgia
Foto: Ronaldo Gutierrez

Depois de estrear na capital e passar por outras cidades, “A Primeira Cirurgia da História, ou O Barbeiro de Andaluzia” ganha temporada no Teatro Itália em setembro; monólogo de Emerson Espíndola tem direção de Ivan Parente

Um barbeiro que corta cabelos, arranca dentes, faz sangrias, trata ferimentos e ainda recorre a rezas quando necessário. É a partir de um ofício que hoje parece improvável que Emerson Espíndola, o Mister Emerson, retorna aos palcos de São Paulo com “A Primeira Cirurgia da História, ou O Barbeiro de Andaluzia”, monólogo escrito e protagonizado pelo ator, com direção de Ivan Parente.

Depois de estrear na capital paulista no início deste ano e realizar apresentações fora da cidade, incluindo uma passagem pelo Teatro Municipal de Itajaí, em Santa Catarina, o espetáculo ganha nova temporada em setembro no Teatro Itália, no centro de São Paulo. As sessões acontecem às quintas-feiras, às 20h, e aos sábados, às 17h.

No centro da história está Raí, um barbeiro-curandeiro que tenta sobreviver em uma praça da Andaluzia medieval oferecendo aos habitantes tudo aquilo que sabe — ou acredita saber — fazer. Cortes de cabelo dividem espaço com extrações de dentes, sangrias, rezas, cuidados com ferimentos e soluções improvisadas.

A associação pode soar absurda para quem olha a medicina a partir do século 21, mas encontra correspondência na história. Durante a Idade Média europeia, cirurgias estavam muitas vezes afastadas da medicina praticada pelos médicos, e barbeiros chegaram a realizar procedimentos como extrações dentárias, sangrias e tratamento de ferimentos.

É nessa fronteira, ainda pouco definida entre conhecimento, experiência, crença e charlatanismo, que a comédia encontra seu material.

O que começa como a sucessão das estratégias de sobrevivência de Raí passa, aos poucos, a girar em torno de uma questão maior: como sabemos que aquilo em que acreditamos é verdade?

A distância de aproximadamente mil anos entre o personagem e a plateia ajuda a produzir o humor, mas também diminui conforme a história avança. Se Raí vive em um mundo no qual tradição, fé, experiência e conhecimento disputam autoridade, algumas das engrenagens continuam reconhecíveis em uma sociedade cercada por informação — e também pela dificuldade de distinguir evidência, crença e desinformação.

A trama é ficcional e não pretende reconstruir uma aula sobre história da medicina. Episódios, práticas e referências históricas funcionam como matéria para a dramaturgia e para a comicidade, aproximando um universo medieval de questões que permanecem em circulação no presente.

Da ciência nas redes ao palco

A relação entre humor e conhecimento já ocupa boa parte do trabalho de Emerson Espíndola fora do teatro.

Durante a pandemia, o ator começou a ganhar projeção nacional como Mister Emerson, criando vídeos nos quais órgãos, substâncias e processos do corpo humano são transformados em personagens. Em vez de simplesmente explicar um fenômeno, Emerson dramatiza o que acontece dentro do organismo: células conversam, órgãos discutem e diferentes partes do corpo ganham personalidade.

Em 2023, reportagem do jornal O Povo registrava 4,8 milhões de seguidores somados apenas entre TikTok e Instagram e mostrava que os vídeos já haviam atravessado as redes para chegar também às salas de aula, utilizados por professores como recurso para abordar conteúdos científicos.

Antes da popularidade na internet, porém, Emerson já construía uma trajetória como ator, cantor e músico. Integrou o elenco de “Hair”, de Charles Möeller e Claudio Botelho, e de “Cássia Eller – O Musical”, no qual interpretou diferentes personagens, entre eles Nando Reis.

Na televisão, participou de produções da Globo como “A Regra do Jogo”, “Malhação” e “A Força do Querer”, novela em que interpretou Reinaldo.

Em “A Primeira Cirurgia da História”, esses dois caminhos se encontram. A capacidade de transformar informação em narrativa, desenvolvida também nos vídeos, deixa o formato curto das redes e passa a sustentar um espetáculo inteiro.

Só que o movimento não é simplesmente levar o conteúdo digital ao teatro. Em cena, Emerson retorna também a uma ferramenta bem anterior ao TikTok: a figura do contador de histórias.

O espetáculo combina narrativa direta ao público, comicidade física, informação e fábula. Entre as referências assumidas no processo de criação está o dramaturgo italiano Dario Fo, cuja obra aproximou o monólogo, a tradição popular, a sátira e a crítica social. A referência a Fo já acompanhava a apresentação do projeto em sua primeira temporada paulistana.

Um humor que passa pelo corpo

É justamente no corpo que a direção de Ivan Parente encontra boa parte da comicidade do espetáculo.

A montagem trabalha com elementos associados à commedia dell’arte, como a frontalidade, o jogo direto com o espectador e a transformação física da ação. Em um monólogo, no qual um único ator precisa sustentar personagens, situações e diferentes ritmos da narrativa, essa dimensão ganha ainda mais peso.

Parente traz para a direção uma trajetória de mais de três décadas como ator, cantor, dublador e diretor. No teatro musical, passou por produções como “A Madrinha Embriagada”, “O Homem de La Mancha” e pelas duas montagens brasileiras de “Les Misérables”.

Foi justamente por Les Misérables, no papel de Thénardier, que recebeu em 2017 os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante no Bibi Ferreira e no Prêmio Reverência de Teatro Musical.

No encontro entre a direção física de Parente e a experiência narrativa de Emerson, o humor não aparece como intervalo para que a informação seja transmitida. É por meio dele que o espetáculo escolhe chegar à discussão.

“A Primeira Cirurgia da História” iniciou sua trajetória paulistana em janeiro, no Teatro Multiplan MorumbiShopping. Na sequência, passou por outras cidades — em março, por exemplo, o espetáculo foi apresentado no Teatro Municipal de Itajaí.

Agora, chega ao centro de São Paulo para uma temporada de oito apresentações no Teatro Itália.

Entre um barbeiro medieval tentando descobrir até onde vai aquilo que sabe e um público contemporâneo cercado por respostas para praticamente tudo, talvez a distância não seja tão grande quanto mil anos fazem parecer.

SERVIÇO

A Primeira Cirurgia da História, ou O Barbeiro de Andaluzia

Texto e atuação: Emerson Espíndola
Direção: Ivan Parente
Temporada: setembro de 2026
Datas: 3, 5, 10, 12, 17, 19, 24 e 26 de setembro
Horários: quintas-feiras, às 20h, e sábados, às 17h
Local: Teatro Itália
Endereço: Av. Ipiranga, 344 — República, São Paulo — SP
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: Sympla
Instagram: @aprimeiracirurgiadahistoria

FICHA TÉCNICA

Texto e atuação: Emerson Espíndola
Direção: Ivan Parente
Produção: Pollyana Oliveira
Visagismo: Letícia Navarro
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Design: Mario Caruso (Tullece)
Mídias sociais: Mario Caruso (Tullece) e Pollyana Oliveira
Preparação de língua árabe: Abud Fayed

TeatroIsabel Branquinha

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