“Valsa nº 6” volta ao Espaço Parlapatões em curta temporada da Cia. Cães Errantes
Montagem dirigida por Gabriel Starobinas radicaliza o minimalismo do texto de Nelson Rodrigues e aproxima a obra de temas como violência de gênero e abuso infantil
A Cia. Cães Errantes volta ao Espaço Parlapatões com “Valsa nº 6”, único monólogo de Nelson Rodrigues. A montagem, dirigida por Gabriel Starobinas e protagonizada por Fernanda Gidali, faz curta temporada em setembro, com seis apresentações nos dias 2, 3, 4, 12, 29 e 30.
Escrito em 1951, o texto acompanha Sônia, uma jovem assassinada aos 15 anos que tenta reorganizar os fragmentos da própria história. Entre lembranças confusas, alucinações e lacunas, a personagem constrói e desconstrói sua narrativa enquanto busca compreender os acontecimentos que levaram à sua morte.
Na montagem da Cia. Cães Errantes, texto e interpretação ocupam o centro da cena. Sem cenários ou figurinos que remetam a uma época específica, a encenação aposta no minimalismo para evidenciar a dimensão psicológica da obra e sua permanência no presente.
A escolha é importante. “Valsa nº 6” não precisa ser atualizada de maneira literal para tocar temas urgentes. A violência contra uma adolescente, a fragilidade da memória diante do trauma e a tentativa de reconstruir uma história interrompida já fazem parte da estrutura da peça. O que a montagem propõe é olhar para esse material sem suavizar aquilo que ele carrega.
Ao aproximar a obra de discussões como violência de gênero e abuso infantil, o espetáculo desloca Sônia do lugar de personagem distante da dramaturgia rodrigueana e a recoloca diante de um público que reconhece, infelizmente, a permanência desses mecanismos de violência.
A peça se passa em um espaço sem tempo definido. Sônia não está exatamente viva, nem completamente fora do mundo. Ela fala de um lugar suspenso, tentando reunir pedaços de memória, nomes, imagens e sensações. Sua voz é atravessada por ruídos, cortes e contradições. O que se revela não vem em linha reta, mas como um quebra-cabeça montado diante da plateia.
Essa fragmentação é uma das marcas mais fortes do texto. Nelson Rodrigues constrói a narrativa a partir da instabilidade da personagem, fazendo com que o público participe da tentativa de entender o que aconteceu. A morte de Sônia não aparece como ponto final, mas como pergunta que insiste em voltar.
Na encenação, a sonoplastia de Nina Darin e o desenho de luz de Gabrielle Costa e Gabriel Starobinas contribuem para criar esse universo vazio e fragmentado. Ruídos, vozes e silêncios funcionam como extensões do pensamento da personagem, enquanto a luz ajuda a organizar o espaço mental em que Sônia tenta se reencontrar.
A direção de Gabriel Starobinas parte da concentração no trabalho da atriz. Em vez de multiplicar elementos externos, a montagem parece interessada em expor o embate entre corpo, voz e memória. A cena se constrói na tensão entre aquilo que Sônia lembra, aquilo que inventa, aquilo que reprime e aquilo que finalmente consegue dizer.
O espetáculo também marca o início das atividades da Cia. Cães Errantes, companhia que surge com a proposta de desenvolver trabalhos centrados no ator e na experimentação de linguagem. A escolha de “Valsa nº 6” como ponto de partida não é casual: trata-se de uma obra que exige precisão, escuta e risco.
No repertório de Nelson Rodrigues, “Valsa nº 6” ocupa um lugar singular. Diferente das tramas familiares mais conhecidas do autor, o texto se concentra em uma única voz e em uma percepção despedaçada. Ainda assim, carrega temas recorrentes de sua dramaturgia: desejo, morte, culpa, violência, delírio e a dificuldade de separar realidade e imaginação.
O título remete à música de Chopin que atravessa a peça e assombra a memória de Sônia. A valsa, associada a uma ideia de graça, movimento e formação sentimental, aparece contaminada por uma história brutal. O que poderia ser rito de passagem de uma adolescente se converte em tentativa de reconstrução depois da morte.
É nesse contraste que a obra permanece incômoda. “Valsa nº 6” fala de uma juventude interrompida, mas também da forma como a violência reorganiza a memória de quem foi atingido por ela. A personagem tenta contar a própria história, mas essa história foi arrancada dela antes que pudesse se completar.
Ao retornar ao Espaço Parlapatões, a montagem reafirma a potência de um texto que continua abrindo perguntas. Quem tem direito de narrar a própria violência? O que acontece quando uma mulher muito jovem é transformada em enigma, caso, lembrança ou fantasma? E como o teatro pode devolver presença a uma personagem que a própria trama coloca depois da morte?
Na versão da Cia. Cães Errantes, a resposta não está no excesso. Está na escuta. Em deixar que Sônia ocupe o centro da cena e que o público acompanhe, junto dela, a tentativa de remontar aquilo que foi destruído.
Sinopse
Após ser assassinada, Sônia tenta montar o quebra-cabeça de suas memórias e reconstruir os acontecimentos de sua vida. Suspensa em um espaço sem tempo definido, a jovem revela uma trama de assassinato, adultério, alucinações e conflitos entre o real e o imaginário.
Serviço
Valsa nº 6
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Gabriel Starobinas
Elenco: Fernanda Gidali
Realização: Cia. Cães Errantes
Datas: 2, 3, 4, 12, 29 e 30 de setembro de 2026
Horário: 20h
Local: Espaço Parlapatões
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158 — Consolação, São Paulo — SP
Ingressos: R$ 70 inteira | R$ 35 meia-entrada
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Ficha técnica
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Gabriel Starobinas
Elenco: Fernanda Gidali
Sonoplastia: Nina Darin
Iluminação: Gabrielle Costa e Gabriel Starobinas
Operação de luz: Caroline Rúbio
Produção geral: Vitória Anibal
Realização: Cia. Cães Errantes
Fotografia: Cecília Gidali



