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A história do Theatro Municipal de São Paulo, o palácio lírico da Praça Ramos

A história do Theatro Municipal de São Paulo, o palácio lírico da Praça Ramos
Foto: Pedro Angelini/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Um teatro de ópera inspirado na Ópera de Paris, erguido sobre o antigo Morro do Chá para provar que a São Paulo do café podia rivalizar com as capitais europeias. Inaugurado em 12 de setembro de 1911, na Praça Ramos de Azevedo, o Theatro Municipal de São Paulo se tornou o endereço mais simbólico da vida artística paulistana. Foi em seu palco que a Semana de Arte Moderna sacudiu o país em 1922, e por ali passaram nomes como Enrico Caruso, Maria Callas, Anna Pavlova e Mikhail Baryshnikov.

Como nasceu o teatro que a elite do café queria à altura da Europa

A ideia de uma casa dedicada à ópera começou a tramitar na Câmara Municipal em 1895, mas travou. O impulso decisivo veio em 1898, depois que um incêndio destruiu o Theatro São José. Naquele ano, a Câmara aprovou a Lei nº 336, de 24 de janeiro de 1898, que oferecia isenção de impostos por 50 anos a quem construísse novos teatros na capital.

O terreno escolhido foi o Morro do Chá, o mesmo que abrigara o São José. O projeto coube a Cláudio Rossi, com desenhos de Domiziano Rossi, e a construção ficou a cargo do Escritório Técnico de Ramos de Azevedo, nome por trás de boa parte da São Paulo monumental do período. As obras começaram em 26 de junho de 1903 e se estenderam até 1911.

O estilo é o ecletismo, em voga na Europa desde a segunda metade do século XIX, com uma mistura de referências renascentistas, barrocas e art nouveau. A inspiração declarada era a Ópera de Paris. Por trás de tudo, a aristocracia cafeeira queria um cartão de visitas que apagasse o passado provinciano da cidade.

Uma inauguração adiada e 20 mil curiosos na praça

A abertura estava marcada para 11 de setembro de 1911, mas precisou ser empurrada em um dia. Os cenários da companhia de Titta Ruffo, em turnê pela Argentina, atrasaram para chegar a São Paulo. Na noite de 12 de setembro, o Theatro Municipal enfim abriu as portas com a ópera Hamlet, do francês Ambroise Thomas.

O entorno virou atração à parte. Cerca de 20 mil pessoas se aglomeraram na praça para ver a fachada iluminada por energia elétrica, uma novidade rara na cidade daquele começo de século. A sala principal, com capacidade atual para 1.523 lugares, foi concebida para receber as grandes companhias líricas internacionais, que até então só desembarcavam no Rio de Janeiro.

O palco onde a Semana de Arte Moderna explodiu

Onze anos depois da inauguração, o teatro entrou de vez para a história cultural do país. De 11 a 18 de fevereiro de 1922, o Municipal sediou a Semana de Arte Moderna, com uma exposição e três noites de apresentações, nos dias 13, 15 e 17. O evento reuniu Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Menotti Del Picchia e Heitor Villa-Lobos, entre outros. Tarsila do Amaral, hoje associada ao movimento, não participou: estava na Europa e soube de tudo por cartas.

A programação provocou reações acaloradas da plateia acostumada à arte acadêmica, e a Semana acabou consagrada como o marco inicial do modernismo brasileiro. O teatro feito para a ópera importada passava a abrigar também a ruptura estética que buscava uma identidade nacional.

Reformas, escândalos e o restauro do centenário

Ao longo do século XX, o prédio passou por intervenções sucessivas. A primeira grande reforma ocorreu entre 1952 e 1955, na gestão do prefeito Jânio Quadros, para as comemorações do IV Centenário da cidade. A sala de espetáculos foi reconstruída, e os camarotes de proscênio deram lugar a um órgão de tubos G. Tamburini. Décadas depois, entre 1986 e 1991, uma nova restauração sob responsabilidade do Patrimônio Histórico do Município devolveu ao interior características do projeto original. O edifício já havia sido tombado pelo Condephaat em 1981.

A intervenção mais complexa veio às vésperas do centenário. Iniciadas em 2008 e concluídas em novembro de 2011, as obras refizeram acústica, mecânica cênica e o fosso da orquestra, restauraram pinturas antigas e mais de 14 mil vitrais, e recuperaram o vermelho como cor predominante da plateia. No mesmo ano, a administração passou à Fundação Theatro Municipal de São Paulo, gerida a partir de 2013 pelo Instituto Brasileiro de Gestão Cultural. O modelo naufragou: em 2016, escândalos de gestão levaram ao afastamento do maestro John Neschling da direção artística, e, em 2017, a Justiça devolveu o comando do teatro à Prefeitura.

Os corpos artísticos e o teatro hoje

O Municipal deixou de depender só de companhias estrangeiras e passou a manter elenco próprio. Hoje abriga a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, o Coro Lírico Municipal, o Balé da Cidade de São Paulo, o Coral Paulistano Mário de Andrade, a Orquestra Experimental de Repertório e o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. Em 2012, ganhou um anexo, a Praça das Artes, complexo que reúne salas de ensaio e as escolas municipais de música e de dança.

Ao lado de casas como o Teatro Amazonas, o Municipal segue entre os principais palcos líricos do Brasil, com uma programação que vai da ópera tradicional, caso de O Navio Fantasma, a projetos que ocupam espaços históricos do prédio, como a instalação Na Sala dos Espelhos na cúpula. Mais de um século depois da estreia de Hamlet, o palácio da Praça Ramos continua sendo o lugar onde São Paulo se olha no espelho da própria história.

Perguntas rápidas

Quando o Theatro Municipal de São Paulo foi inaugurado? Em 12 de setembro de 1911, com a ópera Hamlet, de Ambroise Thomas. A abertura, prevista para o dia 11, foi adiada em 24 horas por causa do atraso dos cenários da companhia de Titta Ruffo, que vinha da Argentina.

Por que o Theatro Municipal é importante na história das artes? Além do valor arquitetônico, foi o palco da Semana de Arte Moderna, de 11 a 18 de fevereiro de 1922, considerada o marco inicial do modernismo no Brasil.

Qual é a capacidade do Theatro Municipal? A sala de espetáculos tem capacidade para 1.523 pessoas. O projeto, em estilo eclético, foi inspirado na Ópera de Paris.

Quem projetou o Theatro Municipal de São Paulo? O projeto foi de Cláudio Rossi, com desenhos de Domiziano Rossi, e a construção ficou a cargo do Escritório Técnico de Ramos de Azevedo, entre 1903 e 1911.

TeatroRedação Foyer

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