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Teatro Foyer

“Helenas” volta ao Espaço dos Satyros para discutir violência de gênero a partir da Inquisição

“Helenas” volta ao Espaço dos Satyros para discutir violência de gênero a partir da Inquisição
Foto: Tai Zatolinni

Remontagem do Satyros Laboratório revisita espetáculo inspirado no “Malleus Maleficarum” e fica em cartaz às quintas-feiras, na Praça Roosevelt

O Satyros Laboratório, Turma 01 está de volta ao Espaço dos Satyros com “Helenas”, espetáculo inspirado no “Malleus Maleficarum — O Martelo das Feiticeiras” para discutir a violência histórica e contemporânea contra as mulheres. A montagem fica em cartaz até 1º de outubro, sempre às quintas-feiras, às 20h30, na Praça Roosevelt, em São Paulo.

Dez anos depois do início do processo de pesquisa que deu origem ao espetáculo, o grupo revisita uma das obras mais marcantes de sua trajetória. Parte do elenco original retorna ao lado de novos artistas, em uma remontagem que não se limita a recuperar o passado. A proposta é olhar novamente para o material, agora atravessado por outro tempo, outras urgências e um cenário social em que a violência de gênero segue ocupando o centro do debate público.

Quando estreou, em 2017, “Helenas” já estabelecia um paralelo entre a perseguição às chamadas bruxas e as diferentes formas de controle, silenciamento e violência dirigidas às mulheres. Quase uma década depois, esse diálogo se tornou ainda mais incômodo. A peça retorna em um país que segue registrando índices alarmantes de feminicídio, violência doméstica, ameaças, perseguição e descumprimento de medidas protetivas.

O ponto de partida é o “Malleus Maleficarum”, tratado publicado em 1486 por Heinrich Kraemer e James Sprenger. Associado historicamente à perseguição de pessoas acusadas de bruxaria, sobretudo mulheres, o texto funciona na montagem como documento e símbolo: não apenas um registro de violência do passado, mas uma chave para pensar como certas estruturas de acusação, punição e controle do corpo feminino atravessam os séculos.

“Helenas” não trata a Inquisição como período distante e encerrado. O espetáculo parte dela para observar permanências. A figura da bruxa, historicamente construída como ameaça, desvio e perigo, reaparece como imagem de mulheres que desafiam normas, ocupam espaços, reivindicam autonomia ou simplesmente recusam o lugar que lhes foi imposto.

A dramaturgia é coletiva e nasce do próprio processo de investigação do Satyros Laboratório. Essa origem aparece na forma da montagem, que valoriza o trabalho de grupo, a presença coral e a construção cênica como campo de confronto. Em vez de narrar uma história única, “Helenas” propõe uma experiência atravessada por fragmentos, imagens e vozes.

A direção é de Gustavo Ferreira, com coordenação de Rodolfo García Vázquez e assistência de direção de Diego Rifer. No elenco estão Alessandra Nassi, Alex de Felix, Anna Paula Kuller, Elisa Barboza, Gabriel Mello, Heyde Sayama, Isabela Cetraro, Ju Alonso, Karina Bastos, Maiara Cicutt, Tai Zatolinni e Vitor Lins.

Durante sua trajetória, “Helenas” permaneceu em cartaz por seis temporadas ao longo de três anos consecutivos, consolidando-se como um dos trabalhos reconhecidos do Satyros Laboratório. O retorno, agora, funciona também como reencontro de artistas que participaram da pesquisa original com uma nova geração de intérpretes.

Essa combinação interessa porque impede que a remontagem seja apenas reprodução. O espetáculo volta carregando sua memória, mas também precisa responder ao presente. O que significava encenar “Helenas” em 2017 não é exatamente o mesmo que significa encená-lo em 2026. O país mudou, os debates mudaram, os dados se agravaram e as formas de violência passaram a ocupar novos espaços, inclusive digitais.

O Satyros Laboratório é o núcleo de pesquisa cênica da Cia. de Teatro Os Satyros. Formado por artistas oriundos das Oficinas Livres de Interpretação da companhia, o grupo funciona como espaço de experimentação, criação coletiva e investigação de linguagem. Em “Helenas”, essa vocação aparece diretamente no modo como o espetáculo constrói uma ponte entre documento histórico, corpo em cena e urgência social.

Fundada em 1989 por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, a Cia. de Teatro Os Satyros tem uma trajetória ligada à pesquisa, à criação coletiva e à ocupação artística da Praça Roosevelt. Desde a inauguração de sua sede na região, em 2000, a companhia tornou-se uma das presenças fundamentais da cena paulistana, articulando espetáculos, formação, festivais, cinema e projetos de experimentação.

“Helenas” retorna dentro dessa tradição de teatro que não separa forma e posicionamento. A peça olha para um documento do século XV para discutir um problema que continua contemporâneo: a dificuldade histórica de sociedades patriarcais em lidar com mulheres que escapam ao controle, à obediência e ao silêncio.

O título no plural também importa. Não há apenas uma Helena. Há muitas. A mulher acusada, a mulher punida, a mulher observada, a mulher silenciada, a mulher que resiste, a mulher que sobrevive e a mulher que não pôde sobreviver. Ao reunir essas presenças, o espetáculo transforma a cena em espaço de memória, denúncia e elaboração coletiva.

Mais do que revisitar uma obra da própria história do Satyros Laboratório, a remontagem pergunta o que ainda não fomos capazes de interromper. Se o passado segue produzindo ecos no presente, “Helenas” volta ao palco para rasgar essa continuidade e expor suas engrenagens.

Sinopse

Inspirado no “Malleus Maleficarum — O Martelo das Feiticeiras”, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado em 1486, “Helenas” aborda a vida das mulheres a partir de um dos documentos mais violentos associados à perseguição de pessoas acusadas de bruxaria.

O tratado, historicamente usado como referência para identificar, capturar, obter confissões sob tortura e exterminar pessoas acusadas de heresia, serve como ponto de partida para uma reflexão sobre a violência contra mulheres, ontem e hoje.

Serviço

Helenas
Direção: Gustavo Ferreira
Coordenação: Rodolfo García Vázquez
Realização: Satyros Laboratório

Temporada: até 1º de outubro de 2026
Sessões: quintas-feiras, às 20h30

Local: Espaço dos Satyros
Endereço: Praça Roosevelt, 214 — Consolação, São Paulo — SP

Ingressos: R$ 50 inteira | R$ 25 meia-entrada
Valor promocional: R$ 5 para moradores da Praça Roosevelt, somente na bilheteria física, mediante comprovante de endereço
Duração: 75 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: drama
E-mail: helenasteatro@gmail.com
Instagram: @helanas.teatro

Aviso de conteúdo sensorial: o espetáculo contém sequências com flashes de luz que podem afetar espectadores suscetíveis, incluindo pessoas com epilepsia ou sensibilidade à luz.

Ficha técnica

Direção: Gustavo Ferreira
Coordenação: Rodolfo García Vázquez
Assistência de direção: Diego Rifer
Dramaturgia: coletiva

Elenco: Alessandra Nassi, Alex de Felix, Anna Paula Kuller, Elisa Barboza, Gabriel Mello, Heyde Sayama, Isabela Cetraro, Ju Alonso, Karina Bastos, Maiara Cicutt, Tai Zatolinni e Vitor Lins

Cenário: Elisa Barboza, Heyde Sayama e Maiara Cicutt
Cenotecnia: Franja Cicutt
Assistência de cenário: Débora Ferreira
Figurinos: Elisa Barboza, Heyde Sayama, Pedro Octaviano Torriani e Tai Zatolinni
Iluminação: Diego Rifer
Trilha sonora original: Marcelo Nassi
Visagismo: Pedro Octaviano Torriani
Voz em off da cena “Flores”: Isa Tucci
Operação de luz: Laís Junqueira
Operação de som: Leo Carvalho
Pré-produção: Isa Tucci
Produção executiva: Ju Alonso e Maiara Cicutt
Realização: Satyros Laboratório

Quem aparece nesta matériaIvam CabralRodolfo García Vázquez
TeatroIsabel Branquinha

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