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Depois de Berlim e Gramado, Grace Passô chega aos cinemas com “Nosso Segredo”

Depois de Berlim e Gramado, Grace Passô chega aos cinemas com “Nosso Segredo”
Foto: Mariaduna/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Primeiro longa dirigido pela atriz e dramaturga estreia em 27 de agosto com uma história sobre luto, silêncio e afeto em uma família negra de Belo Horizonte

Antes de chegar aos cinemas brasileiros, “Nosso Segredo” já atravessou Berlim, Buenos Aires e Gramado.

Agora, Grace Passô começa uma etapa diferente dessa trajetória. Conhecida pelo trabalho como atriz, dramaturga e diretora de teatro, ela lança em 27 de agosto seu primeiro longa-metragem como cineasta, numa produção que coloca uma família negra de Belo Horizonte diante daquilo que talvez seja mais difícil compartilhar: a maneira particular como cada pessoa tenta sobreviver ao luto.

Em “Nosso Segredo”, uma mãe e seus filhos tentam reorganizar a vida depois de uma perda recente. Moram juntos, dividem a mesma casa e carregam a mesma ausência, mas isso não significa que consigam falar sobre ela.
Cada um encontra uma forma própria de evitar a dor.

O filho caçula, porém, percebe alguma coisa que os outros parecem não conseguir enxergar. Dentro daquela casa existe um segredo — e enfrentá-lo pode obrigar a família a olhar novamente para aquilo que vinha tentando silenciar.
É uma história sobre morte.
Mas Grace Passô parece muito mais interessada no que permanece vivo depois dela.

Do teatro para a direção de um longa

Dizer que “Nosso Segredo” marca a estreia de Grace Passô no cinema pode produzir uma impressão errada.
O cinema está presente em sua trajetória há anos.

Como atriz, ela passou por filmes como “Praça Paris”, “Temporada”, “No Coração do Mundo”, “O Dia que Te Conheci” e outras produções, acumulando prêmios em festivais brasileiros e internacionais. Como realizadora, também já havia experimentado outras durações e formatos antes de chegar ao primeiro longa.

Em 2019, codirigiu com Ricardo Alves Jr. o média-metragem “Vaga Carne”, adaptação cinematográfica de seu próprio trabalho teatral, exibida no Forum Expanded da Berlinale. Em 2020, durante a pandemia, dirigiu o curta “República”.

“Nosso Segredo”, portanto, não inaugura uma relação com a linguagem cinematográfica.

Ele muda a escala dessa relação.

A ideia começou a ser desenvolvida anos atrás e passou, em 2020, pelo BrLab Features, onde recebeu prêmios de desenvolvimento ligados à Vitrine Filmes, Globo Filmes e Incubadora Paradiso. O projeto também foi selecionado para iniciativas internacionais como PopUp Residency e Cinéma en Développement, em Toulouse.

Seis anos depois, chegou a Berlim.
Um primeiro longa já apresentado em Berlim, Buenos Aires e Gramado
A estreia mundial aconteceu em fevereiro de 2026 na Perspectives, mostra competitiva da Berlinale voltada justamente a primeiros longas de cineastas.

Para Grace, havia um significado particular em voltar ao festival agora como diretora de um longa. Em entrevistas durante a passagem pela Alemanha, a artista tratou o filme como uma reescrita de “Amores Surdos”, uma de suas primeiras peças, publicada em 2012 pela Cobogó. A casa, a família e aquilo que permanece sem ser dito já estavam ali.

A diferença é que, no cinema, essas questões encontram outro corpo. A câmera pode entrar nos cômodos, aproximar-se dos rostos, criar sonhos, produzir silêncios e encontrar imagens para aquilo que os personagens não conseguem explicar.

Depois de Berlim, o longa seguiu para outros circuitos internacionais, incluindo o BAFICI, em Buenos Aires. Em agosto, chegou finalmente ao Brasil dentro da competição de longas do 54º Festival de Cinema de Gramado, onde foi exibido na noite de 20 de agosto, com reprise na manhã desta sexta-feira, 21.

É um caminho que antecede em poucos dias aquilo que costuma ser a etapa mais difícil para boa parte do cinema brasileiro de autor: encontrar o público fora dos festivais.

A distribuição nacional é da Vitrine Filmes, com estreia comercial marcada para 27 de agosto.
Uma casa onde o luto não cabe
A casa ocupa um espaço central em “Nosso Segredo”.
Não funciona apenas como cenário para aquela família.

Ela guarda aquilo que os personagens não conseguem nomear. É espaço de convivência, refúgio, memória, cansaço, repetição e assombro. Grace constrói uma narrativa em que os cômodos parecem carregar a ausência deixada pela perda recente. O que não é falado se acumula nas paredes, nos gestos, nos objetos e nos silêncios.

Essa escolha ajuda a afastar o filme de um drama familiar construído somente por diálogos realistas.

A narrativa circula entre memória, sonhos, silêncio e elementos fantásticos, permitindo que aquilo que não consegue ser verbalizado apareça de outras formas. O luto não surge apenas como tema. Ele altera a percepção dos personagens, muda a temperatura da casa e reorganiza a relação entre todos.

Existe uma ideia aparentemente contraditória no centro do longa: cada pessoa precisa encontrar uma maneira própria de lidar com a dor, mas nenhuma reconstrução será possível enquanto todos continuarem tentando atravessá-la sozinhos.

O segredo do título, portanto, importa.

Mas talvez importe ainda mais aquilo que ele obriga aquela família a finalmente dividir.
Uma família negra sem reduzir sua existência ao trauma
Há também uma escolha de perspectiva importante.
“Nosso Segredo” acompanha especificamente uma família negra brasileira, mas não reduz esses personagens a uma narrativa construída apenas em torno da violência racial.

O luto, a memória, as rotinas domésticas, o afeto, as discussões, o trabalho, a infância, o silêncio e os mecanismos particulares de sobrevivência ocupam o centro do filme.

Isso não significa apagar as estruturas de exclusão que atravessam aquelas vidas. Significa permitir que esses personagens existam para além de uma função representativa. A família não está ali apenas para ilustrar um problema social. Ela vive, sofre, se contradiz, se protege, se irrita, se perde e tenta se reencontrar.

Esse ponto é essencial no cinema de Grace Passô.

Como dramaturga e atriz, ela sempre esteve interessada nas zonas em que linguagem, corpo, identidade e presença se embaralham. Em “Nosso Segredo”, essa investigação ganha forma doméstica e familiar. O filme pergunta como pessoas muito próximas podem habitar a mesma casa e, ainda assim, permanecer distantes diante de uma dor comum.
O silêncio, nesse caso, não é vazio.
É sintoma. É defesa. É herança. É aquilo que impede a conversa, mas também aquilo que revela o tamanho da ausência.

Uma equipe que aproxima diferentes nomes do cinema brasileiro

A construção do longa reúne profissionais de trajetórias distintas dentro do cinema brasileiro contemporâneo.

A fotografia é de Wilssa Esser, enquanto a montagem é assinada por Gabriel Martins e Eva Randolph. Martins, diretor de “Marte Um”, integra uma geração de realizadores mineiros que ajudou a ampliar a presença do cinema produzido em Belo Horizonte no circuito internacional. A direção de arte é de Lucas Osório.

A trilha sonora original é de Amaro Freitas, pianista pernambucano cuja música circula entre jazz, experimentação, matrizes afro-brasileiras e investigações sobre memória e ancestralidade. Em um filme atravessado por silêncio e sentimentos não verbalizados, a música ganha a função de ampliar o que não cabe em fala.

No elenco estão Robert Frank, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Ju Colombo e Marisa Revert, além de Gláucia Vandeveld, Juan Queiroz, Mateus Aleluia, Nanego Lira e Tássia Reis.

A produção é de Ricardo Alves Jr., pela EntreFilmes, em coprodução com Desvia Filmes, Quarta-feira Filmes, Foi Bonita a Festa, Globo Filmes e Grãos da Imagem.

Grace Passô muda de posição sem abandonar suas perguntas

Talvez seja tentador apresentar “Nosso Segredo” como uma grande mudança de direção na carreira de Grace Passô.
Até certo ponto, é.

Assumir um longa coloca a artista diante de outra estrutura de produção, outras responsabilidades e uma relação diferente entre criação, câmera, montagem e público.

Mas os assuntos parecem muito menos novos.

Família, linguagem, aquilo que conseguimos ou não conseguimos dizer, identidade, corpo e as maneiras pelas quais uma pessoa tenta existir diante da outra atravessam há anos seu trabalho como dramaturga, diretora e atriz.

Há uma ligação direta com o teatro. “Nosso Segredo” nasce de uma reelaboração de “Amores Surdos”, peça escrita por Grace e montada originalmente pelo Grupo Espanca!, companhia que ela ajudou a fundar em Belo Horizonte.

A casa, a família e aquilo que permanece sem ser dito já estavam ali.

O cinema permite olhar novamente para essas questões — agora com outra relação com o tempo, o espaço e o rosto. Uma câmera pode insistir no silêncio de alguém. Pode acompanhar uma criança que vê o que os adultos evitam. Pode transformar uma casa em organismo vivo.

Talvez por isso seja mais preciso tratar “Nosso Segredo” não como o momento em que Grace Passô “vira cineasta”.

Ela já vinha construindo essa passagem.
O que acontece agora é que, pela primeira vez, podemos acompanhá-la durante um longa-metragem.
Depois de Berlim, Buenos Aires e Gramado, a próxima parada é menos glamourosa, e provavelmente mais decisiva.
A sala de cinema.

Sinopse

Em “Nosso Segredo”, uma família negra de Belo Horizonte tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada pessoa foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de obrigar todos a encarar as raízes de suas dores e, juntos, encontrar um novo caminho.

Serviço

Nosso Segredo
Direção e roteiro: Grace Passô
Países: Brasil e Portugal
Ano: 2026
Estreia nos cinemas brasileiros: 27 de agosto de 2026
Distribuição: Vitrine Filmes
Gênero: drama
Duração: 108 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

Elenco: Robert Frank, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Ju Colombo, Marisa Revert, Gláucia Vandeveld, Juan Queiroz, Mateus Aleluia, Nanego Lira e Tássia Reis.

Ficha técnica

Direção e roteiro: Grace Passô
Produção: Ricardo Alves Jr.
Produção executiva: Julia Alves
Produtora: EntreFilmes
Coprodução: Globo Filmes, Desvia Filmes, Quarta-feira Filmes, Foi Bonita a Festa e Grãos da Imagem
Fotografia: Wilssa Esser
Direção de arte: Lucas Osório
Montagem: Gabriel Martins e Eva Randolph
Som: Gustavo Fioravante
Trilha sonora original: Amaro Freitas
Design de som e mixagem: Tiago Bello
Distribuição: Vitrine Filmes

CinemaIsabel Branquinha

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