Theatro José de Alencar: a história do teatro de ferro escocês que Fortaleza ergueu em 1910
O Theatro José de Alencar chegou a Fortaleza em pedaços. Em 6 de junho de 1908, dois anos antes da inauguração, toda a estrutura metálica do futuro Theatro José de Alencar já estava na capital cearense e foi exibida numa exposição em praça pública. As peças vinham de Glasgow, na Escócia, importadas pela Casa Boris e fundidas pela Walter Mac Farlane & Co. Os dados constam de levantamento publicado pelo Diário do Nordeste em junho de 2020, feito com apoio da direção do teatro.
Erguido entre 1908 e 1910 sobre projeto do engenheiro militar Bernardo José de Melo, o conjunto tem 3,8 mil metros quadrados de área construída, segundo a ficha do bem no Mapa Cultural do Ceará, plataforma da Secretaria da Cultura do Estado. A inauguração aconteceu em 17 de junho de 1910 e, em 1964, o Theatro foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Uma fachada art nouveau e um palco que só estreou em setembro
A ficha oficial descreve duas construções emendadas. À frente, um foyer de dois pavimentos em alvenaria e pedra, com pórtico de quatro colunas e frontão decorado com pináculos. Atrás, a sala de espetáculos, onde a alvenaria convive com a estrutura de ferro decorado que forma frisas, camarotes e varandas externas. A fachada dessa segunda construção é art nouveau, com frontão vedado em vidro e ornamentado com símbolos da música e do teatro. As cadeiras da plateia são de palhinha, e o forro do teto é de madeira pintada.
O aniversário da casa é 17 de junho, mas o palco só recebeu a primeira apresentação teatral em 23 de setembro de 1910, com O Dote, de Artur Azevedo, encenado pela companhia Dramática Lucilla Perez.
Cada um dos 19 camarotes, de seis lugares, leva o nome de uma obra de José de Alencar, de Cinco Minutos a Senhora, passando por Lucíola, Diva e Ubirajara.
Nos primeiros anos, no lugar do lustre havia uma pintura do sol no teto. Com a chegada da energia elétrica, em 1919, o sol pintado deu lugar ao lustre, montado com pequenas estruturas em volta das lâmpadas para que a luz se espalhasse como raios. O foyer também teve outras vidas: chegou a abrigar o plenário da Câmara Municipal de Fortaleza e a Biblioteca Carlos Câmara.
O jardim de Burle Marx, que demorou décadas
O projeto original previa um teatro-jardim, com área verde no pátio central, mas não havia espaço para isso quando a obra saiu.
A parte verde só chegou décadas mais tarde, assinada por Roberto Burle Marx (1909-1994), e o ano exato varia conforme a fonte: o Diário do Nordeste e a Wikipédia situam o jardim na reforma de 1975; o mesmo jornal, em reportagem de 2024, associa a concretização do teatro-jardim à reforma de 1973, no governo César Cals; e a ficha do Mapa Cultural do Ceará lista 1974 entre as reformas do prédio, sem datar a área verde. Pelo levantamento do Diário do Nordeste, foi ali que o equipamento se tornou "o primeiro e único teatro com jardim do Brasil".
O jardim reúne mais de 50 espécies de plantas dos cinco continentes, entre cajueiro, juazeiro, pau-brasil e pau-ferro, além de uma tumbérgia de mais de dez metros de altura que o jornal descreve como a maior cascata verde do Ceará. O conjunto paisagístico também é tombado.
O restauro que mudou o teatro por dentro
A ficha do Mapa Cultural do Ceará registra reformas em 1918, 1938, 1956 e 1974, e aponta a de 1990/91 como a mais importante. Naquela intervenção o prédio ganhou um anexo com centro técnico e ar refrigerado. Duas colunas saíram, para ampliar o campo de visão da plateia, e a sala foi vedada contra ruídos externos. As antigas instalações da Faculdade de Odontologia da UFC entraram no complexo, somando mais três palcos.
O trabalho foi conduzido a partir de 1989, na gestão de Violeta Arraes (1926-2008) à frente da Secretaria da Cultura do Estado. Em reportagem publicada pelo Diário do Nordeste em março de 2024, a gestora-executiva do Theatro, Natália Escóssia, disse que foi a primeira reforma a dedicar atenção aprimorada à caixa cênica e a contemplar a área técnica de forma significativa, com a liberação das coxias, onde antes ficavam os camarins. O Centro de Artes Cênicas, o CENA, foi inaugurado em 1991.
Na mesma reforma, a raspagem da pintura do teto, a "Céu aberto", revelou uma figura até então desconhecida: a cabeça de um homem negro, provavelmente jovem. O significado nunca foi estabelecido.
Depois disso, só em 2005 houve nova reforma, breve, alcançando coberta, fachadas, foyer, palco, plateia, camarotes e camarins.
O que a casa pede agora
Em março de 2024, o Theatro foi selecionado pelo novo Programa de Aceleração do Crescimento entre 105 equipamentos com tombamento federal contemplados em recuperação de patrimônio. Os R$ 328,5 mil previstos cobrem apenas a elaboração dos projetos de engenharia e arquitetura, não a obra.
"Por se tratar de um prédio centenário e tombado em nível federal, a elaboração desses projetos deve ser feita por empresa especializada na área de restauro e aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Apenas depois de prontos, será estudada a viabilização da reforma", disse Natália Escóssia ao Diário do Nordeste.
Quando o Theatro completou 115 anos, em 17 de junho de 2025, a secretária da Cultura do Ceará, Luisa Cela, afirmou ao mesmo jornal que a grande necessidade da casa é um restauro integral da estrutura, com modernização. Ela estimou o investimento em mais de R$ 20 milhões e citou entre os caminhos de captação a Lei Rouanet e estatais como Petrobras e BNDES. Na mesma semana, começaria uma manutenção de quase R$ 1,2 milhão na coberta e nas instalações do anexo.
Enquanto os projetos avançam, uma equipe de professores e alunos da UFC fez o levantamento tridimensional de toda a estrutura, com drones e escaneamento a laser, gerando um modelo que servirá de base para manutenções e restauros futuros. A Agência UFC apresentou o Theatro como "o primeiro do Brasil a ganhar modelo em 3D de alta precisão", numa etapa custeada com R$ 540 mil da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
O ator Silvero Pereira, nascido em Mombaça, contou ao Diário do Nordeste que assistiu ao primeiro espetáculo de teatro da vida no Morro do Ouro, o anexo do TJA, e que foi dali que saiu a decisão de cursar artes cênicas. Hoje o complexo é operado pelo Instituto Dragão do Mar e abriga curso de formação, biblioteca, galeria e oficinas.
O FOYER já contou a história de outra casa centenária, a do Teatro Amazonas. E também a das regras não escritas que sobrevivem nesses prédios, caso da luz fantasma do palco vazio.


