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“Feliz Ano Velho” chega ao musical com rock, vídeo ao vivo e uma nova investigação sobre o corpo

“Feliz Ano Velho” chega ao musical com rock, vídeo ao vivo e uma nova investigação sobre o corpo
Foto: Isabel Branquinha/ Foyer

Nova adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva estreia em setembro, em São Paulo, com Hugo Bonemer, Heloisa Périssé e Bruno Garcia; montagem aposta em vídeo ao vivo, rock brasileiro e pesquisa de movimento com referências da dança em cadeira de rodas

Em 1983, quando Feliz Ano Velho chegou pela primeira vez ao teatro, uma escada de oito metros ocupava o palco. Marcos Frota, então intérprete de Marcelo Rubens Paiva, subia a estrutura antes de reproduzir cenicamente o mergulho que mudaria para sempre a trajetória do escritor. Era uma imagem de risco, queda e ruptura, numa montagem dirigida por Paulo Betti que misturava circo, comédia, romance, sexo, drogas, rock e drama.

Quarenta e três anos depois, a ideia da escada atravessa novamente Feliz Ano Velho. Mas mudou de lugar e, principalmente, de significado.

Na nova adaptação musical, que estreia em 19 de setembro no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, as estruturas e os degraus surgem no processo coreográfico a partir de uma conversa sobre acessibilidade. Durante a coletiva de apresentação do espetáculo, a equipe relatou uma pesquisa desenvolvida em contato com um grupo de dança em cadeira de rodas e contou a história de uma associação da Zona Leste paulistana que construiu um terraço acessível para que seus bailarinos e atletas cadeirantes pudessem observar o pôr do sol na mesma altura que as demais pessoas.

Da experiência veio uma das ideias que orientam a fisicalidade da montagem: avançar “um passo de cada vez, ao degrau de cada vez”.

A coincidência entre as duas escadas, a de 1983 e a pensada no processo de 2026, não significa que uma reproduza conscientemente a outra. Mas oferece uma chave especialmente reveladora para entender o que a nova montagem parece querer fazer com um livro publicado há mais de quatro décadas: em vez de reconstruir o passado, procurar uma linguagem contemporânea para falar de um corpo que precisa descobrir novamente sua relação com o mundo.

O movimento depois da imobilidade

Publicado em 1982, Feliz Ano Velho nasceu da experiência de Marcelo Rubens Paiva depois do acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos. O livro permaneceu durante anos nas listas de mais vendidos, recebeu o Prêmio Jabuti, ultrapassou 1,5 milhão de exemplares e ganhou adaptações para diferentes linguagens. A própria Companhia das Letras destaca como uma das marcas da obra a maneira irreverente e bem-humorada com que o autor narra a experiência, afastando-se da autopiedade e do melodrama.

Essa recusa em reduzir Marcelo à condição de vítima também aparece nas discussões da nova montagem. Em determinado momento da coletiva, ao falar da construção do personagem, a equipe reforça que ele não é apresentado “em nenhum momento [como] uma vítima”.

É uma diferença importante. A tentação mais evidente diante de Feliz Ano Velho seria organizá-lo como uma narrativa convencional de superação. O processo descrito pelos criadores aponta para um caminho mais complexo: colocar em cena o que acontece quando movimento, autonomia, desejo, sexualidade e percepção do próprio corpo precisam ser reorganizados.

Por isso, a coreografia não está sendo pensada prioritariamente como uma sucessão de números de dança. Na coletiva, Gabriel Malo, coreógrafo do espetáculo, descreve um trabalho construído a partir de “planos” e “sensações físicas”, em que o movimento existe mesmo quando determinadas articulações não respondem como antes. “Mesmo com o corpo não podendo se mexer [...] ele está sempre se movendo”, afirma uma das falas registradas no encontro.

A pesquisa foi alimentada pelo contato com pessoas que praticam dança em cadeira de rodas. O dado torna-se particularmente relevante porque desloca a deficiência de um recurso puramente dramatúrgico para uma discussão sobre como o próprio espetáculo organiza os corpos no espaço.

Uma janela para “o mundo lá fora”

O corpo não é o único elemento que a montagem parece ressignificar.

Outra imagem retirada diretamente do livro guiou a criação cenográfica. Durante a coletiva, Natália Lana, Cenógrafa do espetáculo, recordou uma passagem em que Marcelo manifesta o desejo de observar o que existe além de sua condição imediata: “Eu quero ver o mundo lá fora”. A partir dela, surgiu a ideia de trabalhar com uma grande vidraça, tratada também como elemento escultórico.

O cenário inclui ainda uma espécie de “caixa-casa”, entradas laterais e estruturas móveis utilizadas como objetos de cena. Hospital e casa, portanto, não aparecem necessariamente como ambientes naturalistas fechados, mas como espaços que podem ser reorganizados diante do público.

A montagem acrescenta a essa arquitetura um elemento inexistente na encenação de quatro décadas atrás: câmeras.

O projeto prevê captação de vídeo ao vivo para criar aquilo que a própria equipe definiu como uma linguagem de “cinema-teatro” dentro do musical. A intenção é multiplicar os pontos de vista e produzir diferentes acontecimentos visuais ao longo da narrativa.

Não se trata, ao menos pelo que foi apresentado até agora, de usar projeções apenas como pano de fundo. A câmera passa a ser uma maneira de olhar para Marcelo, e potencialmente de aproximar o público de um personagem cuja relação com ser observado, tocar, desejar e ser desejado é parte essencial de sua história.

Anos 1980 sem virar peça de museu

Há outra decisão reveladora no projeto: apesar de Feliz Ano Velho carregar fortemente a identidade cultural e política dos anos 1980, a montagem não pretende reproduzir integralmente a estética daquele período.

Segundo a equipe, o desenho visual será predominantemente contemporâneo, com apenas alguns elementos capazes de remeter à época.

A década estará muito mais presente pela música.

A trilha reúne nomes do rock brasileiro como Legião Urbana, Titãs, Lulu Santos e Barão Vermelho, transformando o repertório daquela geração em parte da dramaturgia musical. A direção é de Gustavo Barchilon, com adaptação de Marília Toledo a partir da versão teatral escrita por Alcides Nogueira e direção musical de Carlos Bauzys.

Essa escolha ganha outra dimensão quando colocada ao lado do próprio contexto de Feliz Ano Velho. O livro não narra apenas um acidente. Também captura uma juventude que atravessava o fim dos anos 1970 e o começo dos 1980 enquanto o Brasil caminhava do regime militar em direção à redemocratização. A Companhia das Letras situa a obra justamente nesse ambiente de abertura política e expectativa por um novo país.

Na coletiva, Cazuza, Renato Russo e a chamada “geração Coca-Cola” aparecem não apenas como referências musicais, mas como símbolos de uma juventude tentando imaginar o futuro. Em uma das falas mais significativas do encontro, a discussão chega à possibilidade de “fazer revolução com cultura”: transformar não pela violência, mas mudando “a alma”, “o coração” e “a cabeça” das pessoas.

É nesse ponto que o uso do rock pode escapar da função de jukebox nostálgica.

As músicas pertencem ao mesmo universo geracional que produziu o livro e a primeira montagem teatral. Em 1983, a encenação de Paulo Betti já dialogava com o rock e com uma juventude vivendo num país ainda repressivo e diante de um futuro político incerto. Agora, o repertório volta diante de outra geração, em outro Brasil.

Hugo Bonemer assume Marcelo; Heloisa Périssé e Bruno Garcia vivem os pais do escritor

No palco, Hugo Bonemer interpreta Marcelo Rubens Paiva. Bruno Garcia vive o deputado Rubens Paiva, pai do escritor, enquanto Heloisa Périssé assume Eunice Paiva. Depois da temporada paulistana, a produção seguirá para o Rio de Janeiro.

A presença de Rubens e Eunice amplia inevitavelmente a leitura da história familiar. Marcelo é também autor de Ainda Estou Aqui, livro sobre a mãe e sobre o desaparecimento e assassinato de Rubens Paiva pela ditadura militar, levado ao cinema por Walter Salles e vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A projeção internacional dessa história colocou novamente a família Paiva no centro da discussão cultural brasileira.

Mas reduzir o interesse renovado por Feliz Ano Velho ao sucesso de Ainda Estou Aqui seria ignorar um movimento maior.

O livro parece atravessar um novo ciclo de adaptações.

Em junho de 2025, a Orquestra Ouro Preto estreou Feliz Ano Velho – A Ópera, com música e libreto de Tim Rescala, levando a obra para uma linguagem lírica mais de quatro décadas depois de sua publicação.

Agora vem o musical. E, em julho de 2026, a Netflix anunciou oficialmente que prepara também uma série baseada no livro, produzida pela Amaia e pela O2 Filmes. As gravações ainda não haviam começado no momento do anúncio e a plataforma não divulgou previsão de estreia.

Teatro, cinema, ópera, musical e streaming disputam, em tempos diferentes, maneiras de olhar para a mesma história.

SERVIÇO

Feliz Ano Velho – O Musical
Temporada: de 19 de setembro a 22 de novembro de 2026
Local: Teatro Sabesp Frei Caneca — Shopping Frei Caneca, Rua Frei Caneca, 569, 7º andar, São Paulo
Duração: 110 minutos
Classificação: 14 anos
Ingressos: valores a partir de R$ 25 nas sessões promocionais indicadas pela bilheteria oficial; preços e disponibilidade variam conforme data e setor.
Venda oficial: Uhuu.

Teatro MusicalIsabel Branquinha

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