São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

Prêmio que reconheceu “Fleabag” e “Bebê Rena” anuncia os primeiros vencedores de 2026

Prêmio que reconheceu “Fleabag” e “Bebê Rena” anuncia os primeiros vencedores de 2026
Foto1: BBC / Two Brothers / Luke Varley - Foto2: Netflix / Divulgação

Fringe First escolhe seis espetáculos em sua primeira rodada deste ano, entre teatro palestino, musical com canções de KT Tunstall, adaptação de Andrew O’Hagan e uma peça sobre a dificuldade de sobreviver como artista

Muito antes de “Fleabag” se tornar uma das séries mais celebradas da televisão, Phoebe Waller-Bridge estava sozinha diante de uma pequena plateia em Edimburgo. A peça recebeu um Fringe First em 2013. Seis anos depois, outro espetáculo premiado pelo mesmo júri se chamava “Bebê Rena”, de Richard Gadd.

As duas obras atravessaram os limites do teatro e chegaram à televisão. Nesta sexta-feira, 14 de agosto, o prêmio anunciou os primeiros vencedores de 2026 e colocou seis novas produções sob uma atenção que, no Edinburgh Festival Fringe, costuma ser acompanhada de perto por produtores, programadores e profissionais do setor.

Criado em 1973 pelo jornal escocês The Scotsman, o Fringe First reconhece novas dramaturgias apresentadas durante o festival. Não existe uma única cerimônia no fim do mês nem um número fixo de vencedores. Os prêmios são distribuídos em rodadas ao longo de agosto, conforme os críticos assistem às produções em cartaz pela cidade.

Para concorrer, o trabalho precisa apresentar dramaturgia nova e atender aos critérios estabelecidos pelo prêmio. Adaptações também podem ser consideradas quando há transformação criativa significativa da obra original.

Neste primeiro anúncio de 2026, foram escolhidos “The Bridge”, “The Singer”, “Supposing”, “Toast”, “Bigfoot Ripped My Dog In Half I Saw It” e “Mayflies”.

Palestina, música e o custo de viver de arte

Em “The Bridge”, Alaa Shehada parte de uma travessia entre a Cisjordânia e a Jordânia para falar da experiência palestina, das fronteiras e de uma rotina em que deslocamentos relativamente curtos podem envolver controles, espera e checkpoints. O solo está em cartaz no Assembly Roxy.

“The Singer”, apresentado no Traverse Theatre, coloca música e língua de sinais no centro da história. Com canções de KT Tunstall, o espetáculo acompanha Joe, um artista surdo que canta com as mãos e sente a música fisicamente, e Andy, um músico em busca de uma nova oportunidade. A montagem utiliza inglês falado e língua britânica de sinais, a BSL, e tem direção de Cora Bissett.

O Traverse aparece novamente entre os premiados com “Supposing”, nova peça escrita e dirigida por Zinnie Harris. A trama começa quando uma mulher se convence de que sua casa foi atingida por uma maldição. Ninguém ao redor acredita nela, e a peça passa a brincar com os limites entre certeza, percepção e dúvida.

Entre os vencedores, “Toast” toca diretamente em uma discussão que ganhou força nesta edição do Fringe: a dificuldade financeira de continuar trabalhando com arte.

Criado e interpretado por Jude Green, o solo acompanha uma atriz tentando sobreviver entre trabalhos, agentes, empregadores e o sistema britânico de benefícios sociais. A comédia usa a precariedade econômica para questionar quanto uma sociedade afirma valorizar seus artistas e quanto está disposta a permitir que eles continuem produzindo.

O tema encontra eco num festival que passou as últimas semanas discutindo preços de hospedagem, custos de produção, venda de ingressos e a pressão financeira enfrentada por quem decide levar um espetáculo a Edimburgo.

Pé-Grande, desinformação e amizade

“Bigfoot Ripped My Dog In Half I Saw It” começa com duas adolescentes inventando aparições do Pé-Grande em uma comunidade dos Apalaches. A brincadeira ganha outra dimensão quando o cachorro de um vizinho aparece despedaçado e a cidade entra em estado de pânico.

Criada por Xhloe e Natasha, a montagem mistura teatro físico, bonecos e recursos brechtianos para falar de conspiração, desinformação e da distância entre acreditar ter visto alguma coisa e conseguir provar que ela aconteceu.

A dupla já conhece o Fringe First. Xhloe e Natasha receberam o prêmio em 2022, 2023 e 2024 e construíram parte importante de sua trajetória artística a partir das temporadas em Edimburgo.

“Mayflies” completa a primeira seleção.

A companhia escocesa Grid Iron levou o romance de Andrew O’Hagan para uma antiga fábrica de metal em Leith. Adaptada e dirigida por Ben Harrison, a produção acompanha dois amigos desde a juventude marcada pela música dos anos 1980 até a vida adulta, quando um diagnóstico de câncer terminal coloca a amizade diante da discussão sobre morte assistida.

Os seis espetáculos representam apenas a primeira rodada de 2026. Outros Fringe First serão anunciados ao longo do festival.

Receber o prêmio não garante transferência para Londres, adaptação audiovisual ou carreira internacional. A história, porém, ajuda a explicar por que os vencedores atraem atenção.

“Fleabag” deixou Edimburgo, passou por outras temporadas teatrais e transformou Phoebe Waller-Bridge em um dos principais nomes da televisão britânica. “Bebê Rena” seguiu para os palcos londrinos antes de ser adaptada por Richard Gadd para a Netflix e alcançar público mundial.

É por isso que, todos os anos, a lista do Fringe First acaba funcionando também como um radar para descobrir quais novas peças podem continuar fazendo barulho depois que agosto terminar em Edimburgo.

Quem aparece nesta matériaPhoebe Waller-BridgeRichard Gadd
TeatroRedação Foyer

Leia também

Mais de Teatro