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Teatro Foyer

“As Armas Milagrosas” reestreia no Itaú Cultural em temporada gratuita

“As Armas Milagrosas” reestreia no Itaú Cultural em temporada gratuita
Imagem: Marcelle Cerutti

Inspirado em Luigi Pirandello e Aimé Césaire, espetáculo dirigido por Anderson Negreiro e Daniela Manrique discute racismo estrutural, autoria e representação

O palco se transforma em campo de disputa em “As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência”, espetáculo que reestreia em São Paulo no dia 6 de agosto, no Itaú Cultural, onde fica em cartaz gratuitamente até 16 de agosto.

Idealizada e dirigida por Anderson Negreiro e pela diretora colombiana Daniela Manrique, a montagem parte de um cruzamento entre o metateatro de Luigi Pirandello e a poética anticolonial de Aimé Césaire. A dramaturgia articula referências de “Seis Personagens à Procura de um Autor” e de “E os Cães se Calavam”, texto de Césaire presente na coletânea “As Armas Milagrosas”, para discutir racismo estrutural, autoria e disputa por visibilidade no Brasil contemporâneo.

A trama começa durante o ensaio de uma comédia de Pirandello. Um grupo de funcionários negros do teatro interrompe a cena e reivindica o direito de narrar a própria história. A partir desse gesto, o espetáculo desloca a relação entre centro e margem, colocando em confronto personagens brancos e negros, representação e existência, apagamento e presença.

Na nova dramaturgia, as seis personagens originais de Pirandello são atravessadas por figuras presentes na obra de Césaire — o Rebelde, a Mãe e o Coro —, aqui representadas como funcionários de um teatro. Elas deixam de ser apenas personagens ficcionais e passam a se apresentar como corpos racializados que reivindicam autoria sobre suas próprias narrativas.

A ideia surgiu em 2021, quando Anderson Negreiro trabalhou com o texto de Césaire. Mais tarde, ao reler Pirandello, o diretor passou a observar as personagens que entram pela coxia em busca de um autor como corpos que poderiam questionar não apenas a ficção, mas também as estruturas sociais que determinam quem pode existir plenamente em cena.

“Percebi que aquelas personagens que entram pela coxia em busca de um autor, reivindicando a continuidade da própria existência, poderiam ser corpos reais — personagens criados pela branquitude que, mais do que personagens ficcionais, lutam por existir e afirmar sua autoria no mundo”, afirmam os diretores.

A encenação também dialoga com reflexões de Lilia Schwarcz em “Imagens da Branquitude – Presença e Ausência”, especialmente na análise sobre como pessoas negras foram historicamente representadas nas artes visuais: muitas vezes à margem, ao fundo ou quase apagadas, enquanto figuras brancas ocupam o centro da imagem.

A partir dessa provocação, a luz se torna o principal dispositivo dramatúrgico do espetáculo. O desenho criado por Matheus Brant organiza a cena em torno de um cubo central iluminado, que separa o centro da margem. No interior desse espaço estão o Primeiro Ator e a Primeira Atriz, representações alegóricas da branquitude. Ao redor, permanecem os funcionários negros do teatro, que operam o espaço e tentam atravessar a fronteira luminosa.

“A luz é a dramaturgia que revela a separação dos corpos. É por meio dela que a gente torna visível uma estrutura que normalmente não se vê — o racismo que organiza quem está no centro e quem fica à margem”, afirma Anderson Negreiro.

Sem cenário fixo, a montagem utiliza carpete, adereços pontuais e a própria iluminação como elementos centrais da narrativa. O espetáculo se estrutura como um ensaio interrompido, no qual a cena é tensionada por vozes que recusam permanecer invisíveis.

Com elenco formado por Sandra Corveloni, Barroso, Cainã Naira, Caio Silviano, Ciça Barros, Heitor Goldflus, Josy.Anne, Leandro Vieira, Rita Pisano, Angela Ribeiro e Anderson Negreiro, “As Armas Milagrosas” propõe uma metaficção sobre os mecanismos de representação e os limites de uma tradição teatral historicamente construída a partir de centros de poder.

Mais do que adaptar dois autores fundamentais, o espetáculo os coloca em fricção. Pirandello oferece a estrutura metateatral; Césaire desloca essa estrutura para o campo da crítica colonial e racial. Desse encontro nasce uma obra que pergunta quem tem direito de aparecer, quem pode falar, quem é reconhecido como personagem e quem precisa reivindicar, ainda hoje, a própria existência.

Serviço

As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência

Direção geral, idealização e concepção: Anderson Negreiro

Dramaturgia: Anderson Negreiro

Tradução de “As Armas Milagrosas” e “E os Cães se Calavam”: Daniela Manrique

Direção: Daniela Manrique e Anderson Negreiro

Produção: Corpo Rastreado — Letícia Alves

Elenco: Sandra Corveloni, Barroso, Cainã Naira, Caio Silviano, Ciça Barros, Heitor Goldflus, Josy.Anne, Leandro Vieira, Rita Pisano, Angela Ribeiro e Anderson Negreiro

Temporada: de 6 a 16 de agosto de 2026

Local: Itaú Cultural

Endereço: Avenida Paulista, 149 — Bela Vista, São Paulo — SP

Sessões:Quintas, sextas e sábados, às 20hDomingos, às 18h

Ingressos: gratuitos, com retirada 1 hora antes de cada sessão

Duração: 120 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Informações: (11) 2168-1777

Ficha técnica

Direção geral, idealização e concepção: Anderson Negreiro

Dramaturgia: Anderson Negreiro

Tradução de “As Armas Milagrosas” e “E os Cães se Calavam”: Daniela Manrique

Direção: Daniela Manrique e Anderson Negreiro

Elenco: Sandra Corveloni, Barroso, Cainã Naira, Caio Silviano, Ciça Barros, Heitor Goldflus, Josy.Anne, Leandro Vieira, Rita Pisano, Angela Ribeiro e Anderson Negreiro

Desenho de luz: Matheus Brant

Assistência de iluminação: Filipe Batista

Operação de luz: Filipe Batista e Matheus Brant

Trilha sonora: Dani Nega

Musicista criadora: Josy.Anne

Músicos criadores: Barroso, Caio Silviano e Gabriel Moreira

Preparação vocal e arranjo de voz: Renato Spinosa

Operação de som e vídeo: Tomé de Souza

Microfonistas: Camila Cruz e Adnes Souza

Videografia: Vic Von Poser

Figurino: Éder Lopes

Cenografia: Éder Lopes e Anderson Negreiro

Máscaras: Rafael Érnica

Fotografia: Marcelle Cerutti

Marketing digital: Elã Comunicação

Assessoria de imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira

Produção executiva: Éder Lopes

Produção: Corpo Rastreado — Letícia Alves

TeatroIsabel Branquinha

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