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“Réquiem SP” volta ao Theatro Municipal com Balé da Cidade, orquestra e coral em cena

“Réquiem SP” volta ao Theatro Municipal com Balé da Cidade, orquestra e coral em cena
Foto: Larissa Paz/Divulgação Theatro Municipal de São Paulo

Criada por Alejandro Ahmed, peça coreográfica retorna à Sala de Espetáculos em seis apresentações entre 15 e 22 de agosto

Depois de abrir a temporada de 2025 do Balé da Cidade de São Paulo, “Réquiem SP” volta à Sala de Espetáculos do Theatro Municipal de São Paulo para uma nova temporada. A obra, criada, dirigida e coreografada por Alejandro Ahmed, terá seis apresentações entre 15 e 22 de agosto, reunindo em cena o Balé da Cidade de São Paulo, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano.

Com direção musical e regência de Maíra Ferreira, a montagem tem 70 minutos de duração e propõe um encontro pouco óbvio entre o réquiem de György Ligeti, experimentações sonoras produzidas ao vivo e faixas do produtor canadense Venetian Snares. O resultado é uma obra em que dança, música, luz, imagem e tecnologia não aparecem como camadas separadas, mas como partes de um mesmo organismo cênico.

“Réquiem SP” estreou em março de 2025, na mesma sala do Theatro Municipal. Duas apresentações daquela temporada, nos dias 20 e 23 de março, integraram a programação da MITsp — Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que apresentou a criação como estreia nacional.

A peça coreográfica se estrutura em dois atos contínuos, separados por um interlúdio. O primeiro ato é construído sobre o “Requiem”, de Ligeti, executado pela Orquestra Sinfônica Municipal e pelo Coral Paulistano. Com cerca de trinta minutos, a composição se organiza em quatro movimentos — Introitus, Kyrie, Dies Irae e Lacrimosa — e exige do coro um trabalho vocal de grande precisão.

No interlúdio, o público acompanha a saída dos músicos e cantores do palco. A música, então, passa a ser criada por outros meios: microfonação, controle e tratamento digital de gotas de água e do próprio ambiente sonoro capturado em cena. Esse trecho recebe o nome de “Síncope para Motor e Água: Tálamo K”.

O segundo ato desloca a escuta para outro território. A coreografia passa a se apoiar em duas faixas de “Rossz Csillag Alatt Született”, álbum do canadense Venetian Snares: “Hajnal” e “Kétsarkú Mozgalom”. A passagem do réquiem de Ligeti ao breakcore de Venetian Snares cria um choque de linguagens que interessa menos pela oposição entre erudito e eletrônico, e mais pela fricção entre formas diferentes de lidar com intensidade, luto e instabilidade.

O próprio Alejandro Ahmed define a obra como um percurso por três movimentos musicais. “O Réquiem SP explora além da partitura de György Ligeti, se estende para três movimentos musicais: um é um interlúdio de autogestão coreográfica e de som, outro é o Réquiem de quatro movimentos e o final que tem outras duas faixas do produtor canadense Venetian Snares”, afirma o coreógrafo.

Em cena, estão 17 bailarinos: 16 integrantes do Balé da Cidade e a bailarina convidada Bill Valkyrie, cuja pesquisa de movimento parte do krump. A presença dela amplia o vocabulário técnico da montagem, que também atravessa referências do balé, do jumpstyle e de danças urbanas e populares.

A obra toma como matéria o luto, a memória e a irreversibilidade da vida. Em vez de tratar esses temas por uma narrativa linear, “Réquiem SP” constrói um campo físico e sensorial, no qual os corpos dançam aquilo que já não está, aquilo que permanece como vestígio e aquilo que ainda precisa ser atravessado.

A ideia de São Paulo, anunciada no título, aparece menos como cenário e mais como tensão. A cidade surge na colisão de técnicas, sonoridades, velocidades e corpos. Há algo de profundamente paulistano nesse encontro entre o coral e o ruído digital, entre a liturgia do réquiem e a pulsação quebrada da música eletrônica, entre o palco histórico do Municipal e linguagens que vêm de outras ruas, pistas e margens.

A ficha artística reúne João Peralta na criação de vídeo e interlocução musical, Karin Serafin no figurino, Diego de los Campos na cenografia, objetos e controles físicos digitais, Mirella Brandi no desenho de luz e Giorgia Tolaini no acompanhamento de luz.

À frente da criação, Alejandro Ahmed dá continuidade a uma pesquisa marcada pelo risco e pela relação entre corpo, ambiente e instabilidade. Nascido em Montevidéu, no Uruguai, e radicado no Brasil desde a infância, o coreógrafo é associado à trajetória do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, companhia de Florianópolis que ajudou a fundar em 1986 e na qual desenvolveu uma investigação própria sobre o corpo em estado contínuo de risco.

No Balé da Cidade, companhia criada em 1968 como corpo de baile municipal e voltada à dança contemporânea desde 1974, “Réquiem SP” recoloca a pergunta sobre o que pode ser uma obra de repertório hoje. Não se trata apenas de remontar uma criação recente, mas de devolver à cena uma peça que exige grande articulação entre corpos estáveis do Theatro Municipal e diferentes tecnologias de som, luz e imagem.

Ao reunir Balé da Cidade, Coral Paulistano e Orquestra Sinfônica Municipal em uma mesma experiência, “Réquiem SP” reafirma a potência do Municipal como espaço de encontro entre linguagens. A obra não suaviza suas diferenças: faz delas sua matéria. Entre Ligeti e Venetian Snares, entre luto e renascimento, entre silêncio e ruído, a dança encontra um modo de pensar a cidade pelo corpo.

Serviço

Réquiem SP
Criação, direção e coreografia: Alejandro Ahmed
Direção musical e regência: Maíra Ferreira
Corpos artísticos: Balé da Cidade de São Paulo, Coral Paulistano e Orquestra Sinfônica Municipal
Bailarina convidada: Bill Valkyrie

Programa:
György Ligeti: “Requiem” — 30 minutos
Interlúdio: “Síncope para Motor e Água: Tálamo K” — 20 minutos
Venetian Snares: “Hajnal” — 8 minutos
Venetian Snares: “Kétsarkú Mozgalom” — 9 minutos

Local: Sala de Espetáculos do Theatro Municipal de São Paulo
Endereço: Praça Ramos de Azevedo, s/nº — Sé, São Paulo — SP

Datas e horários:
15 de agosto, sábado, às 17h
16 de agosto, domingo, às 17h
18 de agosto, terça-feira, às 20h
19 de agosto, quarta-feira, às 20h
21 de agosto, sexta-feira, às 20h
22 de agosto, sábado, às 17h

Ingressos: de R$ 13 a R$ 100
Vendas: bilheteria digital do Theatro Municipal de São Paulo
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: livre
Acessibilidade: acesso para cadeirantes e banheiro acessível

Ficha técnica

Criação, direção e coreografia: Alejandro Ahmed
Direção musical e regência: Maíra Ferreira
Diretor de fotografia, edição, criação de vídeo e interlocução musical: João Peralta
Figurino: Karin Serafin
Cenografia, objetos e controles físicos digitais: Diego de los Campos
Desenho de luz: Mirella Brandi
Acompanhamento de luz: Giorgia Tolaini

DançaIsabel Branquinha

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