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Quando gays, lésbicas e mineiros decidiram ficar do mesmo lado: “Pride” ganha nova vida como musical em Londres

Quando gays, lésbicas e mineiros decidiram ficar do mesmo lado: “Pride” ganha nova vida como musical em Londres
Foto: Manuel Harlan/Divulgação – National Theatre

Baseado no filme de 2014 e em uma aliança real construída durante a greve dos mineiros britânicos, musical esgota temporada no National Theatre e segue para o Bridge Theatre a partir de novembro

Em junho de 1984, durante a marcha do Orgulho em Londres, Mark Ashton e Mike Jackson passaram um balde entre os manifestantes para arrecadar dinheiro.

A coleta não era para uma organização gay ou lésbica. Também não era direcionada à crise de AIDS, que já começava a atravessar profundamente aquela comunidade.

O dinheiro iria para mineiros em greve.

Daquela arrecadação nasceu Lesbians and Gays Support the Miners (LGSM), grupo que colocou ativistas gays e lésbicas de Londres em contato direto com famílias de trabalhadores do sul do País de Gales durante uma das disputas trabalhistas mais duras da história recente britânica.

Quarenta e dois anos depois, a história continua encontrando público.

Depois de apresentações prévias esgotadas no Sherman Theatre, em Cardiff, e de uma temporada também esgotada no National Theatre, em Londres, o musical Pride ganhará uma nova casa. A produção começa apresentações no Bridge Theatre em 12 de novembro, com temporada anunciada até 8 de maio de 2027.

A mudança praticamente dobra a escala da produção: do Dorfman, sala de aproximadamente 450 lugares do National Theatre, para o Bridge, com cerca de 900.

Mas, antes de virar musica, e antes mesmo de virar o filme lançado em 2014, Pride foi uma história sobre pessoas que não precisavam ser iguais para perceber que tinham motivos para lutar juntas.

Um balde, £200 e 11 pessoas em uma sala

A greve nacional dos mineiros começou em março de 1984, em meio ao confronto entre o governo conservador de Margaret Thatcher e o National Union of Mineworkers (NUM) diante do fechamento de minas e da reestruturação da indústria do carvão.

Quatro meses depois, surgiu o LGSM.

Segundo o arquivo mantido pelos próprios integrantes do grupo, Ashton e Jackson arrecadaram aproximadamente £200 durante a marcha do Orgulho de Londres, em junho. A experiência levou à convocação da primeira reunião formal do LGSM em 15 de julho de 1984.

Onze pessoas apareceram.

Quando a greve terminou, em março de 1985, mais de 60 ativistas já haviam participado do núcleo londrino. Outros grupos ligados ao movimento surgiram em dez cidades britânicas, além de Dublin.

A ideia não era apenas levantar dinheiro.

Parte dos integrantes do LGSM enxergava uma conexão política entre a repressão dirigida aos mineiros e experiências que gays e lésbicas britânicos já conheciam: hostilidade da imprensa, ação policial, perda de direitos e a construção pública de determinados grupos como ameaças à sociedade.

Isso não significava fingir que as comunidades mineradoras estavam livres de homofobia.

Não estavam.

Relatos dos próprios membros do LGSM registram tanto a desconfiança inicial quanto o reconhecimento de que haveria preconceito a enfrentar. O apoio aos grevistas, no entanto, não foi condicionado à expectativa de que todos ali já fossem aliados da população gay e lésbica.

Essa talvez seja uma das partes da história que Pride preserva melhor.

A solidariedade não nasceu porque os dois grupos descobriram subitamente que eram iguais.

Nasceu porque decidiram construir alguma coisa apesar de não serem.

De Londres para o vale de Dulais

O LGSM também percebeu que simplesmente enviar dinheiro para uma estrutura nacional poderia manter a relação entre ativistas e trabalhadores distante demais.

O grupo estabeleceu então uma ligação direta com comunidades mineradoras do vale de Dulais, no sul do País de Gales, onde o dinheiro arrecadado ajudava trabalhadores e suas famílias durante a greve.

O que começou como arrecadação ganhou outra dimensão.

Ativistas viajaram de Londres para o País de Gales. Mineiros e familiares foram recebidos na capital. Houve reuniões, festas, discursos, hospedagens nas casas uns dos outros, conversas e alguns inevitáveis constrangimentos.

No relato histórico de Mike Jackson, uma das primeiras visitas do LGSM ao vale terminou com os ativistas bebendo, dançando e conversando com mineiros e suas famílias, enquanto os estandartes dos dois grupos eram expostos juntos no salão comunitário.

A mudança não aconteceu por decreto.
Aconteceu na convivência.
Quando “pervertidos” virou nome de festa

Poucos meses depois, a aliança ganhou uma de suas imagens mais conhecidas.

Em 10 de dezembro de 1984, o LGSM realizou um show beneficente no Electric Ballroom, em Camden.

O nome era Pits and Perverts.

A provocação recuperava um ataque do tabloide The Sun, que havia usado a associação entre “pervertidos” e minas para ridicularizar a aproximação entre ativistas homossexuais e trabalhadores em greve. O grupo tomou o insulto para si e o transformou em título de evento.

O Bronski Beat, de Jimmy Somerville, encabeçou a programação.

Cerca de 1.500 pessoas estiveram no Electric Ballroom e, segundo os arquivos do LGSM, a noite arrecadou £5.650 para os mineiros e suas famílias, o maior evento individual de arrecadação realizado pelo núcleo londrino.

Era dinheiro.
Mas também era exposição.

Mineiros de diferentes regiões estavam naquela noite dentro de um espaço ocupado majoritariamente por gays e lésbicas. Ativistas ouviam trabalhadores falando diretamente sobre a greve. Pessoas que poderiam conhecer umas às outras apenas por estereótipos estavam dividindo o mesmo salão.

O evento que deveria ter sido motivo de humilhação virou demonstração pública da própria aliança.

A greve terminou. A relação não.

Os mineiros não venceram aquela disputa.

A greve terminou em março de 1985, depois de aproximadamente um ano, sem impedir o processo de fechamento das minas que havia mobilizado os trabalhadores.

Mas a relação construída com o LGSM produziu consequências que ultrapassaram a paralisação.

Em 29 de junho de 1985, durante a marcha do Orgulho de Londres, representantes das comunidades mineradoras do sul do País de Gales caminharam ao lado dos ativistas. Os contingentes ligados aos mineiros e ao LGSM acabaram à frente da manifestação.

Era uma inversão bastante significativa.

Um ano antes, gays e lésbicas haviam passado um balde entre manifestantes para ajudar trabalhadores que sequer conheciam.

Agora aqueles trabalhadores carregavam estandartes ao lado deles.

A aproximação também chegou às estruturas sindicais.

O próprio arquivo do LGSM registra que o National Union of Mineworkers apoiou reivindicações por igualdade para gays e lésbicas tanto na conferência do Labour Party quanto no Trades Union Congress de 1985.

Isso não transformou a Grã-Bretanha em um país sem homofobia.

Não transformou o movimento sindical em um espaço imediatamente livre de preconceito.

E tampouco fez da derrota dos mineiros uma vitória por outro caminho.

O que aconteceu foi menos perfeito, e talvez mais interessante.

Uma relação concreta conseguiu alterar posições políticas que antes pareciam improváveis.

Trinta anos depois, veio o filme

Quando Pride chegou aos cinemas, em 2014, boa parte dessa história era pouco conhecida fora de círculos ligados ao movimento sindical e à memória LGBTQ+ britânica.

O longa, escrito por Stephen Beresford e dirigido por Matthew Warchus, transformou os acontecimentos reais em uma comédia dramática protagonizada por personagens históricos e ficcionais.

No elenco estavam Bill Nighy, Imelda Staunton, Dominic West, Andrew Scott, Paddy Considine, George MacKay e Ben Schnetzer, entre outros.

A produção venceu a Queer Palm no Festival de Cannes e foi escolhida como Melhor Filme Independente Britânico no British Independent Film Awards. Na mesma premiação, Andrew Scott venceu como ator coadjuvante e Imelda Staunton, como atriz coadjuvante.

Parte da força do filme estava em não transformar aqueles acontecimentos apenas em uma aula de história política.

Há Thatcher.
Há greve.
Há AIDS.

Há homofobia, polícia, desemprego e tensão entre grupos que não confiam imediatamente uns nos outros.

Mas também há música, bebida, festa, sexo, dança, famílias, piadas ruins e pessoas tentando descobrir o que dizer quando entram numa sala cheia de gente cuja vida conhecem apenas por caricaturas.

A política passa justamente por essas relações.
E foi essa história que Beresford e Warchus decidiram visitar novamente.
Do cinema para o musical

A nova versão reúne os dois criadores do filme em funções semelhantes, mas não idênticas.

Stephen Beresford assina agora o texto e as letras, enquanto Matthew Warchus desenvolve e dirige a montagem.

A música original é de Christopher Nightingale, Josh Cohen e DJ Walde, em uma trilha que passa por referências de pop, rock e disco, canções de protesto e pela tradição coral galesa. Lizzi Gee assina a coreografia, e Bunny Christie, cenário e figurinos.

A primeira apresentação aconteceu no Sherman Theatre, em Cardiff, em 31 de março.

Oficialmente, aquela passagem pelo País de Gales — até 18 de abril — foi tratada como uma temporada de previews, antes da estreia mundial no Dorfman Theatre do National Theatre, em Londres, em junho.

As apresentações em Cardiff esgotaram.

O mesmo aconteceu em Londres.
No National Theatre, Pride fica em cartaz até 12 de setembro, mas já não há ingressos disponíveis para a temporada regular.

A recepção crítica também acompanhou o público.

Em junho, o Guardian deu cinco estrelas à produção e destacou justamente a capacidade do musical de transformar a história de solidariedade política em espetáculo sem retirar dela suas contradições, passando pelo preconceito contra homossexuais, pela crise de AIDS e pela tentativa do governo Thatcher de derrotar o movimento dos mineiros.

Agora, uma sala duas vezes maior

O próximo passo foi anunciado em 25 de agosto.

A partir de 12 de novembro, Pride deixa a estrutura mais íntima do Dorfman e passa para o Bridge Theatre, próximo à Tower Bridge.

O novo espaço tem aproximadamente 900 lugares, o dobro da capacidade do teatro onde o musical construiu sua temporada londrina até agora. A produção está anunciada inicialmente até 8 de maio de 2027.

Parte do elenco já foi confirmada para a transferência.

Samuel Barnett continua como Jonathan; Matthew Durkan, como Mike; Chris Jenkins, como Gethin; Kirsty Malpass, como Hefina; Sarah Pugh, como Siân; Caroline Sheen, como Maureen; Courtney Stapleton, como Steph; e Matthew Woodyatt, como Dai. Outros integrantes da nova companhia ainda serão anunciados.

A ausência de alguns nomes importantes nessa primeira lista, inclusive o intérprete de Mark Ashton, significa que ainda não é possível afirmar que todo o elenco do National Theatre acompanhará a produção.

A transferência também acontece em um momento de mudança para o próprio Bridge: a Trafalgar Entertainment adquiriu o teatro neste ano, e Pride será a primeira produção apresentada no espaço sob a nova administração.

Por que uma história de 1984 está esgotando teatros em 2026?

É tentador responder simplesmente que Pride é uma história bonita.
Seria pouco.
Também seria confortável demais.

O musical chega ao Bridge Theatre em um momento no qual a discussão pública sobre direitos LGBTQ+, movimentos trabalhistas, imigração, desigualdade, identidade e pertencimento voltou a produzir divisões políticas intensas em diferentes países.

Mas Pride não oferece como resposta a ideia de que essas diferenças desaparecerão quando todos se conhecerem melhor.

A própria história do LGSM é mais complicada do que isso.
Havia preconceito.
Havia conflito.

Havia ativistas gays e lésbicas que não entendiam por que deveriam arrecadar dinheiro para mineiros. Havia pessoas dentro das comunidades mineradoras que não queriam ser associadas a homossexuais. Havia diferenças de classe, de experiência e de visão política.

A aliança não começou depois que tudo isso foi resolvido.

Ela começou antes.
É provavelmente aí que uma história de 1984 encontra seu ponto mais contemporâneo.
Mark Ashton e Mike Jackson não passaram aquele primeiro balde porque os mineiros já haviam provado que defenderiam os direitos de gays e lésbicas.

Fizeram isso porque acreditavam que a vulnerabilidade política de outra comunidade também deveria importar para eles.
Um ano depois, mineiros estavam marchando à frente do Orgulho.
Quase três décadas depois, a história virou cinema.
Agora, mais de quatro décadas depois do início da greve, está esgotando teatros e mudando para uma sala duas vezes maior em Londres.

Não porque gays, lésbicas e mineiros descobriram que eram iguais.

Porque, durante algum tempo, conseguiram fazer algo muito mais difícil: decidiram que não precisavam ser iguais para ficar do mesmo lado.

Teatro MusicalIsabel Branquinha

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