A casa da National Negro Opera Company recebe US$ 1,75 milhão para escapar da ruína
Numa rua residencial de Homewood, bairro de Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, está de pé um casarão de estilo Queen Anne erguido por volta de 1894. Ficou vazio por décadas, chegou aos anos 2020 em ruína avançada e é a única construção ainda existente diretamente ligada à National Negro Opera Company. O endereço é 7101 Apple Street. Em 30 de junho de 2026, a organização sem fins lucrativos que cuida do imóvel anunciou uma doação de US$ 1,75 milhão da Mellon Foundation para retomar o restauro, parado por falta de dinheiro.
Quem divulgou o repasse foi Jonnet Solomon, diretora executiva da National Opera House, a entidade criada para salvar a casa. A rádio pública 90.5 WESA, de Pittsburgh, noticiou o anúncio no dia seguinte. Na mesma data, o site especializado OperaWire informou que a verba cobre dois anos de trabalho. A meta imediata é concluir até o fim de 2026 o restauro definitivo da parte externa, telhado e alpendre incluídos.
"Ninguém acredita em mim, e me disseram isso na cara", declarou Jonnet Solomon à 90.5 WESA logo depois de anunciar a doação. "Talvez agora mudem de ideia."
Quem foi Mary Cardwell Dawson?
Cantora lírica de formação, Mary Cardwell Dawson foi barrada pelo racismo do meio operístico e não chegou aos grandes palcos como intérprete. Manteve uma escola de música movimentada e dava aulas dentro daquela casa. Em 1941 alugou o terceiro andar do prédio para instalar a sede da recém-criada National Negro Opera Company, que passou a excursionar por grandes cidades americanas com montagens de Aida e La traviata.
O National Trust for Historic Preservation, que documentou a história do imóvel, registra que a companhia não foi a primeira do gênero no país, mas se tornou uma das maiores, mais conhecidas e mais longevas. A própria National Opera House, no site institucional, descreve o grupo como a primeira companhia de ópera afro-americana dos Estados Unidos.
Ainda segundo o National Trust, em 1956 Dawson convenceu o Metropolitan Opera House a ceder um horário para que sua companhia apresentasse Ouanga, ópera do compositor negro americano Clarence Cameron White, e o grupo se tornou o primeiro de fora a ocupar aquele palco. Dawson morreu em 1962. A companhia fechou em seguida.
A casa que virou ponto de encontro
O imóvel foi construído por volta de 1894 para o casal George e Lizzie Shafer e mudou de mãos duas vezes antes de ser comprado por William A. "Woogie" Harris, um dos empresários negros que adquiriram propriedades em Homewood nos anos 1920 e 1930. Harris funcionava na prática como um banco, emprestando a quem as instituições oficiais recusavam por causa da cor.
"Ele sabia que aquilo seria uma residência para pessoas que não podiam se hospedar em nenhum outro lugar", contou Jonnet Solomon em entrevista publicada pelo National Trust for Historic Preservation. "Era uma comunidade. Ele queria que as pessoas tivessem um espaço seguro para simplesmente ser quem são."
Pela casa passaram Lena Horne, Count Basie, Cab Calloway e Duke Ellington, além de atletas como o boxeador Joe Louis e o jogador de beisebol Roberto Clemente, conforme o mesmo levantamento. A 90.5 WESA acrescenta que o prédio teve uma segunda vida com o nome de Mystery Manor, pensão para atletas e artistas negros e salão de festas. Pelo relato recolhido pelo National Trust, foi naquela casa que Dawson formou o pianista Ahmad Jamal.
Vinte e seis anos para levantar um telhado
Contadora de profissão e voluntária no projeto, Solomon passou de carro por Apple Street há mais de duas décadas, parou e leu a placa histórica na calçada. Ao procurar informação sobre a companhia na própria cidade, encontrou desconhecimento. Comprou o casarão em 2000, de um banco, em parceria com outra pessoa.
Em 2020, o National Trust incluiu o endereço na lista dos 11 lugares históricos mais ameaçados dos Estados Unidos. Vieram doações: uma da Richard King Mellon Foundation em abril de 2021, US$ 75 mil do African American Cultural Heritage Action Fund do próprio National Trust em julho de 2021 e US$ 500 mil da Andrew W. Mellon Foundation em janeiro de 2022. As obras começaram em maio de 2022. Em 2024, Solomon anunciou que a estrutura estava estabilizada, mas os reparos no telhado eram provisórios e a captação voltou a travar.
O que falta até 2028
Pelos números que a National Opera House publica no próprio site, o projeto tem meta de US$ 10 milhões e US$ 4,7 milhões já arrecadados, 47% do total, com abertura prevista para 2028. O plano está dividido em três etapas: estabilizar a estrutura, restaurar os elementos arquitetônicos originais e reabrir a casa como espaço cultural, com programação de arte, educação e atividades comunitárias. Na entrevista ao National Trust, Solomon disse querer montar dentro do casarão um museu com visitação autoguiada.
"Esta doação é uma afirmação poderosa de que este lugar importa, não só para Pittsburgh, mas para a história americana", disse Jonnet Solomon em comunicado da instituição reproduzido pelo site OperaWire. "Mary Cardwell Dawson construiu uma plataforma nacional para cantores líricos negros numa época em que o país tentava excluí-los. Reconstruir esta casa é proteger esse legado e devolvê-lo à vida pública."
O custo de manter prédios históricos ligados à música e ao teatro também é assunto brasileiro. O FOYER já contou a história do Theatro da Paz, em Belém, e acompanha a programação de ópera nos teatros públicos do país. O Navio Fantasma esteve em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo, e o Theatro São Pedro apresentou Fidelio.
Em Pittsburgh, a soma que falta é maior que a já levantada, e a casa segue de pé com reparos temporários. A National Opera House informou que fará novos anúncios sobre o projeto, sem detalhar quais.



