Obra de Virginia Woolf vira espetáculo dentro de uma sauna que chega a 90°C
Experiência inspirada em “The Waves” mistura literatura, dança, vapor, aromas e mergulhos frios; público precisa levar roupa de banho para acompanhar a apresentação
O aviso para quem compra ingresso não é exatamente comum em uma bilheteria de teatro: leve roupa de banho.
Uma adaptação de “The Waves”, romance experimental publicado por Virginia Woolf em 1931, está sendo apresentada dentro de uma sauna de verdade. O espaço pode chegar perto dos 90°C e o público acompanha a obra entre vapor, aromas, movimentos coreografados e intervalos para se refrescar.
Batizada de “Aufguss x The Waves”, a experiência integra a programação do Sauna Theatre, instalado no Summerhall, em Edimburgo. A sessão dura 90 minutos e foi concebida para transformar elementos recorrentes na escrita de Woolf, como água, luz, passagem do tempo e percepção, em estímulos que deixam de existir apenas no texto e passam também pelo corpo.
Para entrar, espectadores precisam vestir roupa de banho.
A palavra aufguss dá uma pista sobre o que acontece lá dentro. Popular em saunas da Alemanha, Áustria e outros países europeus, a prática envolve colocar água e gelo aromatizados sobre pedras quentes. Em seguida, um profissional movimenta grandes toalhas para espalhar o vapor e os aromas pelo ambiente.
Na versão inspirada em Virginia Woolf, esses movimentos ganham caráter coreográfico. Trechos de “The Waves” surgem pelo sistema de som enquanto calor, luz e diferentes essências alteram a atmosfera da sala.
Não há palco de um lado e plateia do outro. O público ocupa os bancos de madeira da própria sauna, próximo dos performers e dos aquecedores. A experiência é dividida em três momentos de aufguss de aproximadamente dez minutos, intercalados por períodos de resfriamento. Duchas e mergulhos frios fazem parte do percurso.
Um espaço criado para espetáculos no calor
O Sauna Theatre foi criado pelo diretor James Grieve e pela cenógrafa Lucy Osborne, fundadores do Sauna Sessions Arts Club.
Com capacidade para cerca de 80 pessoas, o espaço se apresenta como o primeiro centro artístico do Reino Unido construído especificamente como sauna. Em vez de instalar peças convencionais dentro de um ambiente quente, a proposta é desenvolver trabalhos que já nasçam levando em conta temperatura, vapor, cheiro, som e a reação física do público.
A programação vai além do teatro e inclui música, literatura, DJs, performances e até raves matinais.
“The Waves” encontrou uma combinação particularmente curiosa nesse formato. Considerado um dos romances mais experimentais de Woolf, o livro acompanha seis personagens por meio de monólogos interiores, abandonando uma narrativa tradicional para construir uma sucessão de pensamentos, sensações e imagens.
O mar aparece constantemente na obra, assim como ciclos de luz, tempo e transformação. Dentro da sauna, algumas dessas referências deixam o campo da imaginação. Há água evaporando sobre pedras, mudanças bruscas de temperatura e um público que precisa lidar fisicamente com aquilo que está acontecendo ao seu redor.
A experiência também dividiu a crítica.
Nesta sexta-feira, 14 de agosto, o The Times incluiu “Aufguss x The Waves” entre os destaques teatrais do período e deu três estrelas à montagem. A avaliação reconheceu a originalidade da proposta, mas questionou quanto da complexidade literária de Woolf sobrevive à transformação do romance em experiência sensorial.
Outros críticos foram mais entusiasmados. O site britânico A Youngish Perspective deu cinco estrelas à produção e destacou justamente a combinação entre texto, calor, aromas e participação física do espectador.
Em um Edinburgh Festival Fringe com mais de quatro mil espetáculos disputando atenção durante agosto, a sauna encontrou uma maneira particularmente literal de aumentar a temperatura dessa concorrência.
“Aufguss x The Waves” segue em cartaz no Sauna Theatre, no Summerhall. A experiência completa dura 90 minutos, alternando literatura, performance, vapor, óleos essenciais e períodos de resfriamento.
E, neste caso, chegar ao teatro sem a roupa adequada pode significar esquecer o figurino mais importante da noite: o traje de banho.



