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Por que “Into the Woods” continua voltando? Musical de Sondheim retorna ao West End após 35 anos

Por que “Into the Woods” continua voltando? Musical de Sondheim retorna ao West End após 35 anos
Foto: Johan Persson/Divulgação

Musical de Stephen Sondheim e James Lapine retorna ao West End após 35 anos em montagem vencedora do Olivier de Melhor Revival de Musical

Cinderela quer ir ao baile. João precisa vender sua vaca. Chapeuzinho Vermelho atravessa a floresta para visitar a avó. Rapunzel espera no alto de uma torre. Um padeiro e sua mulher querem ter um filho. Em “Into the Woods”, todo mundo deseja alguma coisa.

Conseguir o que se deseja é que complica a história.

Quase quatro décadas depois de estrear na Broadway, o musical de Stephen Sondheim e James Lapine está a caminho novamente de um dos principais palcos de Londres. A produção dirigida por Jordan Fein, apresentada inicialmente no Bridge Theatre, começa temporada no Noël Coward Theatre em 22 de setembro, marcando a primeira vez que “Into the Woods” ocupa oficialmente o West End desde 1991.

A transferência ganhou novo fôlego nesta semana com a divulgação do elenco completo da temporada. John Dagleish assume o Padeiro, Laura Pitt-Pulford interpreta sua mulher e Simbi Akande será Cinderela. Fiona Finsbury vive Rapunzel, Keith Ramsay interpreta João e Matthew Seadon-Young acumula os papéis do Príncipe de Cinderela e do Lobo. Entre os nomes que permanecem da montagem anterior está Kate Fleetwood, novamente como a Bruxa.

É um retorno que chega com peso adicional. A montagem recebeu 11 indicações ao Olivier Awards de 2026 e venceu duas delas: Melhor Revival de Musical e Melhor Design de Iluminação, prêmio dividido por Aideen Malone e Roland Horvath pelo trabalho de luz e vídeo. Jordan Fein, integrantes do elenco e o design de Tom Scutt também estiveram entre os indicados.

Mas talvez a pergunta mais interessante seja outra: por que continuamos entrando nessa floresta?

Um conto de fadas que termina no meio da história

Criado por Sondheim, responsável pelas músicas e letras, e por James Lapine, autor do texto, “Into the Woods” estreou em San Diego em 1986 e chegou à Broadway no ano seguinte. A montagem original ficou 765 apresentações em cartaz e conquistou três Tony Awards, incluindo Melhor Trilha Original e Melhor Libreto de Musical. Joanna Gleason também venceu como Melhor Atriz por sua interpretação da Mulher do Padeiro.

A princípio, a construção é quase um grande cruzamento de histórias conhecidas.

Cinderela, João e o Pé de Feijão, Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel dividem a floresta com personagens criados especificamente para o musical: um padeiro e sua mulher, impedidos de ter filhos por uma maldição lançada sobre a família. Para quebrá-la, precisam encontrar quatro objetos, e essa busca faz com que as diferentes narrativas se encontrem.

O primeiro movimento da obra parece obedecer à estrutura que aprendemos desde crianças. Os personagens identificam aquilo que desejam, enfrentam obstáculos e caminham em direção ao esperado final feliz.

Só que Sondheim e Lapine fazem uma escolha decisiva: eles não encerram a história quando os contos de fadas normalmente terminariam.

Quando os desejos são realizados, ainda existe vida pela frente.

É nesse ponto que “Into the Woods” deixa de ser apenas uma brincadeira sofisticada com os irmãos Grimm e revela aquilo que talvez explique sua permanência. A segunda parte pergunta o que acontece quando as escolhas de cada personagem começam a atingir os outros. Entram em cena responsabilidade, perda, culpa, desejo, parentalidade e a dificuldade de conciliar necessidades individuais com uma vida em comunidade.

O “felizes para sempre”, descobre-se, também produz consequências.

Uma obra que muda conforme o mundo ao redor dela muda

Essa estrutura permitiu que “Into the Woods” encontrasse novos significados sem precisar alterar seu texto fundamental.

A produção original surgiu nos Estados Unidos dos anos 1980, em meio à crise da AIDS. Sondheim e Lapine afirmaram que a obra não foi escrita como uma alegoria direta daquele período, mas a ideia de uma comunidade atingida por uma ameaça devastadora e obrigada a lidar coletivamente com perdas encontrou forte ressonância naquele contexto.

No revival da Broadway de 2002, aspectos semelhantes passaram a ser observados por uma sociedade ainda atravessada pelos ataques de 11 de Setembro. Já em montagens recentes, o musical voltou a ser lido a partir de temas como luto coletivo, responsabilidade social, famílias escolhidas e o impacto das decisões individuais sobre a vida comum.

Isso não significa que a obra precise representar uma tragédia específica para continuar atual.

A força está justamente na ausência de respostas confortáveis.

Querer alguma coisa não torna um personagem ruim. Conseguir aquilo que deseja também não significa que ficará bem. Pessoas tomadas como vilãs podem ter razões compreensíveis. Príncipes podem ser péssimos maridos. Pais tentando proteger os filhos podem machucá-los. E decisões aparentemente individuais conseguem provocar consequências que ninguém previa.

A moral dos contos de fadas, que normalmente parece bastante clara quando somos crianças, fica muito mais complicada quando todos os personagens precisam conviver depois dela.

Uma floresta bastante diferente em 2026

Jordan Fein não tentou transformar essa nova produção em uma desconstrução radical da obra.

Ao falar sobre o processo, o diretor contou que preferiu confiar no próprio material em vez de impor um conceito que modificasse sua estrutura. A atualização aparece principalmente na maneira como os personagens são tratados: menos como arquétipos de contos infantis e mais como pessoas que reconhecemos.

Para Fein, que conheceu “Into the Woods” ainda criança por meio da gravação da montagem original da Broadway, a obra passou a revelar algo diferente na vida adulta. Hoje, ele enxerga nela especialmente uma história sobre a passagem da infância para a maturidade e as dificuldades que acompanham esse processo.

O design de Tom Scutt acompanha essa escolha. No Bridge Theatre, os personagens entravam em uma floresta de grandes árvores construída para parecer suficientemente real, enquanto luz, vídeo e mudanças de atmosfera transformavam o mesmo espaço conforme as histórias ficavam mais sombrias. Figurinos misturavam referências dos séculos XV e XX, numa estética que o próprio Scutt resumiu como um encontro entre os anos 1480 e 1980.

Há referências muito menos medievais na construção dos personagens. Fein citou de príncipe William e príncipe Harry às Kardashians entre as imagens usadas durante o processo de ensaio. O espetáculo também flerta visualmente com filmes de terror como “Carrie” e “O Chamado”.

O resultado encontrou forte recepção crítica. A montagem foi elogiada justamente por equilibrar humor, terror, desejo e temas como luto, culpa, escolhas individuais e responsabilidade coletiva. Ou seja, por entender que “Into the Woods” não precisa escolher entre encantamento e desconforto.

Londres já entrou nessa floresta antes

A relação britânica com “Into the Woods” também ajuda a medir a permanência da obra.

A primeira montagem londrina estreou em 1990, dirigida por Richard Jones, com Julia McKenzie como a Bruxa e Imelda Staunton como a Mulher do Padeiro. Jones e Staunton venceram Olivier Awards pelo trabalho.

Depois vieram diferentes releituras fora do circuito comercial tradicional do West End. Em 1998, o Donmar Warehouse recebeu uma montagem dirigida por John Crowley, com Sophie Thompson, Sheridan Smith e um ainda pouco conhecido Damian Lewis. Em 2010, o Regent’s Park Open Air Theatre colocou literalmente a obra entre árvores e conquistou o Olivier de Melhor Revival de Musical. Em 2016, uma versão reduzida da Fiasco Theatre passou pelo Menier Chocolate Factory.

Do outro lado do Atlântico, um revival iniciado pelo New York City Center em 2022 acabou transferido para a Broadway, com nomes como Sara Bareilles, Patina Miller e Gavin Creel. A produção recebeu seis indicações ao Tony e depois saiu em turnê pelos Estados Unidos.

Entre essas montagens, a obra ainda ganhou uma das formas pelas quais se tornou conhecida por um público muito maior: a adaptação cinematográfica da Disney lançada em 2014, dirigida por Rob Marshall e estrelada por Meryl Streep, Emily Blunt, James Corden, Anna Kendrick e Chris Pine.

Ou seja: “Into the Woods” nunca exatamente desapareceu.

Por que voltar outra vez?

Talvez porque exista uma armadilha particularmente eficiente no musical.

Entramos reconhecendo as histórias.

Sabemos que Cinderela perderá um sapato, que João encontrará um gigante e que Chapeuzinho não deveria confiar no Lobo. Essa familiaridade cria a impressão de que sabemos também onde tudo aquilo vai terminar.

Sondheim e Lapine usam justamente essa segurança contra o público.

Porque crescer significa descobrir que nossos pais não sabem todas as respostas, que conseguir aquilo que desejávamos não resolve necessariamente a vida e que algumas escolhas não podem ser desfeitas. Significa também perceber que ninguém atravessa determinados momentos sozinho — uma ideia que ocupa espaço cada vez maior conforme os personagens deixam seus desejos individuais e precisam descobrir como permanecer juntos.

Jordan Fein apontou justamente esse movimento como um dos centros de sua montagem: a transformação do “eu” em “nós”, enquanto a história passa pela família escolhida e pela necessidade de comunidade.

É uma ideia simples. Talvez por isso sobreviva tão bem.

Trinta e cinco anos depois de sua última presença oficial no West End, “Into the Woods” volta sem precisar fingir que foi escrito agora. O mundo mudou, as referências mudaram, os artistas mudaram e o público certamente também.

Os desejos continuam bastante familiares.

E as consequências também.

Serviço

Into the Woods
Local: Noël Coward Theatre — Londres
Temporada: de 22 de setembro de 2026 a 9 de janeiro de 2027
Sessões: segunda a sábado, às 19h30; quintas e sábados, às 14h30
Duração: aproximadamente 2h40, com intervalo
Recomendação etária: 12 anos
Observação: a produção contém fumaça cênica, sons altos, flashes, efeitos de estrobo e períodos de escuridão total no auditório

Música e letras: Stephen Sondheim
Texto: James Lapine
Direção: Jordan Fein
Cenografia e figurinos: Tom Scutt

Elenco: Kate Fleetwood, Simbi Akande, Valda Aviks, Geoffrey Aymer, John Dagleish, Fiona Finsbury, Jennifer Hepburn, Hana Ichijo, Julie Jupp, Lucas Koch, Gabrielle Lewis-Dodson, Gracie McGonigal, Laura Pitt-Pulford, Jack Quarton, Keith Ramsay, Matthew Seadon-Young e Michael Siegel.

Ficha técnica

Música e letras: Stephen Sondheim
Texto: James Lapine
Direção: Jordan Fein
Cenografia e figurinos: Tom Scutt
Iluminação: Aideen Malone
Vídeo: Roland Horvath
Produção: London Theatre Company, em associação com Jamie Wilson Productions

Teatro MusicalIsabel Branquinha

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