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West End garante pagamento mínimo a responsáveis por lutas e redes sociais

West End garante pagamento mínimo a responsáveis por lutas e redes sociais
Foto: Ian S/Geograph Britain and Ireland via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0), imagem recortada

Novo acordo trabalhista eleva os pisos em pelo menos 13,5%, amplia férias e licenças e inclui, pela primeira vez, semanas de cinco dias em parte dos ensaios

Quando um espetáculo estreia, a coreografia de uma luta não fica pronta para sempre. Em cartaz, é preciso vigiar distâncias, recuperar movimentos que se alteram com o tempo e impedir que a repetição transforme uma cena ensaiada em risco para o elenco. No West End de Londres, esse trabalho cabe ao fight captain.

O novo acordo trabalhista do circuito passa a garantir um pagamento mínimo para quem assume essa responsabilidade. O mesmo vale para o social media rep, integrante da companhia encarregado de envolver os colegas na produção de conteúdos para as redes sociais, para além de obrigações promocionais habituais, como entrevistas e chamadas de imprensa.

As duas funções entraram na relação de responsabilidades adicionais remuneradas no acordo negociado entre o Equity, sindicato britânico das artes cênicas e do entretenimento, e a Society of London Theatre (SOLT), que representa produtores, gestores e proprietários de teatros de Londres.

O texto foi aceito por 98% dos participantes de uma votação com adesão de 75%. O resultado foi anunciado em 30 de julho, depois de uma consulta aberta no dia 13 e encerrada em 29 de julho. Quase 3 mil artistas e profissionais de stage management — a área responsável pela coordenação do palco — receberam o link para votar.

Puderam participar associados que estavam trabalhando no West End ou que haviam passado pelo circuito desde abril de 2023, quando o acordo anterior foi negociado.

A nova convenção vale retroativamente desde 6 de abril de 2026 e permanecerá em vigor até 1º de abril de 2029.

**Um aumento dividido em três anos
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Os pisos salariais subirão pelo menos 13,5% durante a vigência do contrato, mas o reajuste não será aplicado de uma vez.

A primeira parcela é de 6%, retroativa a abril deste ano. Em abril de 2027, os valores receberão mais 5%. O último aumento, previsto para abril de 2028, será calculado a partir da inflação medida pelo índice britânico CPI, acrescida de 0,5 ponto percentual.

O acordo também corrige uma distorção que agia silenciosamente sobre os salários dos profissionais de stage management. A diferença de remuneração entre Assistant Stage Manager, Deputy Stage Manager e Stage Manager era estabelecida por valores fixos em libras. Enquanto os pisos aumentavam, essa distância perdia valor para a inflação.

Agora, ela será definida em porcentagens e acompanhará os reajustes.

As férias anuais, atualmente de 28 dias, passarão para 30 em abril de 2028. As licenças-maternidade e por adoção remuneradas serão ampliadas em duas semanas, enquanto a licença-paternidade paga terá a duração dobrada.

Também haverá mais proteção para quem se lesionar durante o trabalho em um espetáculo: duas semanas adicionais de salário por incapacidade.

**A semana de cinco dias chega aos ensaios
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A mudança que o Equity apresenta como inédita não está no salário.

A partir do terceiro ano do acordo, pelo menos 25% do período inicial de ensaios deverá ser organizado em semanas de cinco dias. Hoje, segundo o sindicato, é comum que artistas e profissionais de coordenação de palco trabalhem até seis dias por semana nessa etapa de uma produção.

As semanas reduzidas deverão ser avisadas com pelo menos sete dias de antecedência. Caso não sejam cumpridas, o produtor terá de pagar horas extras.

Não se trata ainda de estabelecer uma semana de cinco dias para todo o processo. A regra alcança apenas um quarto do período inicial de ensaios e só começa a valer em abril de 2028. Mesmo assim, é a primeira vez que esse limite aparece formalmente no acordo entre o Equity e a SOLT.

A conquista toca num problema antigo do teatro comercial: a jornada que não termina quando acaba o ensaio. Sem previsibilidade, seis dias de trabalho afetam cuidados familiares, compromissos pessoais, outros empregos e até a possibilidade de descanso entre uma semana e outra.

O novo texto tenta avançar também nesse ponto. Mudanças regulares de programação terão de ser comunicadas com pelo menos oito semanas de antecedência. A regra vale, por exemplo, quando uma matinê é transferida de um dia da semana para outro.

Paul W Fleming, secretário-geral do Equity, afirmou que o sindicato buscava havia mais de uma década aumentar as férias, encurtar as semanas de ensaio e melhorar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Para ele, o acordo pode representar “o começo do fim dos baixos salários no West End”.

**Trabalho extra deixa de ser invisível
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A inclusão do fight captain e do social media rep diz algo sobre como as funções se acumulam dentro de uma produção.

No caso das lutas, não basta aprender a cena durante os ensaios. Alguém precisa mantê-la ao longo da temporada, acompanhar substituições, recuperar a precisão dos movimentos e verificar se a execução continua segura. É um trabalho contínuo, embora quase nunca seja percebido pelo público.

Nas redes sociais, a pressão cresceu à medida que a divulgação dos espetáculos passou a depender também de vídeos de bastidores, tendências, depoimentos e conteúdos produzidos com a presença do elenco. Organizar essa participação passou a exigir tempo, mediação e responsabilidade.

O novo acordo não cria apenas um nome para essas tarefas. Estabelece que elas têm um valor mínimo.

A convenção também trata de responsabilidades adicionais assumidas pelos profissionais de stage management e moderniza regras de organização da jornada. Para a SOLT, o contrato oferece aos produtores maior previsibilidade ao longo dos três anos e permite formas mais flexíveis de planejamento e programação.

Essa estabilidade terá um custo.

Hannah Essex, codiretora-executiva da entidade, afirmou que o acordo representa um compromisso significativo dos produtores num momento em que as despesas dos teatros sobem acima da inflação. Ela citou o aumento das contribuições patronais ao National Insurance, sistema britânico de previdência e seguridade social, e disse que o preço médio dos ingressos permanece abaixo do patamar anterior à pandemia quando considerado em termos reais.

Essex também cobrou do governo medidas para aliviar a pressão sobre o setor. Segundo ela, os teatros ficaram novamente fora de um benefício direcionado relacionado ao business rates, imposto britânico sobre imóveis comerciais.

**Diversidade entra nas regras de contratação
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Duas novas cláusulas deslocam o acordo para um campo que não se resolve apenas com reajustes.

A primeira determina que os serviços de perucas, cabelo e maquiagem sejam prestados com conhecimento adequado às características étnicas e culturais dos integrantes do elenco.

A regra responde a uma reclamação antiga de artistas negros e de outras origens étnicas, que muitas vezes encontram equipes sem preparo para trabalhar com determinadas texturas de cabelo ou tons de pele. O problema pode levar intérpretes a fornecer os próprios produtos, preparar a própria caracterização ou chegar ao trabalho já parcialmente maquiados.

A segunda cláusula exige que os processos de seleção sejam acessíveis a candidatos diversos. Quando a experiência pessoal for relevante para o papel, os produtores também deverão incentivar inscrições de profissionais com vivências próximas às das personagens.

O texto não estabelece resultados obrigatórios para a composição dos elencos. Estabelece, porém, uma responsabilidade para quem organiza o processo: a seleção não pode criar barreiras que afastem candidatos antes mesmo da audição.

**A greve que não precisou ser convocada
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O acordo foi aprovado depois de uma negociação que, por algumas semanas, colocou uma paralisação no horizonte do West End.

Em maio, mais de 850 artistas e profissionais de stage management que estavam trabalhando no circuito participaram de uma consulta indicativa. Entre os votantes, 98% disseram estar dispostos a aderir a greves aos sábados se os produtores não melhorassem a oferta. A participação chegou a 89%.

Em outra pergunta, aberta a quem havia trabalhado no West End nos três anos anteriores, 99% apoiaram a pauta apresentada pelo sindicato, numa votação com adesão de 78%.

A consulta não autorizava legalmente uma paralisação. Para convocá-la, o Equity ainda precisaria realizar uma votação formal dentro das exigências da legislação britânica.

Não foi necessário.

O resultado aumentou a pressão sobre os produtores e levou a novos movimentos na mesa de negociação. Quando abriu a votação definitiva, em 13 de julho, o sindicato já recomendava que os associados aceitassem a proposta.

Eles aceitaram.

O acordo não transforma a rotina do West End de uma só vez. A semana de cinco dias será parcial e só chegará em 2028. Os reajustes serão distribuídos ao longo de três anos. A pressão financeira sobre os teatros continuará fazendo parte da discussão.

Ainda assim, o texto muda o lugar de algumas reivindicações. Férias maiores, licenças ampliadas, previsibilidade de jornada e remuneração por responsabilidades extras deixam de depender da boa vontade de cada produção.

Num setor em que muito trabalho acontece longe dos olhos do público, estar escrito em contrato não é um detalhe.

NotíciaPedro Amaral

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