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Tim Curry morre aos 80 e deixa em Frank-N-Furter um dos personagens mais duradouros da cultura pop

Tim Curry morre aos 80 e deixa em Frank-N-Furter um dos personagens mais duradouros da cultura pop
Foto: Divulgação

Ator britânico criou o protagonista de “The Rocky Horror Show” nos palcos de Londres antes de levá-lo ao cinema; carreira também passou por “Amadeus”, “Spamalot”, “It”, “Clue” e “Esqueceram de Mim 2”

O ator britânico Tim Curry, que transformou o Dr. Frank-N-Furter de The Rocky Horror Show em um dos personagens mais reconhecíveis do teatro musical e do cinema cult, morreu na terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos, em sua casa em Los Angeles. A morte foi confirmada por sua empresária e amiga de longa data, Marcia Hurwitz. A causa não foi divulgada.

Curry construiu uma carreira que atravessou teatro, cinema, televisão, música e dublagem e que lhe permitiu ser, em momentos diferentes, um palhaço assassino, um mordomo cercado por cadáveres, um demônio, um rei arturiano e o concierge do Plaza Hotel empenhado em expulsar Kevin McCallister.

Mas o personagem que o acompanharia por mais de meio século começou muito antes de tudo isso.

Começou em um pequeno teatro de Londres.

E Tim Curry estava de salto alto.

Antes de Frank-N-Furter, veio “Hair”

O primeiro trabalho profissional de Curry foi na montagem londrina de Hair, em 1968. O musical estreou no West End naquele ano, pouco depois do fim da censura teatral britânica, e reuniu no elenco Curry e Richard O’Brien.

Anos depois, O’Brien escreveria um musical que misturava filmes B, ficção científica, glam rock, horror, sexualidade e uma coleção deliberada de excessos. A montagem original de The Rocky Horror Show estreou em junho de 1973, em uma sala de apenas 60 lugares no Royal Court Theatre, em Londres. Curry assumiu o papel do Dr. Frank-N-Furter.

A produção cresceu rapidamente. Mudou de teatro, chegou a Los Angeles e depois à Broadway. Em 1975, Curry levou Frank também para o cinema em The Rocky Horror Picture Show, ao lado de Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O’Brien, Meat Loaf, Patricia Quinn e Nell Campbell.

A trajetória do filme, porém, esteve longe de começar como fenômeno.

Lançado em 1975, Rocky Horror teve uma recepção comercial inicialmente fraca e chegou a ser retirado de cinemas poucas semanas depois. Foi a partir das sessões de meia-noite, particularmente no Waverly Theatre, em Nova York, a partir de 1976, que o público começou a transformar a obra em algo diferente.

As pessoas voltavam.

Depois voltavam fantasiadas.

Passaram a responder aos diálogos, cantar, levar objetos para as sessões e, mais tarde, interpretar os personagens diante da própria tela.

O que poderia ter terminado como um fracasso comercial se tornou um ritual coletivo.

Décadas depois, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos incluiria The Rocky Horror Picture Show no National Film Registry e destacaria justamente sua contribuição para transformar as formas de participação do público durante uma sessão de cinema.

Frank-N-Furter saiu da tela

No centro dessa transformação estava a performance de Curry.

Corset, meias arrastão, maquiagem pesada, salto alto e uma confiança que parecia preceder qualquer discussão sobre aquilo que Frank deveria ou não poderia ser. O personagem brincava abertamente com gênero, desejo e convenções sexuais em uma obra lançada em meados dos anos 1970.

Com o passar do tempo, as sessões de Rocky Horror também se tornaram espaços de encontro e comunidade, especialmente para parte do público queer. O filme continuou atravessando gerações justamente por permitir que seus espectadores deixassem de ocupar uma posição passiva: assistir à obra passou a ser também participar dela.

Curry percebeu cedo, no entanto, que havia um risco nisso.

Em uma entrevista de 1975, quando sua carreira no cinema ainda estava começando, o ator já demonstrava preocupação de que uma figura tão extravagante pudesse se tornar difícil de abandonar.

Durante alguns anos, ele evitou inclusive participar da celebração crescente em torno do filme. Mais tarde, reconciliou-se publicamente com Rocky Horror e passou a encarar a associação com Frank com mais tranquilidade.

Talvez porque, a essa altura, já tivesse provado que um personagem gigantesco não precisava engolir o ator que o criou.

Muito além de Frank

Curry passou as décadas seguintes construindo uma das carreiras de ator de personagem mais reconhecíveis de sua geração.

Nos palcos, recebeu três indicações ao Tony. A primeira veio por sua interpretação de Mozart em Amadeus, na Broadway, em 1980, contracenando com Ian McKellen como Salieri. Depois seria indicado por My Favorite Year e, em 2005, pelo Rei Arthur de Monty Python’s Spamalot.

No cinema, a capacidade de combinar ameaça, exagero e comicidade encontrou terreno particularmente fértil.

Em Clue (1985), adaptação do jogo conhecido no Brasil como Detetive, Curry interpretou o mordomo Wadsworth e conduziu uma comédia construída ao redor de um assassinato e de múltiplos suspeitos. No mesmo ano, praticamente desapareceu sob maquiagem e próteses para interpretar Darkness, o vilão de Legend, de Ridley Scott.

Em 1990, assumiu outro personagem que marcaria o imaginário do terror: Pennywise, na minissérie It, baseada no romance de Stephen King. Dois anos depois, apareceu em um registro completamente diferente como Sr. Hector, o concierge do Plaza Hotel que passa boa parte de Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York tentando descobrir o que Kevin McCallister está fazendo sozinho no hotel.

A filmografia ainda inclui produções como Annie, The Hunt for Red October, The Three Musketeers e Muppet Treasure Island.

E havia a voz.

Curry construiu paralelamente uma extensa carreira como dublador, passando por séries como The Wild Thornberrys, Star Wars: The Clone Wars e The Adventures of Jimmy Neutron. Em 1991, recebeu um Daytime Emmy pelo Capitão Gancho de Peter Pan and the Pirates.

Um AVC mudou sua relação com o palco

Em 2012, Curry sofreu um AVC grave que comprometeu sua mobilidade. A partir daquele período, passou a utilizar cadeira de rodas e reduziu consideravelmente os trabalhos presenciais, embora tenha continuado atuando e realizando trabalhos de voz.

Ele ainda encontraria maneiras de retornar ao universo que o tornou famoso.

Em 2016, participou da versão televisiva de Rocky Horror produzida pela Fox. Dessa vez, não voltou a vestir o corset de Frank-N-Furter: interpretou o Criminologista, funcionando também como uma espécie de ligação entre a produção original e uma nova geração de artistas.

Em 2024, Curry voltou ao cinema no terror Stream. No ano seguinte, publicou Vagabond, livro de memórias em que revisitou a carreira, a relação com seus personagens e também as consequências do AVC.

Frank, enquanto isso, nunca parou.

Mais de 50 anos depois, o Time Warp continua

A dimensão da permanência de Rocky Horror talvez seja particularmente visível justamente no momento da morte de Curry.

Mais de meio século depois da estreia daquele musical em uma sala de 60 lugares em Londres, The Rocky Horror Show está novamente em cartaz na Broadway, no Studio 54, em uma remontagem dirigida por Sam Pinkleton.

A produção recebeu indicação ao Tony de Melhor Revival de Musical, enquanto Luke Evans, que assumiu Frank-N-Furter, concorreu a Melhor Ator em Musical.

Evans fez sua última apresentação no papel em 23 de agosto, dois dias antes da morte de Curry. A montagem continua em cartaz e foi prorrogada até 28 de fevereiro de 2027. Paul Soileau interpreta Frank em datas selecionadas antes da entrada de Jake Shears, vocalista do Scissor Sisters, no papel a partir de 11 de setembro.

Depois da morte de Curry, Evans revelou que havia escrito para o ator três semanas antes.

Na carta, contou que jamais havia tentado reproduzir sua interpretação e agradeceu por uma performance que, mais de 50 anos depois, continuava obrigando qualquer novo Frank-N-Furter a dialogar com aquilo que Curry havia criado.

A imagem talvez resuma melhor sua herança do que qualquer lista de créditos.

Em 1973, Tim Curry entrou em um pequeno palco londrino para interpretar um cientista alienígena de corset, salto e meias arrastão.

Em 2026, um ator indicado ao Tony encerrou sete meses interpretando aquele mesmo personagem e sentiu que precisava escrever ao homem que o criou para agradecer pelo caminho aberto.

Curry passou boa parte da carreira demonstrando que podia ser muito mais do que Frank-N-Furter.

E conseguiu.

Foi Mozart e Pennywise. Wadsworth e Darkness. Rei Arthur e Capitão Gancho. Fez teatro, cinema, televisão, música e dublagem.

Mas talvez exista uma medida ainda mais rara para a permanência de um ator.

Tim Curry criou um personagem em 1973. Mais de meio século depois, o palco ainda está fazendo o Time Warp.

CinemaIsabel Branquinha

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