Anne Carson vence Nobel de Literatura com obra entre poesia, mito e teatro
Canadense premiada reinventou Antígona, aproximou Marilyn Monroe de Helena de Troia e transformou um monstro grego em protagonista de uma história de amor
Um monstro vermelho se apaixona por Héracles. Helena de Troia encontra Marilyn Monroe. Antígona ganha a companhia de uma figura silenciosa que passa o tempo medindo as coisas. A canadense Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura de 2026, fez da releitura dos clássicos uma forma de escrever sobre desejo, luto e poder.
O prêmio foi anunciado na quinta-feira, 8 de outubro. A Academia Sueca destacou a invenção de novas formas literárias a partir do diálogo da escritora com a tradição clássica. Aos 76 anos, Carson reúne poesia, ensaio, tradução e dramaturgia em uma trajetória que também passou pelos palcos, em trabalhos com Juliette Binoche, Ben Whishaw e Renée Fleming.
Nascida em Toronto, em 1950, ela estudou letras clássicas na universidade da cidade, onde concluiu o doutorado em 1981. O grego antigo acompanhou tanto sua carreira como professora quanto os livros. Em Eros, o doce-amargo, de 1986, a investigação do desejo parte de Safo e combina análise literária, filosofia e poesia.
Antígona e Marilyn no palco
A relação com o teatro envolve diferentes maneiras de trabalhar um texto. Carson traduziu Antígona, de Sófocles, para a montagem dirigida por Ivo van Hove e protagonizada por Juliette Binoche em 2015. A produção passou pelo Barbican, em Londres, com a história da jovem que desafia o poder político para sepultar o irmão.
Antes, em 2012, havia publicado Antigonick, outra incursão pela mesma tragédia. Ali, a tradução abre espaço para comentários, mudanças de registro e um personagem acrescentado por Carson. Nick não fala: permanece em cena medindo o que encontra. A disputa entre Antígona e Creonte continua no centro da peça, cercada por intervenções que aproximam o texto de outras épocas e linguagens.
Em Norma Jeane Baker of Troy, o encontro com a cultura pop é explícito. A obra aproxima Helena de Troia de Marilyn Monroe, cujo nome de nascimento aparece no título. Ben Whishaw e a soprano Renée Fleming apresentaram o trabalho, parcialmente falado e parcialmente cantado, no The Shed, em Nova York, em 2019, sob direção de Katie Mitchell.
O espetáculo examina a fabricação dessas imagens femininas e quem tem o poder de narrar suas histórias. A aproximação coloca lado a lado a beleza associada a uma guerra na mitologia e a celebridade produzida por Hollywood. O texto de Carson foi escrito para circular entre a palavra dita, o canto e a presença dos intérpretes.
O amor de um monstro
Na ficção, Autobiografia do vermelho, publicado originalmente em 1998, oferece outro exemplo desse trabalho sobre os mitos. Gerião, morto por Héracles em um dos trabalhos do herói, torna-se um jovem sensível que se apaixona por ele. Carson parte de fragmentos do poeta grego Estesícoro para construir uma história de amadurecimento e desejo.
O livro se apresenta como um romance em versos, mas também incorpora ensaio e crítica. No Brasil, saiu pela Editora 34, em 2021, com tradução de Ismar Tirelli Neto.
Em Nox, a experiência com a forma chega ao próprio objeto. Feito em memória do irmão morto, o trabalho reúne cartas, fotografias e fragmentos de texto em uma longa sequência de páginas dobradas, guardada em uma caixa. A tradução de um poema de Catulo, também dedicado à morte de um irmão, participa desse arquivo de luto.
Para o leitor brasileiro, o catálogo já permite percorrer essas diferentes frentes. Além de Autobiografia do vermelho, estão disponíveis Eros, o doce-amargo e Antigonick, ambos pela Bazar do Tempo, com tradução de Julia Raiz. A edição brasileira de Antigonick foi lanççada em 2026, antes do anúncio do Nobel.


