Cate Blanchett entra em jogo de identidades ao unir Sófocles e Bergman nos palcos de Londres
Em “Electra/Persona”, nova produção do National Theatre, atriz divide e troca papéis com Nina Hoss em espetáculo que aproxima uma tragédia escrita há mais de 2 mil anos de um dos filmes mais enigmáticos de Ingmar Bergman
Cate Blanchett pode entrar em cena como Electra. Ou como Clitemnestra.
Quem comprou o ingresso não sabe.
Na apresentação seguinte, os papéis podem estar invertidos.
É a partir desse jogo que uma das produções mais curiosas da temporada teatral londrina começou suas apresentações nesta quarta-feira, 19 de agosto. Em Electra/Persona, no National Theatre, Blanchett reencontra Nina Hoss, sua parceira de cena em Tár, para colocar lado a lado duas obras separadas por aproximadamente 23 séculos: a tragédia Electra, de Sófocles, e Persona, filme realizado por Ingmar Bergman em 1966.
Não se trata de apresentar uma peça e depois outra.
Escrita e dirigida por Benedict Andrews, a montagem foi concebida como uma única obra em duas partes, na qual personagens, atrizes e identidades começam a contaminar umas às outras. Blanchett e Hoss alternam durante toda a temporada os pares Electra/Elisabeth e Clitemnestra/Alma. A escala existe, mas permanece escondida do público: cada espectador só descobre qual atriz interpretará qual conjunto de personagens quando uma delas entra no palco.
A ideia transforma o próprio casting em parte da dramaturgia.
E faz sentido especialmente porque Persona já começa, em sua origem cinematográfica, com uma atriz diante de Electra.
O grito de uma mulher encontra o silêncio de outra
Na tragédia de Sófocles, escrita no século V a.C., Electra vive consumida pelo assassinato do pai, Agamêmnon, morto por Clitemnestra e Egisto. Incapaz de aceitar o crime, ela permanece agarrada ao luto e à ideia de vingança enquanto espera o retorno do irmão, Orestes.
Mais de dois mil anos depois, Bergman partiria de uma situação completamente diferente para chegar curiosamente ao mesmo texto.
Em Persona, Elisabeth Vogler é uma atriz que subitamente para de falar durante uma apresentação de Electra. Sem uma explicação médica clara para seu silêncio, ela passa a ser acompanhada pela enfermeira Alma. Isoladas, as duas estabelecem uma relação progressivamente mais íntima, agressiva e difícil de definir, enquanto os limites entre suas identidades parecem começar a desaparecer.
Foi justamente essa ligação que intrigou Benedict Andrews durante anos.
Ao Guardian, o diretor contou que sempre se perguntou por que Bergman havia escolhido especificamente Electra como a peça durante a qual Elisabeth rompe com a fala. Ao aproximar os dois materiais, Andrews percebeu durante os ensaios que as histórias podiam funcionar como aquilo que definiu como um único “ciclo de luto”.
Na primeira metade da apresentação está Sófocles.
Depois vem Bergman.
Mas elementos de um texto aparecem no outro, e a montagem evita tratá-los como um programa duplo convencional. Para Andrews, trata-se de uma única obra articulada por uma espécie de dobradiça dramatúrgica.
Cate Blanchett e Nina Hoss precisam saber quatro personagens
A estratégia cria uma dificuldade nada pequena para suas protagonistas.
Quem interpreta Electra naquela noite reaparece em Persona como Elisabeth. Quem assume Clitemnestra retorna como Alma.
No espetáculo seguinte, Blanchett e Hoss podem trocar.
Durante o processo de criação, portanto, as duas precisaram ensaiar as duas trajetórias completas.
A primeira ideia de Andrews era ainda mais radical: decidir a distribuição em cena por meio de um cara ou coroa no início de cada apresentação. O diretor abandonou a proposta e criou uma escala prévia para dar às atrizes alguma possibilidade de preparação antes da sessão — mas decidiu não revelar o calendário ao público.
Isso significa que nem mesmo alguém interessado em comprar ingressos para assistir Cate Blanchett especificamente como Electra consegue saber antecipadamente em qual noite isso acontecerá.
A escolha não funciona apenas como brincadeira.
Persona é, afinal, uma obra sobre identidade, máscaras e a dificuldade de determinar onde termina uma pessoa e começa a imagem que ela apresenta ao mundo. A palavra “persona” carrega historicamente justamente essa ideia de máscara, papel ou identidade construída.
Colocar duas atrizes trocando as mesmas personagens faz com que essa pergunta exista também diante do espectador.
O que muda quando Electra tem outro corpo?
Clitemnestra continua sendo a mesma personagem quando a atriz que ontem a interpretava hoje vive sua filha?
E o quanto uma interpretação permanece dentro da outra?
De “Tár” para o palco
Há outra camada particularmente interessante no encontro.
Cate Blanchett e Nina Hoss já interpretaram um casal em Tár, filme de Todd Field lançado em 2022. Hoss vivia Sharon Goodnow, esposa e spalla da orquestra comandada por Lydia Tár, personagem de Blanchett.
Em Electra/Persona, essa intimidade anterior é deslocada para relações radicalmente diferentes.
Quando uma assume Electra e a outra Clitemnestra, são filha e mãe presas em uma história de assassinato, ressentimento e vingança. Depois, como Elisabeth e Alma, entram numa relação em que admiração, dependência, intimidade e hostilidade passam a se misturar.
Andrews disse ter percebido entre as duas uma espécie de eco: não são atrizes parecidas, mas existe algo que permite observá-las quase como reflexos imperfeitos uma da outra. Durante os ensaios, cada uma também podia acompanhar as escolhas feitas pela colega para exatamente o mesmo papel — e decidir se absorvia aquela possibilidade ou seguia em direção completamente diferente.
A produção transforma essa diferença em parte da experiência.
Assistir a Electra/Persona com Blanchett em uma combinação, portanto, não significa necessariamente assistir ao mesmo espetáculo de uma noite em que Hoss ocupa aquele lugar.
Cate Blanchett nunca esteve tão distante do teatro quanto Hollywood faz parecer
Para uma parcela do público, o espetáculo pode ser vendido como “Cate Blanchett voltando aos palcos”.
Mas a relação da atriz com o teatro é muito mais profunda.
Antes de ser uma das estrelas mais reconhecidas do cinema internacional, Blanchett construiu parte importante de sua carreira no teatro australiano e chegou a dividir, ao lado do marido Andrew Upton, a direção artística da Sydney Theatre Company.
Sua parceria com Benedict Andrews também não começa agora. Os dois trabalharam juntos em montagens como The War of the Roses, Gross und Klein e The Maids. Nesta última, Blanchett dividia o palco com Isabelle Huppert em uma encenação do texto de Jean Genet que passou pela Austrália e por Nova York.
Nos últimos anos, a presença teatral voltou a ganhar frequência. Em 2019, Blanchett esteve no próprio National Theatre em When We Have Sufficiently Tortured Each Other. Em 2025, interpretou Arkadina em The Seagull, no Barbican.
Electra/Persona coloca essa trajetória novamente num espaço em que ela parece especialmente confortável: projetos que não usam uma estrela cinematográfica apenas para vender ingressos, mas exigem que o próprio mecanismo da atuação se torne assunto.
Por que Electra voltou?
Há ainda uma coincidência difícil de ignorar.
Enquanto Electra/Persona chega ao National Theatre, histórias da Grécia Antiga voltaram a ocupar alguns dos maiores palcos e telas da cultura popular.
Christopher Nolan levou A Odisseia para o cinema. Em Londres, Simon Stone revisitou a família de Agamêmnon em The Oresteia. Outras produções recentes têm retornado a personagens como Medeia, Fedra e Pandora.
A escritora e classicista Natalie Haynes observou recentemente que uma parte importante desse movimento tem colocado em primeiro plano justamente as mulheres das narrativas gregas, frequentemente personagens obrigadas a reagir a mundos construídos por homens, guerras e estruturas de poder que pouco espaço oferecem para sua voz.
Electra talvez seja uma das personagens mais adequadas para esse momento.
Ela não consegue parar de falar sobre aquilo que aconteceu.
Elisabeth, em Persona, faz exatamente o contrário.
Ela para de falar.
Entre o grito de uma e o silêncio da outra, Benedict Andrews encontrou espaço para perguntar o que acontece quando interpretar uma personagem deixa de ser apenas fingimento — e começa a alterar aquilo que existe por baixo da máscara.
Talvez por isso Electra/Persona pareça um projeto tão adequado a Cate Blanchett.
Não é apenas uma peça em que ela interpreta duas mulheres.
É uma peça interessada em descobrir o que significa interpretar alguém.
E, dependendo da noite, nem o público sabe exatamente quem ela será.
Serviço
Electra/Persona
Lyttelton Theatre — National Theatre, Londres
De 19 de agosto a 10 de outubro de 2026
Noite oficial de imprensa: 1º de setembro
Texto e direção: Benedict Andrews, a partir de Sófocles e Ingmar Bergman
Com Cate Blanchett, Nina Hoss, Ella Lily Hyland e Patrick Robinson
Composição: Hildur Guðnadóttir
Cenografia: Magda Willi
Figurinos: Merle Hensel



