Mariana Muniz celebra 50 anos de trajetória no solo “Brecha”
Com direção de Murillo Basso, espetáculo de teatro e dança estreia no Galpão do Folias e homenageia Klauss e Angel Vianna
A atriz e bailarina Mariana Muniz celebra cinco décadas de trajetória artística em “Brecha”, solo de teatro e dança que estreia no dia 3 de setembro, no Galpão do Folias, em São Paulo. Com direção de Murillo Basso, a temporada segue até 13 de setembro, com apresentações de quinta a domingo, às 19h30, e sessão extra no feriado de 7 de setembro.
O espetáculo parte da memória da artista, mas não se organiza como retrospectiva convencional. Em vez de reconstruir uma carreira em ordem cronológica, “Brecha” aposta no corpo como lugar de passagem, presença e transformação. A cena nasce do encontro entre lembranças, gestos, palavras, movimento e experiências acumuladas ao longo de 50 anos de criação.
A montagem também homenageia Klauss Vianna e Angel Vianna, mestres fundamentais na formação de Mariana Muniz e na história da dança e do teatro no Brasil. O trabalho dialoga com a pesquisa corporal desenvolvida pela artista desde os anos 1970, quando passou a investigar as relações entre dança contemporânea, teatro, educação somática e criação cênica.
Em cena, Mariana transforma a própria trajetória em matéria viva. O espetáculo incorpora vivências de sua formação como educadora somática no Body Mind Movement, experiências de treinamento com Klauss e Angel Vianna, memórias de trabalhos como atriz e o contato com textos, diretores e processos que atravessaram sua carreira.
A ideia não é tratar a memória como arquivo parado. “Brecha” olha para a lembrança como um sistema instável, algo que se reorganiza a cada vez que é convocado pelo corpo. Por isso, cada apresentação tende a se renovar no encontro com o público.
Sob a direção de Murillo Basso, Mariana cria uma cena que se permite abrir frestas. A palavra não aparece separada do movimento, nem a dança como comentário da fala. O que interessa é justamente a zona de contato entre essas linguagens: quando o gesto prolonga uma ideia, quando a voz desloca o corpo, quando uma lembrança surge não como explicação, mas como sensação.
Basso, que já havia trabalhado com Mariana em “Agnes de Deus”, no Teatro Aliança Francesa, conduz o solo a partir de uma escuta voltada à presença da intérprete. Ator, bailarino e diretor, ele transita entre teatro e dança e vem desenvolvendo pesquisas ligadas à improvisação, à composição e aos diferentes graus de representação do corpo em cena.
O título do espetáculo ajuda a entender sua proposta. Uma brecha é uma abertura pequena, mas suficiente para alterar a relação com o espaço. Pode ser passagem, rachadura, intervalo ou possibilidade. No caso de Mariana Muniz, a brecha parece ser justamente o lugar onde passado e presente se encontram sem se fixar.
Corpo, memória e movimento
As perguntas que movem a criação partem da própria artista. Como Mariana se movimenta cenicamente, aos 68 anos, em contato com as ideias de Klauss e Angel Vianna? Como pensar a memória não como monumento, mas como algo dinâmico, em constante recriação? O que é o corpo de uma artista depois de cinco décadas de cena? Onde está sua voz?
Essas questões orientam uma dramaturgia em que movimento e palavra trabalham juntos. A rede de falas não serve apenas para explicar o que se dança. E os gestos não aparecem apenas como ilustração do texto. “Brecha” procura construir uma comunicação cênica em que palavra, movimento e observador se relacionam de forma fluida.
O projeto contou com a participação de Jussara Miller e Neide Neves como provocadoras cênicas. Ambas são pesquisadoras ligadas à Técnica Klauss Vianna e contribuem para aprofundar a relação do espetáculo com essa linhagem de pensamento sobre corpo, escuta e presença.
Essa dimensão é importante porque a obra não se limita a homenagear mestres. Ela pergunta como uma artista continua em diálogo com aquilo que a formou. A influência de Klauss e Angel Vianna não aparece como citação externa, mas como prática incorporada: uma forma de pensar o movimento, a consciência corporal, o espaço e a autonomia do intérprete.
Mariana Muniz nasceu em Pernambuco, iniciou seus estudos em dança clássica e se formou no Rio de Janeiro pela Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal. Em 1974, encontrou Klauss e Angel Vianna, com quem trabalhou. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela investigação entre dança contemporânea e teatro.
Ao longo da carreira, atuou em espetáculos, criou solos, desenvolveu pesquisas sobre a relação entre palavra e movimento e recebeu prêmios e indicações por trabalhos como intérprete e coreógrafa. Em 2021, recebeu menção honrosa da APCA por sua atuação em teatro e teatro-dança.
Essa trajetória atravessa “Brecha”, mas sem transformar o espetáculo em homenagem autobiográfica fechada. O solo parece mais interessado em perguntar o que permanece em movimento depois de tantos anos. O que o corpo guarda? O que ele esquece? O que ele reinventa diante de cada plateia?
Um projeto em três eixos
“Brecha” integra o projeto MarianaMuniz50, contemplado pela 38ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo. A iniciativa é organizada em três eixos: memória, educação e cena.
No eixo de memória, está prevista a publicação de um livro comemorativo dos 50 anos de atuação cênica de Mariana Muniz, em novembro. No eixo de educação, o projeto inclui oficinas e residências artísticas. Já o eixo de cena reúne a circulação do espetáculo “Das Tripas: Sete Histórias” e a criação e estreia de “Brecha”.
Esse desenho amplia o sentido da comemoração. Celebrar uma trajetória, aqui, não significa apenas olhar para trás. Significa também transmitir conhecimento, circular obras, formar artistas e criar novos encontros com o público.
A estreia no Galpão do Folias reforça essa dimensão de presença e pesquisa. Em um espaço historicamente ligado à cena de grupo em São Paulo, Mariana apresenta um trabalho que não separa vida e linguagem, nem memória e invenção.
Em “Brecha”, o corpo da artista não é tratado como documento fixo de uma carreira. É um campo de forças. Um lugar onde passado, presente e futuro se atravessam. A celebração dos 50 anos de trajetória, portanto, não aparece como ponto final. Aparece como abertura.
Uma brecha.
Sinopse
“Brecha” é uma criação cênica que transita entre teatro e dança para revisitar os 50 anos de trajetória artística de Mariana Muniz. Em cena, corpo, memória e movimento entrelaçam experiências de formação, pesquisa somática e criação, compondo um percurso sensível sobre uma vida dedicada às artes da cena.
Serviço
Brecha, com Mariana Muniz
Intérprete-criadora: Mariana Muniz
Direção: Murillo Basso
Temporada: de 3 a 13 de setembro de 2026
Sessões: quinta a domingo, às 19h30
Sessão extra: 7 de setembro, segunda-feira, às 19h30
Local: Galpão do Folias
Endereço: Rua Ana Cintra, 213 — Campos Elíseos, São Paulo — SP
Ingressos: R$ 40 inteira | R$ 20 meia-entrada
Vendas: online pela plataforma Sympla e presencialmente na bilheteria do teatro, aberta 1 hora antes do início da sessão
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ficha técnica
Intérprete-criadora: Mariana Muniz
Direção: Murillo Basso
Assistente geral e fotos: Cláudio Gimenez
Assistente de direção: Marcella Vicentini
Provocação: Jussara Miller e Neide Neves
Espaço cênico: Julio Dojcsar
Dramaturgia sonora: Viviane Barbosa
Criação de figurino: Vive Almeida
Iluminação: Hernandes de Oliveira
Direção de produção: Rafael Petri
Produção geral: Movicena Associação Cultural
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Realização: Cia Mariana Muniz de Dança e Teatro, Cooperativa Paulista de Dança e Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa
Agradecimentos: Galpão do Folias, Espaço GHUT, Espaço Cultural Vila Ouro Preto, Maria Lúcia Lee e Giu de Castro
Projeto contemplado pela 38ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo — Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.



