O teatro encontrou uma nova bilheteria: espetáculos filmados começam a conquistar os cinemas
# O teatro encontrou uma nova bilheteria: espetáculos filmados começam a conquistar os cinemas
“Hadestown” ultrapassa US$ 20 milhões nas salas e, nesta sexta-feira, “SIX” tenta repetir o caminho. Gravações profissionais de montagens teatrais começam a deixar o nicho e se transformar em produto de cinema
Durante muito tempo, filmar profissionalmente um espetáculo significava preservar uma montagem. O registro poderia parar em um arquivo, aparecer anos depois na televisão ou chegar ao público como material especial. Agora, esse tipo de produção começa a encontrar outro destino: a bilheteria dos cinemas.
“Hadestown: The Musical”, registro da montagem do musical de Anaïs Mitchell, ultrapassou US$ 20 milhões em arrecadação depois de chegar às salas norte-americanas em julho.
No primeiro fim de semana, o filme arrecadou cerca de US$ 9,7 milhões na América do Norte. A temporada, inicialmente prevista para durar apenas cinco dias, foi ampliada diante da procura.
Não se trata de uma adaptação cinematográfica de “Hadestown”. É o espetáculo.
A produção foi filmada no West End, em Londres, e reuniu novamente cinco dos principais nomes do elenco original da Broadway: Reeve Carney, Eva Noblezada, André De Shields, Amber Gray e Patrick Page. As câmeras registraram a encenação criada para o palco, preservando performances, cenografia, direção e estrutura teatral para a exibição posterior nos cinemas.
Esse tipo de registro costuma ser chamado de pro-shot, abreviação de professional shot. A prática existe há décadas. O que começa a mudar é o tamanho do público disposto a comprar um ingresso de cinema para assistir a essas produções.
“Hadestown” oferece uma comparação interessante justamente por não ocupar o mesmo lugar de fenômeno cultural alcançado por títulos como “Hamilton”. O musical venceu oito Tony Awards em 2019, incluindo o de melhor musical, e continua em cartaz na Broadway, mas o desempenho nas salas indica que existe mercado para o formato além dos casos excepcionais de popularidade.
De registro a lançamento comercial
O próximo teste começa nesta sexta-feira, 14 de agosto.
“SIX The Musical Live!” chega aos cinemas norte-americanos com distribuição da Focus Features, braço da NBCUniversal. A produção foi captada no Vaudeville Theatre, em Londres, e reúne as seis atrizes que formaram o elenco original do West End.
O musical, que transforma as seis mulheres de Henrique VIII em protagonistas de um espetáculo pop, já foi visto presencialmente por mais de 3,5 milhões de pessoas ao redor do mundo.
A presença de distribuidoras como Bleecker Street, responsável pelo lançamento de “Hadestown”, e Focus Features nessa operação ajuda a mostrar a mudança. O teatro filmado começa a receber estratégias de distribuição mais próximas das usadas para outros lançamentos de cinema.
“Hamilton” foi decisivo para ampliar esse caminho. A produção original da Broadway havia sido filmada em 2016 e ganhou alcance mundial quando chegou ao Disney+ em 2020, enquanto os teatros permaneciam fechados durante a pandemia. Anos depois, o mesmo registro foi levado às salas de cinema.
O fato de a produção já estar disponível para milhões de assinantes não eliminou o interesse pela experiência coletiva da tela grande.
Há uma razão prática para que esse modelo encontre público.
Assistir presencialmente a uma montagem da Broadway ou do West End está fora do alcance de boa parte das pessoas que acompanham esses espetáculos à distância. Para quem vive em outro país, o preço do ingresso pode ser apenas uma pequena parcela de uma conta que inclui passagem aérea, hospedagem e viagem.
Quando a mesma produção chega aos cinemas, essa escala muda.
O formato também preserva algo que uma adaptação cinematográfica normalmente transforma. Quem assiste ao registro de “Hadestown” encontra o palco, a cenografia, o elenco e a linguagem daquela montagem específica. A câmera aproxima o espectador, mas não tenta substituir o teatro por outro cenário ou reconstruir a história como um filme convencional.
Isso não torna as duas experiências equivalentes. A presença dos atores, a relação com a plateia e aquilo que pode acontecer de maneira diferente a cada sessão continuam pertencendo ao espetáculo ao vivo.
Mas o desempenho recente mostrou que preservar uma montagem pode ser apenas uma das funções de um pro-shot.
Mais de US$ 20 milhões depois, filmar um espetáculo também pode ser uma nova forma de distribuí-lo e vendê-lo.



