10 músicas que saíram de musicais e viraram hits fora do teatro
Quem levou cada canção à parada, a posição que alcançou e para quem foi o dinheiro, de “Mack the Knife” a “Defying Gravity”, com a Ópera do Malandro na conta
Uma canção de musical nasce presa a uma cena, mas o dinheiro dela se divide como o de qualquer canção: compositor e letrista ficam com a parte de autor, a editora administra e cobra, a gravadora é dona da gravação e paga o intérprete por contrato. O que muda é a porta por onde cada parcela entra. Nos Estados Unidos, a ASCAP e a BMI licenciam a execução não dramática, a do rádio, da TV e do bar, e repassam a compositor e editora. A montagem da peça fica fora delas. São os grand rights, negociados direto com o autor ou a editora, por agências como a MTI, que cobra do teatro uma porcentagem sobre lotação e preço do ingresso, segundo a própria agência.
No Brasil, a execução pública passa pelo Ecad, regido pela Lei 9.610, de 1998. No primeiro semestre de 2024, o escritório distribuiu R$ 817,6 milhões a mais de 315 mil titulares, 78% para compositores e editores e 22% para intérpretes, músicos e produtores de fonograma, segundo o balanço do Ecad de agosto de 2024. Essa conta explica por que uma canção sai do palco. O teatro paga aos autores uma fração da bilheteria, e a sessão tem o tamanho da sala. O rádio, o disco e o streaming pagam por execução e por cópia. Por isso a editora quer a canção solta: o single sai antes da estreia para vender o espetáculo, ou depois, quando um intérprete pop a leva aonde a montagem nunca vai. O caminho inverso, da canção pop para o palco, é o dos musicais de jukebox, assunto de 8 musicais que deram uma nova história a músicas que você já conhece.
A lista segue a ordem de estreia no palco, de 1928 a 2003, porque o caminho começa na cena e termina na parada. Em três casos, todos com letra de Tim Rice, o disco saiu antes da peça. As posições são as do Hot 100 da Billboard e da Official Charts britânica. O caso brasileiro, sem parada oficial a citar, entra pela censura e pelo disco.
1. “Mack the Knife”, de A Ópera dos Três Vinténs (1928)
A Ópera dos Três Vinténs estreou em 31 de agosto de 1928 no Theater am Schiffbauerdamm, em Berlim, texto de Bertolt Brecht e música de Kurt Weill sobre a “Ópera dos Mendigos”, de John Gay. A “Moritat de Mackie Messer” entrou às vésperas da estreia, a pedido do ator Harald Paulsen, o Macheath. Louis Armstrong gravou a versão em inglês em 1955; Bobby Darin foi mais longe. Sua gravação de 1959 ficou nove semanas no primeiro lugar do Hot 100 e levou o Grammy de Gravação do Ano em 29 de novembro de 1959. O single é disco de platina pela RIAA, um milhão de unidades, desde dezembro de 2023. Uma balada de assassino, escrita de véspera, virou hit de rádio 31 anos depois.
2. “Hello, Dolly!”, de Hello, Dolly! (1964)
Jerry Herman assinou música e letra de Hello, Dolly!, que abriu em 16 de janeiro de 1964 no St James Theatre, somou 2.844 apresentações e levou dez Tonys. A gravação de Louis Armstrong nasceu como peça de divulgação. Em dezembro de 1963 ele gravou uma demo para a editora promover a estreia; a Kapp a lançou em janeiro. Em 9 de maio de 1964, o single chegou ao primeiro lugar do Hot 100 e tirou do topo “Can't Buy Me Love”, encerrando 14 semanas seguidas dos Beatles. Armstrong tinha 62 anos, recorde de idade na época. Em abril de 1965, a canção ganhou o Grammy de Canção do Ano, prêmio que vai ao compositor, e Armstrong o de melhor vocal masculino. A editora vendeu a peça; o trompetista ficou com o hit.
3. “I Don't Know How to Love Him”, de Jesus Christ Superstar (1971)
Andrew Lloyd Webber e Tim Rice não acharam quem bancasse Jesus Christ Superstar e lançaram a partitura como álbum, em setembro de 1970. Yvonne Elliman gravou a balada de Maria Madalena. O álbum chegou ao nº 1 da Billboard em 1971; o musical só estreou na Broadway em 12 de outubro daquele ano, com a própria Elliman. Antes disso, a canção já tinha subido duas vezes: a versão de Elliman chegou ao nº 28 do Hot 100 e a de Helen Reddy ao nº 13, a 50ª do ano pela Billboard. Duas gravadoras, duas intérpretes, dois cachês. E um único par de autores recebendo pelas duas.
4. “Send in the Clowns”, de A Little Night Music (1973)
A Little Night Music abriu na Broadway em 25 de fevereiro de 1973. Stephen Sondheim escreveu a canção sob medida para Glynis Johns, a Desirée, que cantava mas não sustentava frases longas. Daí as frases curtas. Judy Collins gravou em 1975, no álbum “Judith”: o single ficou 11 semanas no Hot 100, com pico no nº 36, e em 1977 voltou, por 16 semanas, até o nº 19. Em 28 de fevereiro de 1976, a canção ganhou o Grammy de Canção do Ano, prêmio de Sondheim, com Collins como intérprete. Mais de 900 cantores a gravaram, segundo o livro “Showstoppers!”, de Gerald Nachman, e cada gravação paga à editora. Foi o maior hit da carreira dele.
5. “Don't Cry for Me Argentina”, de Evita (1978)
Evita também nasceu em disco. O álbum-conceito saiu em 1976 com Julie Covington como Eva Perón, e o single dela entrou na parada britânica em dezembro. Chegou ao primeiro lugar em 12 de fevereiro de 1977, por uma semana, com 15 semanas na tabela da Official Charts. Vendeu cerca de um milhão de cópias no Reino Unido. Covington recusou o palco, e Elaine Paige estreou a montagem em 21 de junho de 1978, em Londres. Madonna, no filme de 1996, chegou ao nº 3 britânico e ao nº 8 do Hot 100, em 1º de março de 1997. O Oscar do filme foi para “You Must Love Me”. A nova levou a estatueta; a velha ficou com o rádio.
6. “Geni e o Zepelim” e “O Meu Amor”, de Ópera do Malandro (1978)
Ópera do Malandro fecha o círculo do primeiro item: Chico Buarque partiu de Gay e de Brecht e Weill. A estreia foi em 26 de julho de 1978 no Teatro Ginástico, no Rio, direção de Luís Antônio Martinez Corrêa e direção musical de John Neschling, função explicada em O que faz um diretor musical no teatro?. Emiliano Queiroz, o Geni, contou ao jornal O Povo, em entrevista republicada em outubro de 2024, que a canção não existia quando os ensaios começaram. Chico o viu ensaiar a Jenny dos Piratas, de Brecht, e disse: “Esquece essa música aí. Vou escrever uma nova pro seu personagem”. O disco saiu em 1979 pela Philips, com nomes do rádio e “O Meu Amor” na voz de Elba Ramalho e Marieta Severo. Foi o disco que mudou uma regra. Segundo o jornalista Márcio Pinheiro no livro “O Que Não Tem Censura Nem Nunca Terá” (L&PM, 2024), a censura liberou a letra de “Geni” para a peça sem perceber que ela iria para o vinil, e o ministro da Justiça Petrônio Portella centralizou em Brasília a censura de letras. Em 2026, a montagem de Jorge Farjalla, anunciada para São Paulo em janeiro, fez temporada no Rio em agosto.
7. “Memory”, de Cats (1981)
Cats estreou em 11 de maio de 1981 no New London Theatre, música de Lloyd Webber e letra de Trevor Nunn sobre poemas de T.S. Eliot. Elaine Paige assumiu Grizabella no lugar de Judi Dench. O single de Paige chegou ao nº 6 britânico em 4 de julho de 1981, com 15 semanas na tabela da Official Charts. Nos Estados Unidos, Barbra Streisand chegou ao nº 52 do Hot 100 em 1982, e Barry Manilow ao nº 39 em janeiro de 1983. Em 1982, “Memory” levou o Ivor Novello de melhor canção. A peça ficou 21 anos em Londres e 18 na Broadway, e aparece em Os 10 musicais com mais apresentações na história da Broadway.
8. “One Night in Bangkok”, de Chess (1986)
Chess tem música de Benny Andersson e Björn Ulvaeus, do ABBA, e letra de Ulvaeus e Tim Rice. O álbum duplo saiu no outono de 1984 pela RCA, um ano e meio antes de a peça abrir em Londres, em 14 de maio de 1986. Murray Head fala os versos. O single chegou ao nº 12 britânico em 15 de dezembro de 1984, com 16 semanas na tabela da Official Charts, e ao nº 3 nos Estados Unidos e no Canadá em 1985. Foi nº 1 na Holanda, na Alemanha Ocidental e na Austrália. A Tailândia proibiu a canção em 1985, por desrespeito ao budismo. A versão da Broadway, em 1988, fechou depois de 68 apresentações. As canções renderam mais que a peça.
9. “The Phantom of the Opera”, de O Fantasma da Ópera (1986)
Aqui o dinheiro correu ao contrário: o single vendeu a peça. Sarah Brightman e Steve Harley lançaram “The Phantom of the Opera” em 3 de janeiro de 1986, letra de Charles Hart e Richard Stilgoe sobre a música de Lloyd Webber, para promover um musical que só estrearia em outubro. O single chegou ao nº 7 britânico em 8 de fevereiro de 1986 e ficou dez semanas na parada oficial. O Fantasma da Ópera abriu no Her Majesty's Theatre em 9 de outubro de 1986. Na Broadway, foi de 26 de janeiro de 1988 a 16 de abril de 2023, 13.981 apresentações. Trinta e cinco anos de Broadway começaram num single de rádio.
10. “Defying Gravity”, de Wicked (2003)
Wicked abriu no Gershwin Theatre em 30 de outubro de 2003, música e letra de Stephen Schwartz. Idina Menzel e Kristin Chenoweth a gravaram em novembro de 2003, e o disco de elenco levou o Grammy de álbum de musical em 2005. Por vinte anos a canção viveu do disco de elenco e da TV: a versão de Glee chegou ao nº 31 do Hot 100. O hit fora do teatro veio pelo cinema, e isso precisa ser dito. Foi o filme lançado em 22 de novembro de 2024 que pôs a gravação de Cynthia Erivo com Ariana Grande no nº 7 britânico, em dezembro de 2024, com 27.489 unidades, segundo a Music Week. Nos Estados Unidos chegou ao nº 44 do Hot 100 e ganhou platina da RIAA, um milhão de unidades. O mecanismo de Hello, Dolly! segue o mesmo: o disco é a propaganda, e o palco cobra o ingresso.
O leitor pode ouvir as duas pontas. A gravação original de elenco, o “original cast recording” das capas de disco, é o registro de estúdio dos números do espetáculo com o elenco da montagem; a Decca fixou o modelo em 1943 com “Oklahoma!”, gravado com elenco e coro originais. Nos serviços de streaming, a busca é pelo título da peça seguido de “Original Broadway Cast” ou “Original London Cast”. A versão do hit costuma aparecer primeiro. A do palco vem algumas linhas abaixo, e a comparação mostra o que a canção perdeu e ganhou ao sair da cena, caminho que o FOYER percorreu em Você conhece a música. Talvez não conheça a peça de onde ela saiu.
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