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Aos 85, Ney Matogrosso vai para os estádios — e deixa claro que ainda não está se despedindo

Aos 85, Ney Matogrosso vai para os estádios — e deixa claro que ainda não está se despedindo
Foto: David LaChapelle/Divulgação

“85 Anos de Ousadia” terá dez apresentações ao longo de 2027, recuperará figurinos históricos sob novas formas e terminará no Maracanã; campanha fotografada por David LaChapelle acompanha novo projeto do cantor

Ney Matogrosso completou 85 anos em 1º de agosto e escolheu comemorar aumentando o tamanho dos palcos.

O cantor anunciou nesta semana a turnê 85 Anos de Ousadia, projeto de dez apresentações que percorrerá grandes espaços brasileiros ao longo de 2027. A estreia será em 30 de janeiro, no Nubank Parque, em São Paulo, e o último show entre os anunciados já tem um endereço capaz de dar a dimensão da proposta: o Maracanã, no Rio de Janeiro, em 18 de dezembro.

Cinco das dez datas já estão confirmadas. Entre São Paulo e Rio, Ney passa pela Arena da Baixada, em Curitiba, em 3 de abril; pelo Classic Hall, no Recife, em 17 de abril; e pela Esplanada do Mineirão, em Belo Horizonte, em 1º de maio. As outras cinco apresentações ainda serão anunciadas.

A idade está no título.
A despedida, não.

Ao apresentar o projeto, Ney tratou de afastar uma interpretação que costuma acompanhar grandes turnês comemorativas de artistas com décadas de carreira.

“Não estou me despedindo”, afirmou durante a coletiva de lançamento. Em outro momento, resumiu a relação que ainda mantém com o palco: “A idade e o tempo de carreira não impactam em nada. Eu continuo na estrada, gosto de ter gente na minha frente e de dançar”.

Talvez esteja justamente aí a parte mais interessante do anúncio.

Aos 85 anos, Ney não está vendendo ao público uma última oportunidade de vê-lo.

Está planejando dez grandes shows para o ano seguinte.
Olhar para trás sem transformar a carreira em museu
Turnês comemorativas carregam uma armadilha narrativa quase automática.

Quando um artista atravessa cinco ou seis décadas de carreira, repertório retrospectivo, imagens de arquivo e figurinos históricos podem rapidamente assumir uma aparência de inventário. O passado passa a ser organizado como se estivesse pronto para ser encerrado.

85 Anos de Ousadia vai recorrer diretamente à memória de Ney.

Mas a proposta anunciada até agora sugere outra relação com ela.

Para as dez apresentações, o cantor pretende usar dez figurinos inspirados em visuais de diferentes momentos de sua carreira — um em cada show. A ideia não é reproduzir literalmente as peças originais, mas partir delas para construir novas versões.

O primeiro já foi escolhido.

Ney quer recuperar a imagem do “Bandido”, mas modificá-la.

“Não é copiar, é se inspirar”, explicou. A nova versão, antecipou, será “um bandido todo de ouro”.

O gesto ajuda a definir o projeto.

Ney não pretende simplesmente vestir novamente aquilo que usou décadas atrás.

Pretende mexer na própria iconografia.

A roupa nunca foi apenas roupa

Faz sentido que uma retrospectiva de Ney Matogrosso passe pelo figurino porque sua trajetória nunca esteve restrita ao que saía das caixas de som.

Quando os Secos & Molhados começaram a chamar atenção em São Paulo, no início dos anos 1970, o corpo de Ney já era parte fundamental daquela linguagem.

Rosto pintado, brilho, roupas que escapavam das convenções de gênero, movimentos do corpo e uma voz que confundia parte de quem escutava pela primeira vez ajudaram a transformar o grupo em fenômeno nacional. O primeiro disco, lançado em 1973, chegou à marca de 1 milhão de cópias em menos de seis meses.

Tudo isso acontecia em plena ditadura militar.

O próprio site oficial do cantor registra que a exposição da sexualidade e a irreverência do grupo incomodavam setores do regime. Estudos posteriores também analisaram a presença cênica de Ney como uma performance que tensionava padrões de gênero e comportamento da sociedade brasileira daquele período.

Décadas depois, o cantor já explicou que aquilo não nasceu de um projeto calculado para provocar.

Ao falar sobre o conceito da nova turnê, voltou à mesma ideia.

“Eu sempre atravessei os limites, mas eu não saberia viver de outra maneira”, afirmou. “Nunca foi para chocar, sempre foi uma necessidade minha de estar solto, estar livre, me expressar.”

É uma distinção importante para entender também o que significa recuperar esses figurinos agora.

Eles não funcionam apenas como roupas famosas guardadas em um arquivo.

São registros de diferentes maneiras pelas quais Ney construiu a própria presença pública.

David LaChapelle entra nesse arquivo

A campanha visual da nova turnê acrescenta outro nome a essa história.

As fotografias de 85 Anos de Ousadia foram feitas pelo norte-americano David LaChapelle, conhecido por retratos de artistas como Madonna, Elton John, Mariah Carey e, mais recentemente, Sabrina Carpenter.

Segundo a divulgação do projeto, Ney é o primeiro artista brasileiro fotografado por LaChapelle. O ensaio foi realizado no Jardim Botânico de São Paulo.

A aproximação começou depois de o fotógrafo assistir a Homem com H, cinebiografia de Ney dirigida por Esmir Filho e protagonizada por Jesuíta Barbosa.

De acordo com a 30e, responsável pela turnê, LaChapelle se interessou pelo universo visual encontrado no filme e, a partir do conceito desenvolvido para os novos shows, construiu as imagens da campanha.

O encontro é especialmente coerente porque os dois construíram carreiras em torno de uma ideia semelhante: a imagem não precisa apenas registrar o artista; pode participar da criação dele.

Ney passou mais de cinco décadas transformando figurino, maquiagem e corpo em elementos de cena.

LaChapelle passou boa parte de sua carreira transformando pessoas conhecidas em personagens de imagens deliberadamente artificiais, fantásticas e excessivas.

Aos 85, Ney entrega sua iconografia a outro criador não para reproduzir aquilo que já existe, mas para construir a próxima imagem.

O Maracanã não aparece depois de um período de silêncio

A escala de 85 Anos de Ousadia chama atenção também por outra razão.
Essa não é uma turnê anunciada depois de anos de afastamento.

É quase o oposto.

Bloco na Rua estreou em 2019 e se tornou a turnê mais longeva da carreira de Ney Matogrosso. Mesmo depois da interrupção provocada pela pandemia, o espetáculo continuou atravessando cidades e ganhou versões ampliadas para grandes espaços.

Em 10 de agosto de 2024, Ney levou o show ao Allianz Parque, em São Paulo.

Os 45 mil ingressos foram esgotados.

Foi, naquele momento, apresentado como o maior show solo de sua carreira.
O que poderia ter funcionado como uma grande noite isolada não terminou ali.
Em 21 de dezembro de 2025, ele voltou ao mesmo estádio com Bloco na Rua.

E há um detalhe importante: segundo Ney, a base do repertório da nova turnê continuará vindo justamente desse espetáculo, ainda que o projeto ganhe outra escala e outra construção visual.

Ou seja, 85 Anos de Ousadia não surge para tentar recuperar um público que deixou de acompanhar o cantor.

Surge depois de uma turnê de sete anos que já havia mostrado que esse público ainda existe.

E que cabe em estádio.
Depois, o cinema ampliou a história

Entre os dois shows no Allianz Parque, outro acontecimento levou Ney a um público diferente.

Homem com H estreou comercialmente nos cinemas brasileiros em 1º de maio de 2025.

Pouco mais de um mês depois, a cinebiografia já havia ultrapassado 600 mil espectadores e R$ 13 milhões em bilheteria, segundo dados do Filme B Box Office Brasil.

O longa termina justamente com imagens da apresentação de Ney no Allianz Parque em 2024.

É um encontro curioso entre biografia e presente.

Depois de acompanhar Jesuíta Barbosa reconstruindo diferentes fases da vida do cantor, o filme devolve o espectador ao Ney real, já octogenário, diante de dezenas de milhares de pessoas.

A cinebiografia também ampliou a circulação de sua história entre pessoas que não viveram a explosão dos Secos & Molhados em 1973 nem acompanharam diretamente as diferentes transformações de sua carreira solo.

LaChapelle foi uma delas.
É nesse contexto que a nova turnê aparece.
Não como tentativa de lembrar ao público quem foi Ney Matogrosso.
Mas num momento em que diferentes gerações parecem interessadas, ao mesmo tempo, por quem ele foi e pelo que continua fazendo.

Quantos artistas chegam aos 85 planejando o Maracanã?

A pergunta é inevitável porque longevidade artística e demanda de público são coisas diferentes.

Um artista pode continuar criando por muitas décadas sem ocupar grandes arenas.

Também pode lotar estádios durante determinado período e passar o resto da carreira convivendo com a memória daquela escala.

Ney chega aos 85 numa situação menos comum.

Tem mais de cinco décadas de trajetória acumulada e, ao mesmo tempo, evidências recentes de interesse por aquilo que apresenta agora.

O primeiro show da nova turnê acontece no mesmo complexo paulistano onde ele já havia colocado dezenas de milhares de pessoas.

Curitiba recebe o espetáculo em uma arena esportiva.
Belo Horizonte terá a montagem na Esplanada do Mineirão.
E o calendário anunciado até agora termina dentro do Maracanã.
Há um componente retrospectivo evidente.
A própria idade batiza a turnê.
Os figurinos recuperam imagens construídas ao longo de décadas.

A campanha visual trabalha com a iconografia de um artista que já ocupa lugar consolidado na cultura brasileira.

Mas talvez a diferença entre retrospectiva e despedida esteja no verbo escolhido.

Ney não está simplesmente reexibindo.
Está recriando.
O Bandido volta dourado.
Dez figurinos recebem novas versões.
David LaChapelle produz imagens que ainda não existiam.
Um novo espetáculo está sendo montado.
Cinco cidades ainda nem foram reveladas.

Aos 85 anos, quando seria perfeitamente possível organizar o próprio passado como monumento, Ney Matogrosso parece preferir usá-lo como matéria-prima.

E chegar ao Maracanã em dezembro de 2027 não como quem fecha uma porta.

Mas como alguém que já fez questão de avisar que ainda não pretende sair do palco.

SERVIÇO — NEY MATOGROSSO: 85 ANOS DE OUSADIA

São Paulo
30 de janeiro de 2027, às 19h
Nubank Parque

Curitiba
3 de abril de 2027, às 20h
Arena da Baixada

Recife
17 de abril de 2027, às 21h
Classic Hall

Belo Horizonte
1º de maio de 2027, às 20h
Esplanada do Mineirão

Rio de Janeiro
18 de dezembro de 2027, às 19h
Estádio do Maracanã

A turnê terá dez apresentações no total. As outras cinco datas e cidades serão anunciadas posteriormente.

Pré-venda Itaú Private e Personnalité: desde 27 de agosto, às 10h
Pré-venda demais clientes Itaú: a partir de 28 de agosto, às 10h
Venda geral: 31 de agosto, às 12h pela internet e às 13h nas bilheterias oficiais
Ingressos: Eventim

MúsicaIsabel Branquinha

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