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Festival de Avignon encerra edição de 2026 com 1,5 milhão de ingressos e ovação a Wagner Moura

Festival de Avignon encerra edição de 2026 com 1,5 milhão de ingressos e ovação a Wagner Moura
Foto: Christophe Raynaud de Lage/Festival d'Avignon/Divulgação

Um dos maiores encontros de teatro do mundo fecha as cortinas neste sábado (25) com casas cheias e um capítulo especial para o público brasileiro. O Festival de Avignon, no sul da França, encerra a edição de 2026 com balanços positivos tanto na mostra oficial, o chamado "In", quanto no gigantesco festival paralelo Off, que somados apontam cerca de 1,5 milhão de ingressos vendidos, segundo números divulgados nesta semana pela imprensa francesa. E o nome mais comentado entre os artistas convidados fala português: Wagner Moura foi ovacionado de pé na sua volta ao teatro.

O diretor do festival, o português Tiago Rodrigues, apresentou o balanço na terça-feira (21), quatro dias antes do encerramento, em números repercutidos pela agência France-Presse e pelo site franceinfo, da televisão pública francesa.

"Hoje, terça-feira 21 de julho, vendemos 119 mil lugares, de 136 mil colocados à venda. É um número levemente maior que a quantidade de ingressos vendidos no mesmo dia do ano passado", disse Rodrigues à France-Presse.

A ovação a Wagner Moura

Para o leitor brasileiro, o destaque da edição veio do Gymnase do liceu Aubanel, um dos palcos da mostra oficial. Ali, Wagner Moura estreou em 11 de julho Un Procès (Après l'Ennemi du Peuple), criação da diretora brasileira Christiane Jatahy que imagina uma continuação para Um Inimigo do Povo, escrita por Henrik Ibsen em 1882. A crítica do franceinfo classificou a recepção como um triunfo: no aplausômetro, Moura, Julia Bernat e Danilo Grangheia tiveram direito a uma longa ovação de pé.

Na trama, o médico Thomas Stockmann, "brasileiro apesar do nome norueguês", como escreveu o franceinfo, descobre que as águas termais de sua cidade estão contaminadas e vira alvo de uma campanha de difamação ao tentar alertar a população. A montagem transforma o palco em uma espécie de tribunal social: espectadores sorteados na plateia formam o júri que decide, a cada noite, se Stockmann é mesmo um inimigo do povo. Ecologia, chantagem de emprego, notícias falsas e a solidão de quem denuncia irregularidades atravessam o espetáculo, que mistura vídeos gravados e câmeras ao vivo.

O papel marca a volta de Moura aos palcos: segundo o franceinfo, o projeto nasceu do desejo do próprio ator de reencontrar o teatro, em colaboração de longa data com a amiga Jatahy. O ator vem de uma sequência rara: prêmio de interpretação no Festival de Cannes de 2025 e Globo de Ouro em 2026 por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Depois de Avignon, a montagem segue em turnê internacional, com passagem já anunciada pelo Festival de Edimburgo, na Escócia, em agosto.

Coreia do Sul no centro do palco

A edição de 2026 teve a língua coreana como convidada de honra, com 20% da programação reservada às artes cênicas do país: teatro popular, teatro documental, performances visuais, dança, circo e pansori, a arte coreana do relato cantado. A escolha seguiu a lógica adotada por Tiago Rodrigues desde 2023, quando o festival passou a homenagear um idioma por ano: inglês naquela edição, espanhol em 2024 e árabe em 2025.

Foram 47 espetáculos na mostra oficial, com abertura de Maldoror, de Julien Gosselin, na Cour d'Honneur do Palais des Papes, o pátio do palácio medieval que é o palco mais simbólico do festival. Segundo a rádio pública ICI Vaucluse, do grupo Radio France, 64% das obras foram criações pensadas para Avignon e 40% eram estreias mundiais; quase sete em cada dez artistas do programa pisavam no festival pela primeira vez. O público novato também cresceu: o dispositivo "primeira vez", voltado a espectadores estreantes, dobrou em quatro anos, de 5 mil para 10 mil pessoas.

A taxa de ocupação das salas ficou em 85%, contra 96% no ano anterior, uma queda que a direção atribui ao aumento da oferta: havia 13 mil lugares a mais à venda em 2026. Nem o calor extremo que castigou o sul da França afastou os espectadores, que passaram a comprar cada vez mais em cima da hora.

"É uma questão democrática: o festival criado por Jean Vilar se fez sobre as férias remuneradas, para que todo mundo pudesse ter tempo de aproveitar essa viagem ao país do teatro", afirmou Rodrigues à ICI Vaucluse, ao defender a permanência do evento em julho.

Off: 1,4 milhão de ingressos e um recorde de espetáculos

Ao lado da mostra oficial, o festival Off, organizado pela associação Avignon Festival & Compagnies, chegou à sua 60ª edição como a maior vitrine mundial das artes cênicas independentes. O balanço parcial divulgado na quinta-feira (23), detalhado pelo jornal econômico regional L'Écho du Mardi e pelo site Presse Agence, impressiona: 1.812 espetáculos, cerca de 27 mil sessões em 141 espaços e quase 1.600 companhias, ante 1.400 no ano passado.

A estimativa é de 1,41 milhão de ingressos vendidos, com ocupação média de 54% das salas e bilheteria total avaliada em 22 milhões de euros. A Carte Off, cartão de descontos do festival, deve fechar a edição com 86 mil unidades vendidas, acima das 80 mil de 2025. O teatro domina a programação, com 55% dos espetáculos, seguido pelo humor, com 20%. O evento credenciou ainda 2.080 profissionais, entre eles 1.580 programadores e cerca de 500 jornalistas.

Os números escondem, porém, uma fragilidade estrutural que o próprio balanço admite: 81% dos espetáculos do Off não recebem nenhuma subvenção pública territorial, ante 78% no ano anterior. A maioria das companhias banca a própria vinda e depende da bilheteria e da venda dos espetáculos para turnês futuras, o que faz do festival um investimento de risco para boa parte delas. Entre as prioridades listadas para os próximos anos estão o custo de hospedagem das equipes e a adaptação do evento às ondas de calor.

2027: 80 anos e segredo absoluto

O próximo capítulo já tem data e mistério. Em 2027, o festival completa 80 anos de sua criação por Jean Vilar, em 1947, e Tiago Rodrigues prometeu à France-Presse "uma programação extraordinária", que será mantida em segredo até abril: nem o espetáculo de abertura nem a língua convidada serão revelados antes disso.

À rádio ICI Vaucluse, o diretor encerrou o balanço com uma garantia: "Estaremos lá, de novo, em Avignon, em julho de 2027".

NotíciaRedação Foyer

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