Após temporada esgotada, “A Última Valsa de Zelda Fitzgerald” retorna a São Paulo em setembro
Solo protagonizado por Larissa da Matta terá oito novas apresentações no ºAndar e revisita a escritora e artista para além da imagem de musa de F. Scott Fitzgerald
Depois de esgotar as seis apresentações de sua temporada de estreia, em abril, “A Última Valsa de Zelda Fitzgerald” retorna aos palcos de São Paulo em setembro. Protagonizado por Larissa da Matta, o solo terá oito novas sessões, de 3 a 25 de setembro, às quintas e sextas-feiras, às 20h, no ºAndar, em Santa Cecília.
Com concepção e atuação de Larissa e direção de Pedro Amaral, que divide a dramaturgia com a atriz, o espetáculo parte de uma figura que durante décadas permaneceu mais conhecida pelo sobrenome que compartilhava com o marido do que por aquilo que produziu.
Zelda Fitzgerald (1900–1948) atravessou os anos 1920 como um dos rostos mais reconhecíveis da chamada Era do Jazz. Casada com F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby, tornou-se personagem recorrente da imprensa, da obra do escritor e do imaginário construído em torno do casal. Mas também escreveu ficção e artigos, pintou e dedicou anos à dança — uma produção artística que permaneceu, durante muito tempo, à sombra da celebridade do marido.
É justamente essa hierarquia que “A Última Valsa” procura inverter.
Em vez de usar Zelda como personagem secundária da biografia de Scott Fitzgerald, a montagem acompanha sua trajetória a partir dela própria: da juventude no sul dos Estados Unidos à vida social dos anos 1920, passando por Nova York, Paris e pela Riviera Francesa, pelas tensões do casamento, pelas tentativas de construir uma carreira artística e pelas sucessivas internações psiquiátricas.
Entre festas, cartas, memórias, dança e delírios, a peça busca uma Zelda que não cabe apenas na figura trágica que sobreviveu no imaginário popular. Humor, ironia, ambição artística e contradições também entram em cena.
Quem escreveu essa história?
Uma das questões que atravessam a dramaturgia é a própria autoria.
A relação criativa entre Zelda e Scott Fitzgerald continua sendo objeto de discussão entre pesquisadores. Há registros de frases e materiais escritos por ela que aparecem em textos do marido, além de contos e artigos de Zelda que chegaram a ser publicados com o nome de Scott acrescentado à assinatura — em alguns casos, segundo a F. Scott Fitzgerald Society, por decisão editorial, já que o nome do escritor aumentava o valor pago pelas revistas.
O episódio ajuda a tornar menos simples a imagem de Zelda apenas como inspiração para a obra de Scott. Ao mesmo tempo, pesquisadores alertam para o risco de transformar essa relação em uma narrativa igualmente simplificada no sentido contrário: há evidências de apropriações, intercâmbios e disputas entre os dois, mas a extensão dessa colaboração é tema de debate acadêmico.
O espetáculo entra justamente nesse terreno.
A dramaturgia combina cenas escritas por Larissa da Matta e Pedro Amaral com cartas e outros registros deixados por Zelda. Em vez de tentar estabelecer uma biografia definitiva, a montagem utiliza esses materiais para perguntar quem pôde escrever a história que chegou até nós — e qual espaço a própria Zelda teve na construção dessa memória.
Sua produção literária é uma parte central dessa recuperação. Em 1932, durante um período de tratamento psiquiátrico, Zelda escreveu seu único romance publicado, “Save Me the Waltz”, lançado no Brasil como “Esta Valsa é Minha”. O livro, de caráter autobiográfico, acompanha Alabama Beggs, uma mulher que tenta construir para si uma identidade artística em meio ao casamento e à vida social do casal. Zelda começou a escrevê-lo em Montgomery e concluiu o manuscrito durante sua passagem pela Phipps Clinic, no Johns Hopkins Hospital.
O próprio romance se tornaria motivo de conflito entre o casal. Scott argumentava que Zelda havia utilizado experiências compartilhadas que ele pretendia incorporar a Tender Is the Night. Ela revisou o livro antes da publicação, embora estudos posteriores dos documentos disponíveis indiquem que a ideia de que Scott teria reescrito extensivamente o romance não encontra sustentação nos manuscritos sobreviventes.
Uma pesquisa que começou aos 15 anos
Para Larissa da Matta, a aproximação com Zelda começou muito antes de o espetáculo existir.
Aos 15 anos, depois de assistir a “Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, a atriz se interessou pela breve aparição de Zelda no filme e pela maneira como aquela mulher era apresentada. A curiosidade levou primeiro à leitura de O Grande Gatsby e, depois, à descoberta de Esta Valsa é Minha.
Foi especialmente a escrita fragmentada e imagética de Zelda que permaneceu como referência para a atriz.
Anos mais tarde, a personagem passou a integrar uma pesquisa artística mais ampla desenvolvida por Larissa sobre corpo, memória e mulheres na história das artes. Ao longo do processo, ela investigou corporalmente a trajetória e a produção de mais de 40 artistas de diferentes períodos, observando também os mecanismos que fizeram com que algumas delas fossem lembradas prioritariamente por suas relações com homens mais célebres.
Uma primeira versão do monólogo surgiu desse percurso. Em 2026, o projeto ganhou nova dramaturgia e concepção cênica com a entrada de Pedro Amaral na direção, chegando à versão que estreou em abril.
O corpo também conta a história
No palco, a pesquisa não se limita ao texto.
A dança e a movimentação corporal acompanham as diferentes fases de Zelda e funcionam como parte da narrativa. A preparação corporal e as coreografias são assinadas por Ana Beatriz Trucharte, enquanto Marcelo Leão responde pelo figurino.
A cenografia de Pedro Amaral trabalha com poucos elementos que mudam de função ao longo do espetáculo. Um biombo de referências art déco, uma poltrona, malas e uma estrutura móvel ajudam a deslocar a personagem entre festas, quartos, viagens e espaços de internação sem interromper o fluxo do solo.
Essa transformação constante também conversa com a estrutura da dramaturgia: a Zelda que aparece em cena não é observada de um único ponto no tempo. Memória, presente e delírio se atravessam enquanto Larissa sustenta sozinha os 75 minutos de espetáculo.
A primeira temporada aconteceu entre 9 e 24 de abril, também no ºAndar. As seis sessões tiveram ingressos esgotados e, segundo dados da produção, reuniram 360 espectadores, com ocupação total da sala. A procura levou à abertura das oito novas apresentações de setembro.
Mais do que corrigir retrospectivamente a biografia de uma mulher que morreu há quase oito décadas, “A Última Valsa de Zelda Fitzgerald” encontra sua questão no presente: quem consegue ser reconhecido como autor da própria obra — e quem acaba transformado em personagem na história de outra pessoa?
Para Zelda Fitzgerald, essa disputa não terminou nos anos 1920.
SERVIÇO
A Última Valsa de Zelda Fitzgerald
Segunda temporada: 3, 4, 10, 11, 17, 18, 24 e 25 de setembro de 2026
Dias e horários: quintas e sextas-feiras, às 20h
Local: ºAndar
Endereço: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 88 – Santa Cecília, São Paulo
Acesso: aproximadamente seis minutos da estação Marechal Deodoro do metrô
Duração: 75 minutos, sem intervalo
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada), mais taxas na venda online
Venda: Sympla ou bilheteria do espaço
Estacionamento conveniado: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 131 – R$ 20
FICHA TÉCNICA
Concepção e atuação: Larissa da Matta
Direção geral, trilha sonora e cenografia: Pedro Amaral
Dramaturgia: Larissa da Matta e Pedro Amaral
Figurino: Marcelo Leão
Costureira: Zulmira Mendes
Coreografias e preparação corporal: Ana Beatriz Trucharte
Produção e mídias sociais: Foyer Digital
Fotografias de palco e estúdio: João Caldas / Joaquim Araújo
Realização: Foyer



