Filmado em segredo por três anos, documentário sobre Elizabeth Holmes vira evento de bilheteria
"You Can See Everything", de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, fez cerca de US$ 15 milhões em apenas 855 cinemas no primeiro fim de semana, a maior abertura de um documentário não musical em duas décadas.
Mais de 70% do público tinha menos de 35 anos. Não há data de estreia no Brasil.
Um documentário de 2 horas e 55 minutos sobre Elizabeth Holmes produziu uma das maiores surpresas recentes da bilheteria norte-americana. “You Can See Everything”, dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, arrecadou cerca de US$ 15 milhões em seu primeiro fim de semana nos Estados Unidos e no Canadá, exibido em 855 cinemas.
O resultado colocou o filme em segundo lugar no ranking, atrás apenas de “Street Fighter”, que fez US$ 31 milhões em 3.575 salas. Ou seja, o documentário ficou perto da metade da arrecadação do primeiro colocado com menos de um quarto dos cinemas.
Foi a maior abertura de um documentário não musical em cerca de duas décadas, desde os quase US$ 24 milhões de “Fahrenheit 11 de Setembro”, em 2004, e a maior estreia de um filme lançado em menos de mil cinemas desde “Borat”, em 2006. A média por sala ficou em torno de US$ 17,5 mil.
Mais de 2 mil sessões esgotadas
A A24 informou que o documentário teve mais de 2 mil sessões esgotadas no primeiro fim de semana, e as pesquisas do PostTrak indicaram índice excepcionalmente alto de recomendação entre quem assistiu.
No papel, havia razões para esperar uma estreia bem menor. O filme é longo, não pertence a franquia alguma e revisita uma história que já rendeu livros, podcasts, reportagens, documentários e a série “The Dropout”. As projeções anteriores ao fim de semana apontavam uma abertura entre US$ 7 milhões e US$ 8 milhões. Veio quase o dobro.
Trinta e quatro dias antes da prisão
As filmagens começaram quando Holmes permitiu que Fielder, Oppenheim e uma pequena equipe acompanhassem os 34 dias anteriores à sua entrada na prisão, em maio de 2023.
Fundadora da Theranos, Holmes havia construído uma das startups mais celebradas do Vale do Silício prometendo uma tecnologia capaz de realizar diversos exames a partir de pequenas quantidades de sangue. A empresa desmoronou depois que investigações revelaram discrepâncias entre as promessas e o funcionamento real da tecnologia. Em 2022, ela foi condenada por quatro acusações relacionadas a fraude contra investidores.
O que começou como registro do último mês dela em liberdade se transformou em um projeto de três anos. Durante quase todo esse período, a existência do filme permaneceu em segredo.
Telluride transformou o segredo em campanha
A revelação só aconteceu em setembro. O documentário apareceu como sessão-surpresa no Festival de Telluride, sem que o público soubesse qual filme seria exibido. Os espectadores tiveram de guardar os celulares em bolsas lacradas, e seguranças com dispositivos de visão noturna monitoravam possíveis gravações dentro da sala.
Quando o título foi revelado, a própria existência do documentário virou notícia. Pouco depois, o filme entrou na programação do New York Film Festival e passou a construir uma campanha baseada menos em explicar o conteúdo e mais em pedir ao público que preservasse as surpresas.
O diretor também é parte da atração
Holmes é uma das razões da curiosidade, mas os números indicam que ela não explica tudo. Fielder construiu uma audiência bastante engajada com projetos como “Nathan for You”, “The Rehearsal” e “The Curse”, trabalhos em que realidade, performance e manipulação se confundem.
Aqui ele também aparece diante da câmera. O documentário começa como tentativa de compreender Holmes e progressivamente incorpora a dificuldade dos próprios cineastas em determinar quando o que registram é espontâneo, calculado ou performado para eles. É uma abordagem próxima da linguagem que o tornou figura cult entre o público mais jovem, o que ajuda a explicar os mais de 70% de espectadores abaixo dos 35 anos.
Três horas deixaram de ser impedimento
O desempenho contraria outro pressuposto recorrente da indústria, o de que filmes longos enfrentam maior resistência comercial. Com 175 minutos, o documentário limita o número de sessões que cada sala consegue realizar por dia, e mesmo assim houve milhares de sessões lotadas.
Histórias sobre fraudes e escândalos empresariais se tornaram terreno fértil para o streaming, e este filme parecia adequado ao comportamento de esperar alguns meses e assistir em casa. A A24 tentou vender outra coisa: uma experiência que perderia parte do impacto se fosse descoberta por spoilers antes da sessão.
O resultado, porém, dificilmente se converte em fórmula. Holmes é uma figura amplamente conhecida, Fielder tem público fiel, o filme foi produzido em segredo por anos e chegou aos cinemas com recepção crítica excepcional. Poucos documentários reúnem todos esses elementos ao mesmo tempo.
Serviço
You Can See Everything
Direção: Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Distribuição: A24
Duração: 175 minutos
Estreia nos cinemas norte-americanos em 16 de outubro de 2026
Primeiro fim de semana: cerca de US$ 15 milhões em 855 salas, com média de aproximadamente US$ 17,5 mil por cinema
Sem data de lançamento confirmada no Brasil
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