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Keira Knightley volta ao West End em peça onde a plateia vê ao mesmo tempo quem espiona e quem é espionado

Primeira adaptação teatral de "A Vida dos Outros", assinada por Robert Icke, começa prévias nesta quarta, 14 de outubro, no Adelphi Theatre.

Keira Knightley volta ao West End em peça onde a plateia vê ao mesmo tempo quem espiona e quem é espionado
Foto: Manuel Harlan/Divulgação.

A atriz voltou aos palcos londrinos depois de 15 anos e contou ao Guardian que a preparação trouxe de volta lembranças do período em que teve o próprio telefone interceptado.

A montagem usa um palco giratório que mantém a ação em movimento constante. O recurso permite que o público veja Christa-Maria e Georg dentro do apartamento ao mesmo tempo em que acompanha Wiesler, o agente da Stasi, ouvindo o que acontece lá dentro. No cinema, a montagem decide quando o espectador abandona o casal para seguir o agente. No teatro, os dois lados existem diante da plateia simultaneamente.

“The Lives of Others” começa prévias nesta quarta-feira, 14 de outubro, no Adelphi Theatre, no West End. É a primeira adaptação teatral do filme de Florian Henckel von Donnersmarck, lançado em 2006 e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro no ano seguinte. A abertura oficial acontece em 29 de outubro, e a temporada segue até 9 de janeiro de 2027.

Keira Knightley interpreta Christa-Maria Sieland, atriz que vive com o dramaturgo Georg Dreyman, papel de Luke Thompson, na Alemanha Oriental de 1984. Stephen Dillane completa o trio central como Gerd Wiesler, o agente encarregado de vigiar o casal.

“Eu sabia que estava sendo seguida”

Na véspera das primeiras apresentações, a atriz contou ao Guardian que a preparação para a peça despertou lembranças do período em que a própria privacidade foi invadida pela imprensa britânica. Em 2006, o mesmo ano em que o filme chegou aos cinemas, ela esteve entre as figuras públicas identificadas como vítimas de interceptação de mensagens telefônicas no escândalo dos tabloides.

“Eu sabia que estava sendo seguida”, afirmou.

Knightley faz questão de não equiparar as duas situações. A diferença, segundo ela, está nas evidências. Ela via fotografias e reportagens, e sabia que fotógrafos acompanhavam seus movimentos. Os personagens da peça vivem outra condição: não sabem necessariamente quando estão sendo monitorados, nem se determinada suspeita é real. É essa incerteza que ela aproxima da paranoia central da obra.

Quando a possibilidade de vigilância já basta

A trama acompanha Wiesler enquanto ele monitora o apartamento do casal em busca de sinais de oposição ao regime, até que a operação começa a transformar o próprio agente.

Durante os ensaios, Knightley e Thompson discutiram o efeito que se produz antes mesmo de alguém ter certeza de que está sendo observado. A simples possibilidade de vigilância pode modificar comportamentos, gerar autocensura e fazer uma pessoa controlar o que diz, escreve ou faz sem necessidade de qualquer intervenção direta.

Essa discussão aproxima a história de um público habituado a câmeras, celulares e rastreamento digital, sem transformar essas formas atuais de monitoramento em equivalentes da estrutura repressiva da Stasi.

A plateia também vira observadora

A escolha de encenação tem uma consequência. Enquanto Wiesler espiona os personagens, centenas de pessoas fazem exatamente o mesmo a poucos metros de distância.

Para Luke Thompson, essa condição oferece ao teatro uma possibilidade particular numa história sobre vigilância, porque não existe apenas alguém observando dentro da narrativa, e sim uma plateia inteira fazendo isso.

Robert Icke já explorou câmeras, monitoramento e exposição em montagens como “1984” e “Hamlet”. Aqui, a vigilância não é recurso de encenação, mas o próprio assunto. A produção tem música original de Max Richter e cenografia e figurinos de Hildegard Bechtler.

Quinze anos sem o West End

A última apresentação de Knightley nos palcos londrinos havia sido em “The Children's Hour”, em 2011, ao lado de Elisabeth Moss. Em 2015, estreou na Broadway com “Thérèse Raquin”. Desde então, passou 11 anos longe do teatro e 15 sem atuar no West End.

Para voltar, escolheu uma personagem cuja relação com a exposição é complicada. Christa-Maria é atriz. Diante de uma plateia, escolhe ser observada. Dentro de casa, não. É essa fronteira que a vigilância da Stasi destrói.

Serviço

The Lives of Others Adelphi Theatre, Londres Prévias a partir de 14 de outubro de 2026.
Abertura oficial em 29 de outubro Temporada até 9 de janeiro de 2027
Adaptação e direção: Robert Icke, a partir do filme de Florian Henckel von Donnersmarck
Com Keira Knightley, Luke Thompson e Stephen Dillane
Música original: Max Richter.
Cenografia e figurinos: Hildegard Bechtler

Fontes

Entrevista de Keira Knightley ao jornal The Guardian e informações divulgadas pela produção.

TeatroIsabel Branquinha
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