“Dreamgirls” adia retorno à Broadway, e Jennifer Hudson agora está do outro lado da história
Revival não chegará mais aos palcos no segundo semestre de 2026, mas segue em desenvolvimento sob direção de Camille A. Brown; 20 anos depois de ganhar o Oscar como Effie White, Hudson participa da produção que procura as próximas Dreams
O retorno de Dreamgirls à Broadway vai demorar um pouco mais.
Anunciada originalmente para o segundo semestre de 2026, a nova montagem do musical não estreará mais dentro da janela prevista. O projeto, no entanto, não foi cancelado. Os produtores confirmaram nesta semana que a produção continua em desenvolvimento e que teatro, novas datas e elenco serão anunciados quando estiverem definidos.
Entre as pessoas esperando, e trabalhando, por esse retorno está alguém cuja vida profissional já foi profundamente alterada por Dreamgirls.
Jennifer Hudson, que há 20 anos fez sua estreia no cinema interpretando Effie White na adaptação dirigida por Bill Condon, agora integra o grupo de produtores responsável por colocar o musical novamente nos palcos de Nova York.
É uma mudança de posição bastante particular.
Em 2006, Hudson era uma ex-participante do American Idol diante de um dos primeiros grandes testes de sua carreira pós-programa.
Em 2007, saiu da temporada de premiações com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Duas décadas depois, ela ajuda a procurar quem serão as próximas Effie, Deena e Lorrell.
Um adiamento, e uma volta que já escapou da Broadway antes
O novo Dreamgirls havia sido anunciado em setembro de 2025, com Camille A. Brown acumulando direção e coreografia e previsão de início das apresentações no outono norte-americano de 2026.
Teatro e elenco ainda não haviam sido definidos.
Com a aproximação do período anunciado sem essas informações, cresceu a dúvida sobre o cronograma. Em 25 de agosto, os produtores confirmaram à revista People que a janela de 2026 não será cumprida, mas foram explícitos ao afirmar que a montagem continua avançando.
Nenhuma nova previsão de estreia foi divulgada.
A distinção entre adiamento e cancelamento importa especialmente porque Dreamgirls já teve outra tentativa de retorno à Broadway que não chegou ao palco.
Em 2016, uma nova produção dirigida e coreografada por Casey Nicholaw estreou no West End londrino com Amber Riley como Effie White. No início de 2017, foi anunciado que a montagem seguiria para a Broadway. Houve inclusive processos de seleção ligados à possível transferência.
Ela nunca aconteceu.
A produção permaneceu no Savoy Theatre até janeiro de 2019 e depois seguiu outro caminho.
Quase uma década depois, portanto, o musical está novamente tentando concretizar uma volta a Nova York.
Desta vez, com Jennifer Hudson entre os produtores.
De Effie White à mesa de produção
Hudson entrou oficialmente para o projeto em fevereiro de 2026, juntando-se a uma equipe liderada por nomes como Sonia Friedman, Sue Wagner, John Johnson e LaChanze. Dreamgirls representa seu terceiro crédito como produtora na Broadway.
A ligação com o material, evidentemente, é diferente das demais.
Na adaptação cinematográfica de 2006, Hudson interpretou Effie White ao lado de Beyoncé, Anika Noni Rose, Jamie Foxx e Eddie Murphy.
O longa recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo três canções concorrendo simultaneamente em Melhor Canção Original, e terminou a noite com duas vitórias: Mixagem de Som e Melhor Atriz Coadjuvante para Hudson.
Era seu primeiro filme.
E Effie lhe deu um Oscar.
A personagem também colocou sua interpretação de “And I Am Telling You I’m Not Going” no centro de uma carreira que, a partir dali, se expandiria para música, cinema, televisão e teatro.
Hoje, Hudson pertence ao pequeno grupo dos vencedores do EGOT. O último prêmio que faltava veio justamente da Broadway: em 2022, ela integrou a equipe de produtores de A Strange Loop, vencedor do Tony de Melhor Musical.
Voltar a Dreamgirls como produtora cria, portanto, uma espécie de círculo.
Quando falou sobre o projeto em março, Hudson descreveu a experiência como uma maneira de reviver sua própria passagem pela obra sob uma perspectiva diferente. Também ressaltou o interesse em acompanhar a descoberta das novas intérpretes.
Porque poucas personagens do teatro musical carregam um histórico de transformação de carreiras tão evidente quanto Effie White.
Antes de Jennifer Hudson, houve Jennifer Holliday
Quando Dreamgirls estreou no Imperial Theatre, em 20 de dezembro de 1981, Jennifer Holliday tinha o papel que se tornaria indissociável de sua carreira.
Ao lado dela estavam Sheryl Lee Ralph, como Deena Jones, e Loretta Devine, como Lorrell Robinson.
A montagem original, dirigida por Michael Bennett, permaneceu em cartaz até agosto de 1985 e completou 1.521 apresentações.
Recebeu 13 indicações ao Tony e venceu seis, incluindo Melhor Atriz em Musical para Holliday.
Mais do que um sucesso de repertório, o espetáculo serviu como plataforma decisiva para parte de seu elenco.
A interpretação de Holliday transformou “And I Am Telling You I’m Not Going” em um fenômeno que atravessou os limites da Broadway. Sheryl Lee Ralph e Loretta Devine também seguiram construindo carreiras extensas no teatro, cinema e televisão.
Vinte e cinco anos depois, o cinema repetiria parcialmente o processo com Hudson.
E a produção de 2026 parece interessada justamente em descobrir se isso pode acontecer uma terceira vez.
A próxima Effie ainda pode ser uma desconhecida
Desde o anúncio do revival, a busca pelo elenco foi tratada como parte central do projeto.
A produção lançou uma seleção internacional aberta para encontrar as intérpretes de Effie, Deena e Lorrell, em vez de anunciar desde o início três estrelas estabelecidas para os papéis.
O planejamento divulgado incluía audições em Nova York, Los Angeles, Chicago, Atlanta, Detroit, Miami, Londres, Toronto, Cidade do México, Amsterdã, Roma e Paris, além de processos para artistas que não estivessem nas cidades escolhidas.
Chamadas presenciais chegaram a acontecer em cidades como Atlanta, Los Angeles e Nova York, enquanto a busca internacional continuou ao longo do desenvolvimento da produção.
O gesto faz sentido dentro da história do próprio título.
Jennifer Holliday não precisou herdar Effie de uma estrela anterior: ela ajudou a criar a personagem.
Jennifer Hudson chegou à adaptação cinematográfica sem uma carreira consolidada como atriz de cinema.
Amber Riley, por sua vez, assumiu Effie no West End em 2016 e venceu o Olivier de Melhor Atriz em Musical pela interpretação.
Três mulheres, em momentos diferentes, encontraram na mesma personagem um ponto de transformação profissional.
A próxima ainda não tem nome.
Camille A. Brown recebe as chaves de uma montagem de Michael Bennett
Se o elenco ainda está sendo construído, a principal escolha artística já está definida.
Camille A. Brown assina tanto a direção quanto a coreografia do revival.
Cinco vezes indicada ao Tony, Brown construiu uma trajetória na Broadway que passa por produções como Once on This Island, Choir Boy, Hell’s Kitchen e Gypsy.
Em 2022, fez história com for colored girls who have considered suicide/when the rainbow is enuf.
Ao assumir simultaneamente direção e coreografia da montagem, tornou-se a primeira mulher negra em mais de 65 anos a exercer as duas funções em uma produção da Broadway. A última havia sido Katherine Dunham, na década de 1950.
Agora Brown recebe uma obra em que movimento e encenação nunca foram exatamente elementos acessórios.
A produção original de Dreamgirls foi concebida por Michael Bennett, um dos nomes centrais da história da Broadway e criador de trabalhos como A Chorus Line. O novo projeto é anunciado justamente como a primeira montagem de Dreamgirls na Broadway com direção e coreografia inteiramente novas desde aquela produção.
Não significa que o musical tenha permanecido intocado desde 1981.
A turnê norte-americana retornou à Broadway em 1987, houve concertos e novas montagens em diferentes países, e a produção londrina de Casey Nicholaw redesenhou o espetáculo em 2016.
Mas uma nova equipe criativa começando novamente esse trabalho para a Broadway ainda não aconteceu.
Uma história sobre estrelas, que continua criando estrelas
Com músicas de Henry Krieger e texto e letras de Tom Eyen, Dreamgirls acompanha a trajetória de um grupo feminino negro em meio à indústria musical norte-americana das décadas de 1960 e 1970.
A história é ficcional, mas sua construção dialoga diretamente com o universo da Motown e com trajetórias de grupos como The Supremes e The Shirelles.
É uma narrativa sobre sucesso, ambição, relações raciais, padrões impostos pela indústria, transformação de imagem e sobre quem é escolhido, ou retirado, do centro do palco.
Effie sabe disso literalmente.
Quando sua voz, sua aparência e sua personalidade deixam de corresponder ao produto que os homens ao redor do grupo querem vender, ela é afastada das Dreams enquanto Deena assume cada vez mais o protagonismo.
É justamente dessa ruptura que nasce “And I Am Telling You I’m Not Going”.
Outras músicas como “One Night Only”, “I Am Changing” e a faixa-título sobreviveram para além das montagens específicas e ajudaram Dreamgirls a permanecer no repertório do teatro musical mais de quatro décadas depois da estreia.
Talvez seja também por isso que escalar esse espetáculo nunca seja apenas encontrar três atrizes capazes de cantar as músicas.
Há uma espécie de memória acumulada nesses papéis.
Jennifer Holliday virou referência como Effie em 1981.
Jennifer Hudson entrou num estúdio de cinema 25 anos depois e saiu com um Oscar.
Amber Riley chegou ao West End e recebeu um Olivier.
Em 2026, Hudson já não está esperando alguém decidir se ela pode interpretar Effie White.
Ela está entre as pessoas procurando a próxima.
O revival ainda não tem teatro.
Não tem nova data de estreia.
E não revelou quem serão suas três Dreams.
Por enquanto, a Broadway terá de esperar um pouco mais.
Mas talvez uma das perguntas mais interessantes sobre esse novo Dreamgirls continue exatamente onde estava:
Quem entra para fazer o teste, e sai de lá com a vida diferente?



