Roteiro nunca filmado de Antonioni vai virar longa com Alice Wegmann e direção brasileira
“Tecnicamente Doce”, projeto que levou Michelangelo Antonioni à Amazônia nos anos 1960, será dirigido por André Ristum em coprodução internacional
Alice Wegmann está se preparando para um filme que começou a ser imaginado antes mesmo de ela nascer, muito antes, aliás.
A atriz integra “Tecnicamente Doce”, novo longa de André Ristum, baseado em um roteiro que o cineasta italiano Michelangelo Antonioni escreveu nos anos 1960, chegou a desenvolver para filmar e nunca conseguiu transformar em filme. Mais de meio século depois, o projeto será retomado em uma coprodução internacional, com passagens pela Sardenha e pela Amazônia brasileira.
Por si só, a notícia já seria relevante na trajetória de Alice, que vem de forte projeção recente na televisão e se prepara para seu primeiro longa falado em outra língua. Mas a história que existe antes de sua chegada ao elenco talvez seja ainda mais curiosa.
“Tecnicamente dolce” nasceu no mesmo período em que Antonioni desenvolvia “Blow-Up”, lançado em 1966 e transformado posteriormente em um dos filmes mais conhecidos de sua carreira. Os dois projetos chegaram ao produtor Carlo Ponti. Um deles virou cinema. O outro permaneceu no papel.
Antonioni não abandonou o filme sem tentar realizá-lo.
O cineasta fez pesquisas e viagens pela América do Sul em busca de referências e locações. Materiais preservados no Arquivo Antonioni registram imagens e pesquisas ligadas a lugares como Manaus, Rio Negro, Porto Velho, Iquitos, Brasília e Xingu, entre outras regiões. Quando o diretor acreditava ter encontrado caminhos para a produção, Ponti interrompeu o projeto.
O roteiro acabaria publicado em livro pela editora italiana Einaudi, em 1976.
A história do filme poderia ter terminado aí.
Não terminou.
Um roteiro que atravessou duas gerações brasileiras
A ligação brasileira com “Tecnicamente Doce” começa antes de André Ristum.
Seu pai, Jirges Ristum, era jornalista e deixou o Brasil durante a ditadura militar. No período em que viveu na Europa, aproximou-se de Antonioni, tornou-se seu assistente e amigo e trabalhou com o cineasta italiano. Quando Antonioni desistiu de dirigir “Tecnicamente Doce”, entregou o roteiro a Jirges para que ele pudesse transformá-lo em seu primeiro longa-metragem.
Jirges voltou ao Brasil depois da anistia carregando também a possibilidade de realizar o filme. Morreu de leucemia em 1984, antes de conseguir colocar o projeto de pé.
Décadas depois, André Ristum retomaria essa história.
Diretor de filmes como “Meu País”, “O Outro Lado do Paraíso”, “A Voz do Silêncio” e “Ninguém Sai Vivo Daqui”, Ristum procurou Enrica Antonioni, viúva do cineasta, e começou a desenvolver uma nova versão do projeto. A produção envolve a brasileira Gullane, a italiana Vivo Film e, em atualizações mais recentes do mercado internacional, a alemã Komplizen Film.
O resultado não pretende simplesmente filmar em 2026 um roteiro congelado nos anos 1960.
Essa diferença é importante. “Tecnicamente Doce” não deve ser tratado como “um novo filme de Antonioni”, como se alguém estivesse apenas completando uma obra deixada pronta pelo diretor. Trata-se de uma realização contemporânea, comandada por André Ristum, construída a partir de um projeto que Antonioni não conseguiu filmar.
A autoria, portanto, carrega camadas: a matriz é de Antonioni, mas o filme que chegará ao público será também resultado de uma adaptação, de outro tempo histórico, de outra equipe e de uma relação muito particular entre Brasil e Itália.
Da Sardenha para a Amazônia
A história acompanha um ex-jornalista atravessado por uma crise existencial e por um desencanto profundo com a sociedade em que vive. A partir de uma passagem pela Sardenha, ele acaba envolvido em uma expedição pela Amazônia e entra em contato com uma natureza que não consegue simplesmente dominar, organizar ou transformar em paisagem.
É um território reconhecível dentro do cinema de Antonioni.
Filmes como “A Aventura”, “A Noite”, “O Eclipse”, “Deserto Vermelho” e “Blow-Up” fizeram do cineasta um dos grandes observadores da incomunicabilidade, do vazio e da dificuldade de seus personagens em encontrar lugar no mundo ao redor. Em “Tecnicamente Doce”, essa investigação parecia se deslocar para outro tipo de confronto: o de um homem em ruptura consigo mesmo diante de uma natureza que escapa ao controle.
Há uma conexão particularmente curiosa com outro trabalho posterior.
O próprio Arquivo Antonioni observa que situações e figuras imaginadas em “Tecnicamente dolce” antecipam elementos que apareceriam anos depois em “Profissão: Repórter”, lançado em 1975 e estrelado por Jack Nicholson. No filme, um jornalista insatisfeito assume a identidade de um homem morto e tenta abandonar a própria vida.
A ideia de um personagem em fuga de sua própria existência, lançado sobre outra geografia, já estava sendo explorada naquele projeto amazônico que nunca saiu do papel.
Isso ajuda a entender por que “Tecnicamente Doce” desperta tanto interesse. Não é apenas um roteiro perdido de um diretor consagrado. É uma espécie de peça ausente dentro de uma obra marcada por deslocamentos, desertos, cidades vazias, paisagens mentais e personagens incapazes de se encaixar no próprio tempo.
Alice Wegmann entra no projeto pela língua
É nesse projeto atravessado por mais de cinco décadas de história que Alice Wegmann entra agora.
A atriz, que viveu um período de grande visibilidade com “Vale Tudo”, já contou que vem se preparando com aulas e treino de italiano. A mudança de idioma aparece como um novo desafio em uma carreira construída majoritariamente no audiovisual brasileiro.
Esse detalhe importa porque “Tecnicamente Doce” não representa apenas mais um papel internacional no currículo de uma atriz brasileira. O projeto pede deslocamento de língua, território e repertório. Alice entra em uma obra cuja história já passa por cinema italiano moderno, exílio brasileiro, Amazônia, memória familiar e coprodução internacional.
Nos últimos anos, a presença de atores brasileiros em produções estrangeiras e coproduções vem crescendo, mas o caso de “Tecnicamente Doce” tem uma característica própria. Não se trata simplesmente de uma produção de fora que escolheu uma atriz brasileira para seu elenco. A própria existência do filme depende de uma relação entre Brasil e Itália construída durante décadas.
Antonioni pensou a Amazônia como parte fundamental da narrativa. Jirges Ristum tentou realizar o filme. André Ristum herdou não apenas um roteiro, mas uma ligação familiar com o projeto. A produção agora envolve empresas brasileiras e europeias e prevê filmagens entre territórios que já existiam na concepção original.
Alice chega ao fim dessa longa cadeia, mas também abre uma nova etapa para o filme: a do projeto que finalmente começa a se aproximar de sua realização concreta.
Um filme que já esperou mais de meio século
O roteiro voltou a ser apresentado ao público brasileiro em 2023, durante a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que realizou uma grande retrospectiva dedicada a Michelangelo Antonioni. Na ocasião, houve leitura dramática de “Tecnicamente Doce” com atores brasileiros, além de um encontro promovido pelo Instituto Italiano de Cultura com Enrica Antonioni, André Ristum, o produtor Fabiano Gullane e a roteirista Helen Beltrame-Linné.
Naquele momento, o filme ainda era, essencialmente, uma promessa.
Agora, com a entrada de Alice Wegmann no elenco e a retomada do projeto em coprodução, “Tecnicamente Doce” ganha uma nova peça em uma história que parece improvável até para os padrões do cinema.
Existem filmes que demoram anos para chegar às telas. Este atravessou um dos cineastas mais importantes do século XX, uma ditadura, um exílio, a morte de dois homens que desejaram dirigi-lo e duas gerações de uma mesma família.
Quando “Tecnicamente Doce” finalmente chegar ao cinema, portanto, não estará apenas recuperando um roteiro de Michelangelo Antonioni.
Estará concluindo uma história que começou a ser filmada, pelo menos na imaginação, há mais de meio século.
Ficha do projeto
Tecnicamente Doce
Título original: Tecnicamente dolce
Direção: André Ristum
Baseado em roteiro de: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni e Helen Beltrame-Linné
Elenco: Alice Wegmann
Produção: Gullane, Vivo Film e Komplizen Film
Países envolvidos: Brasil, Itália e Alemanha
Locações previstas: Amazônia brasileira e Sardenha
Status: em desenvolvimento / preparação
Data de estreia: ainda não divulgada



