Núcleo Experimental revisita “As Troianas” e transporta tragédia de Eurípides para a Torre das Donzelas
Em comemoração aos 20 anos do grupo, montagem dirigida por Zé Henrique de Paula recontextualiza a obra de Eurípides em um presídio feminino durante a ditadura militar; temporada começa em 18 de agosto, em São Paulo
Uma tragédia escrita há mais de dois mil anos encontra um dos capítulos mais violentos da história brasileira em “As Troianas – música nas trevas”, nova montagem do Núcleo Experimental que estreia em 18 de agosto, na sede do grupo, na Barra Funda, em São Paulo.
Com adaptação e direção de Zé Henrique de Paula e direção musical, composições e arranjos de Fernanda Maia, o espetáculo parte de “As Troianas”, de Eurípides, mas desloca a ação da destruída cidade de Troia para a Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes que recebeu presas políticas durante a ditadura militar brasileira.
A temporada integra as comemorações dos 20 anos de trajetória do Núcleo Experimental e segue até 7 de outubro, às terças e quartas-feiras, às 20h. Todas as apresentações serão seguidas de conversa com o elenco.
O grupo já havia encenado o texto de Eurípides em 2009. Naquela montagem, indicada aos prêmios Shell, Cooperativa Paulista de Teatro e Quem em diferentes categorias, a tragédia era situada em um campo de concentração na Polônia, às vésperas do fim da Segunda Guerra Mundial.
Agora, o olhar volta-se para a história brasileira.
De Troia para a Torre das Donzelas
Escrita em 415 a.C., “As Troianas” acompanha as mulheres que sobrevivem à destruição de Troia. Hécuba, Andrômaca, Cassandra e as demais personagens aguardam o destino imposto pelos vencedores gregos: escravidão, exílio, separação de suas famílias e perda de qualquer autonomia sobre o próprio futuro.
Na nova montagem, esse conjunto de mulheres é aproximado das presas políticas mantidas na Torre das Donzelas, no Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura.
A criação tem como uma de suas referências o livro “A Torre: O cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura”, de Luiza Villaméa, que recupera experiências de mulheres presas pelo regime militar.
O paralelo construído pela encenação está na relação entre poder, violência de Estado e controle dos corpos femininos. Se, em Eurípides, as sobreviventes de Troia são reduzidas a espólios de guerra, a nova versão aproxima essa condição das formas específicas de repressão enfrentadas por mulheres durante a ditadura, incluindo tortura, violência sexual, ameaças contra familiares e tentativas de deslegitimar sua atuação política.
Há ainda um encontro entre história e teatro dentro da própria inspiração da montagem. Segundo o material de apresentação do espetáculo, presas da Torre das Donzelas chegaram a montar uma peça dentro da prisão, transformando a prática teatral em uma maneira de preservar vínculos, identidade e possibilidade de expressão em meio ao encarceramento.
É esse gesto que a nova versão procura recuperar.
A música como território de resistência
O coro feminino, elemento central da tragédia grega, também ganha outra função na montagem.
Sob direção musical de Fernanda Maia, as vozes das mulheres formam uma comunidade de presas que compartilha lembranças, medo, indignação e esperança. A música não aparece apenas como acompanhamento da ação, mas como parte da própria dramaturgia.
As composições dialogam com a canção de protesto brasileira e latino-americana, incluindo referências à Nueva Canción Latinoamericana e à produção musical criada durante períodos de repressão política.
“A música funciona como testemunho. Ela dá voz às ausências, às perdas e aos sonhos interrompidos, mas também à capacidade de reconstrução das mulheres diante da violência do Estado”, afirma Fernanda Maia no material de apresentação da montagem.
Essa escolha também estabelece uma continuidade com a primeira versão de “As Troianas” realizada pelo Núcleo Experimental. Em 2009, as personagens femininas se expressavam apenas por meio do canto, e o repertório partia de uma pesquisa sobre músicas de povos e etnias marcados pelo refúgio e pelo deslocamento.
Na remontagem de 2026, a música permanece como espaço de preservação da memória, mas passa a dialogar diretamente com a história política latino-americana.
Um espetáculo retomado 17 anos depois
A nova versão não procura simplesmente reconstruir a montagem de 2009. O texto de Eurípides permanece como ponto de partida, mas o deslocamento para o Presídio Tiradentes reorganiza as relações e os sentidos da obra.
O elenco reúne Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards.
Além da adaptação e direção, Zé Henrique de Paula assina cenografia e figurinos. A direção de movimento é de Gabriel Malo, com desenho de luz de Fran Barros, desenho de som de João Baracho e preparação vocal de Rafa Miranda.
Ao aproximar as mulheres derrotadas de Troia das brasileiras encarceradas durante a ditadura, a nova montagem usa uma tragédia de 415 a.C. para falar de mecanismos de violência e silenciamento que atravessam diferentes períodos históricos.
Mais do que atualizar Eurípides, “As Troianas – música nas trevas” coloca duas memórias de violência diante uma da outra e faz do canto coletivo uma forma de impedir que essas mulheres desapareçam novamente da história.
Ficha técnica
Adaptação e direção: Zé Henrique de Paula
Direção musical, composições e arranjos: Fernanda Maia
Elenco: Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards
Direção de movimento: Gabriel Malo
Assistência de direção: Anne Beatriz e Davi Tápias
Cenografia e figurinos: Zé Henrique de Paula
Assistência de figurinos: Ana Beatriz Trucharte
Desenho de luz: Fran Barros
Desenho de som: João Baracho
Preparação vocal: Rafa Miranda
Produção: Rebeca Reis
Design gráfico: Laerte Késsimos
Foto e vídeo: Pedro Veras (A Casa que Fala)
Realização: Núcleo Experimental – 20 anos
Serviço
As Troianas – música nas trevas
Temporada: 18 de agosto a 7 de outubro de 2026
Sessões: terças e quartas-feiras, às 20h
Local: Teatro do Núcleo Experimental
Endereço: Rua Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo
Ingressos: R$ 40, inteira, e R$ 20, meia-entrada
Venda: Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Capacidade: 65 lugares



