Reino Unido libera compra da Warner pela Paramount, mas acordo de US$ 110 bi continua travado nos EUA
Aprovação britânica veio após compromissos para preservar independência editorial, programação infantil e produção local; ação de 12 estados americanos mantém a operação suspensa
A Paramount conseguiu na quinta-feira, 6 de agosto, uma das autorizações mais importantes que ainda faltavam para comprar a Warner Bros. Discovery. O Reino Unido liberou a operação depois de uma análise concorrencial e de uma negociação paralela que obrigou a empresa a assumir compromissos sobre jornalismo, programação infantil e produção britânica.
O sinal verde, porém, não coloca a Warner nas mãos da Paramount.
Nos Estados Unidos, uma ação movida por uma coalizão de 12 procuradores-gerais estaduais mantém a aquisição suspensa. Paramount e Warner concordaram em não concluir a operação até cinco dias depois de uma decisão sobre o mérito do processo ou até 1º de junho de 2027, o que ocorrer primeiro. Caso não haja decisão até essa data, os estados poderão pedir uma liminar para continuar bloqueando o negócio.
É uma situação incomum para uma operação dessa dimensão. Reguladores britânicos acabaram de concluir que a união não ameaça a concorrência de maneira suficiente para justificar uma investigação mais profunda. Nos Estados Unidos, autoridades estaduais sustentam que a mesma combinação reduziria a competição em setores centrais do entretenimento.
O que o Reino Unido analisou
A Competition and Markets Authority, a CMA britânica, analisou os efeitos da aquisição sobre três mercados: distribuição cinematográfica, canais infantis e serviços de streaming. O órgão concluiu que a operação não provocaria uma redução substancial da concorrência em nenhum deles e decidiu não encaminhar o negócio para uma investigação de segunda fase.
A discussão política foi mais delicada.
Em junho, o governo britânico havia sinalizado que poderia intervir por receio dos efeitos da concentração sobre pluralidade da mídia, independência editorial, jornalismo e programação infantil. A ameaça foi retirada em 6 de agosto somente depois que a Paramount transformou uma série de garantias em compromissos juridicamente vinculantes.
Entre eles está a preservação de identidades editoriais distintas para serviços do grupo no Reino Unido. Nickelodeon e Cartoon Network deverão continuar editorialmente separados e manter a encomenda e aquisição de conteúdo infantil britânico original.
O Channel 5 continuará operando como emissora de serviço público, com sua estratégia de encomendas voltada ao Reino Unido. A Paramount também se comprometeu a ampliar recursos destinados a jornalismo, dramaturgia e programação infantil original no canal.
No noticiário, a separação foi ainda mais explícita. A direção editorial do Channel 5 News deverá permanecer independente da CBS News e da CNN International. A CNN International também continuará disponível no país.
Os compromissos gerais entram em vigor quando a aquisição for concluída e permanecerão válidos por cinco anos. As obrigações relacionadas ao Channel 5 duram até 31 de dezembro de 2034, quando termina a atual licença de serviço público da emissora.
O governo liberou o negócio, mas não encerrou sua preocupação com ele.
A secretária de Cultura britânica afirmou que continua apreensiva com os efeitos que a consolidação pode produzir sobre setores criativos mais amplos, incluindo o cinema, e pretende discutir novas garantias diretamente com a Paramount.
Dois números para a mesma compra
O acordo anunciado em fevereiro prevê o pagamento de US$ 31 por ação da Warner Bros. Discovery.
Há dois valores associados à operação, e tratá-los como equivalentes cria uma imprecisão importante. O valor atribuído ao capital da Warner Bros. Discovery (equity value) é de US$ 81 bilhões, enquanto o enterprise value, que incorpora também a dívida e outros componentes financeiros, chega a US$ 110 bilhões. É deste segundo cálculo que vem o número usado para dimensionar a aquisição.
Se concluída, a operação colocará sob o mesmo controle corporativo ativos como Warner Bros., HBO, HBO Max, CNN, Discovery, DC e Cartoon Network, de um lado, e Paramount Pictures, CBS, Paramount+, Nickelodeon e outras marcas da Paramount, de outro.
A própria Paramount afirma que pretende manter os dois estúdios e produzir pelo menos 30 filmes para os cinemas por ano, cerca de 15 por estúdio. A companhia apresenta essa escala como necessária para competir em um mercado dominado por grandes plataformas e promete continuar investindo em produção e talentos criativos.
São compromissos e projeções da empresa, não conclusões dos reguladores sobre o impacto futuro do negócio.
Nos Estados Unidos, a leitura é outra
A resistência que ainda impede a conclusão da compra vem de uma coalizão liderada pela Califórnia.
Os 12 procuradores-gerais estaduais argumentam que a operação reduziria a concorrência em três mercados: distribuição de filmes, distribuição de grandes lançamentos esperados e licenciamento de canais de televisão a cabo.
Na ação apresentada em julho, os estados também afirmaram que Paramount e Warner estão entre os cinco grandes distribuidores cinematográficos de Hollywood e que, juntas, controlariam quase um terço dos filmes destinados às salas americanas e proporção semelhante da programação básica de TV a cabo. Os percentuais fazem parte da argumentação dos procuradores-gerais e serão discutidos judicialmente.
A posição dos estados não é compartilhada por todo o aparato antitruste americano. Em junho, a divisão antitruste do Departamento de Justiça encerrou sua própria investigação sobre o negócio sem concluir que havia evidências suficientes de que a operação provavelmente prejudicaria a concorrência.
A diferença em relação à decisão britânica ajuda a revelar o tamanho da discussão.
No Reino Unido, a resposta foi permitir a aquisição e tentar proteger algumas fronteiras por contrato: marcas editorialmente distintas, independência jornalística, encomendas britânicas e produção infantil.
Nos Estados Unidos, 12 estados querem saber se essas fronteiras continuarão produzindo concorrência real quando duas das maiores estruturas de Hollywood tiverem o mesmo proprietário.
A Paramount saiu de 6 de agosto com mais uma autorização importante.
A Warner, por enquanto, continua fora de suas mãos.



